Carta para ti

Só escrevi pra te agradecer.

Ao teu lado, sempre me sentia estúpida e desajeitada. Eu costumava policiar meu jeito de comer e de sentar porque, para ti, eu era relaxada demais. Antes da tua chegada, eu corria pela casa arrumando as pequenas bagunças que te irritavam, para que teus olhos percorressem o meu corpo ao invés de reparar no casaco largado pela cadeira e nos talheres ainda sujos do almoço. Nunca gostei dessas bandas internacionais que tu colocaste em meu celular. Eu gosto mesmo é de sertanejo, mas tu fizeste eu me sentir uma burra quando eu te contei.

Ao lado dele, eu posso gargalhar alto e andar de pés descalços. A gente até costuma pirraçar um ao outro falando com a boca cheia de Doritos. A última vez que isso aconteceu, eu quase engasguei, pensando no que tu dirias se me visse daquele jeito. Com ele, entrego-me ao prazer de ser um pouquinho preguiçosa e deixar para amanhã os pratos que sujei hoje. Quando giro a maçaneta, ele está se lixando se o meu sapato está largado pela sala. Ele só quer mesmo me amar depois de um dia cheio e cansado. E só surge uma pequena impaciência nos olhos dele na hora de abrir o fecho do sutiã.

Ao teu lado, eu não era eu. Era a pessoa que tu querias que eu fosse. Nada em mim respira aquela menina bem comportada, de fala delicada e que faz um sexo sem graça uma vez por semana. Eu respiro vida, alegria, desejo e diversão – pena que tu nunca quiseste conhecer o meu mundo. Preso na tua bolha de arrogância e mente limitada, nem notou que a cada estupidez gratuita eu me afastava um pouco mais. E mais. E mais. Sabe aqueles dias em que eu te falei que precisava trabalhar até mais tarde? Era só para adiar o momento em que eu teria que encontrar com o teu mau humor.

Ao lado dele, tudo termina em sorvete, piquenique, chocolate e cores. Confesso até uma leve irresponsabilidade: quando estou deitada no peito dele, esqueço o mundo, esqueço tudo, esqueço a hora do trabalho. Para ele, se eu quebro um copo, está tudo bem, porque é só um copo. Ele só corre mesmo para saber se eu não me machuquei. Depois, abre aquele sorrisão gostoso e brinca com meu desastre chamando-me de Felícia, arrancando xingos e risos. E então a única confusão que ele cria é a de misturar pele, suor e pelos.

Foi fácil ficar seduzida com toda gentileza e graça dele, quando o contraste com teus insultos era tão visível. É por isso que eu te agradeço. Talvez, se tu tivesses sido um pouco mais paciente, um pouco mais amoroso, um pouco mais humano, eu não notaria os pequenos elogios que ele jogava toda manhã. Se tu fosses um tanto menos orgulhoso, um tanto menos insensível, um tanto menos ignorante, eu talvez não tivesse me encantado pelo olhar de paixão e desejo que ele soltava a cada momento que a gente se cruzava.

Mas, aconteceu. Sem saber, tu me jogaste para o colo dele. Tu foste o meu cupido. Tu me fizeste ver as qualidades tão lindas que eu espero de uma pessoa. Tu me ensinaste tudo o que não esperar de alguém para passar o resto da minha vida.

Só escrevi pra te dizer que estou feliz.

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Sobre os jogos de sedução

Nossos olhos se cruzaram no primeiro dia do outono. Você exibia as suas covinhas, com um sorriso meio de lado. Bebia algo com morangos. Estava graciosa com um vestido floral, de uma simplicidade tão bela que me encantou. Eu, de moletom e barba por fazer, sorri desajeitado. Como não sei dançar, escolhi mandar um bilhetinho. Posso não entender nada de passos e compassos, mas as palavras sempre foram minhas amigas. Funcionou. Não ganhei um beijo, mas você foi embora com o meu moletom. Não saí com promessa de encontro, mas havia um novo contato na agenda do celular. Era o suficiente. Naquela madrugada de pouco sono e música invadindo a janela, trocamos as primeiras mensagens.

Lembra-se daquele flerte adorável em que as coisas ficavam nas entrelinhas? É isso que eu amo.

Ao longo dos dias, era difícil ficar longe de você. Os olhares, as piadinhas, as canções… A gente estava construindo nossa historinha. É o delicioso momento em que o não dito revela muito, as provocações são deliciosas, e o encontro é uma mistura de expectativa e prazer. É o encanto dos abraços demorados que dispensam palavras, dos beijos no canto da boca na hora da despedida, dos recados com apenas uma carinha feliz. Eu elogiava suas covinhas, você elogiava a minha barba. Eu implicava com o seu pé grande, você implicava com meu brinco de argola. E, naquele dia em que cheguei sorrateiro e fechei os seus olhos, veio o primeiro beijo. Foi incrível.

Lembra-se de todo aquele nosso joguinho de sedução? É isso que eu amo.

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Mas o seu braço não era dado a torcer. E eu comecei a me envolver. Você se esquivava das minhas conquistas diárias. Os chocolates, os bilhetinhos na caixa do correio, as flores… Nada parecia te ganhar completamente. E eu, cada vez mais sedento, queria que você fosse minha, absolutamente minha. Aquele seu jeito espontâneo me ganhou no primeiro instante. Mas depois eu comecei a me sentir meio enciumado de toda a sua liberdade e libertinagem. A dança com os amigos, a falta de notícias, a demora para responder ao meu chamado… Tudo me deixava querendo mais e mais. Você não se importava com os meus gritos e minhas batidas de porta. Quando eu saía, sempre esperava que você corresse atrás de mim. Não acontecia. E eu, sempre desolado, voltava para o seu sorriso e aconchego. Foi em uma noite assim que fizemos amor pela primeira vez.

Lembra quando você não dava a mínima importância para os meus caprichos? É isso que eu amo.

E aí veio o desastre. Você se encantou totalmente. De alguma forma, quebrei o gelo. Você virou minha. Cada pedaço. O seu amor chegou arrombando as portas, gritando pelos corredores, invadindo todos os espaços. Você não mais se importava com suas danças, seu orgulho, suas convicções. Tudo era pelo meu amor. E eu, que sempre achei que sonhava em ver esse brilho nos seus olhos que faria inveja ao próprio sol, comecei a me afastar. A cada mensagem de “bom dia, amor”, “te amo” e “já estou com saudade”, eu colocava mais um tijolo na parede que eu começava a construir entre nós. A cada adulação e presentes, eu sentia menos vontade de mimos e carinhos. A cada vez que você abdicava da sua liberdade, eu aproveitava para usufruir a minha.

Lembra quando eu te disse que eu amo a arte da conquista? É só isso que eu amo.

O que eu queria ter dito

– Já está na hora de você esquecê-lo.

– Por quê?

“Porque estou apaixonado por você.”

– Porque ele não te merece.

– Ele é tão doce… Se parece tanto comigo… Tanto…

“Eu sei, e isso dói.”

– Mas ele não te quer, e não há nada que você possa fazer a respeito.

– O que eu tenho de errado? Por que ele não consegue se encantar um pouco que seja?

“Porque ele é um tolo, um idiota, que não percebe o quão linda tu é.”

– Talvez ele esteja em outra.

– Só em pensar nessa possibilidade o coração dói e chora.

“Sou um burro. Um idiota. Como posso deixá-la sofrer?”

– Não chore, por favor.

– Me dá um abraço.

“Será que ela vai sentir o meu coração acelerado?”

– Vamos brincar de mandar a tristeza ir embora? Vou fazer aquele brigadeiro de panela que você ama, e depois veremos reprises de Friends, e a gente vai desenhar um sorriso lindo neste seu rosto.

– É o que eu preciso. Podemos reler as conversas que eu tive com ele e pensar em algum meio de me deixar irresistível?

“É demais. É demais revisitar todo esse dengo que me enche de ciúmes.”

– Sim, sim. Podemos. Vamos deixar você ainda mais linda, e ele vai perceber todos seus encantos. Só não me faça aquelas dancinhas malucas porque você fica parecendo uma doida.

– Bobo. Só você pra me fazer rir nesses momentos.

“Eu nunca te disse, mas cada piada é para ver essa gargalhada gostosa que deixa o meu mundo mais colorido e feliz.”

– Então, vamos. Segura na minha mão.

– Não sei o que eu faria sem você. Tu é meu melhor amigo. Te amo.

 “Se você soubesse como isso machuca.”

– Também te amo.

“E isso é tudo, tudo, tudo o que eu sempre quis te dizer.”

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Amor entre quatro paredes

Que contestem os bobocas apaixonados, mas importante mesmo na relação é o sexo. Sim: SEXO. É a pele que define onde está o teu coração, as tuas vontades e as tuas loucuras. No fundo, não importa muito se os dois amam Harry Potter, canções do Nando e passeios nas montanhas. É muito legal compartilhar coisas lindas, mas se o toque dele não fizer o teu corpo sentir arrepios, se o beijo dele não te tirar do chão, se aquele cheiro no cangote não te fizer sentir vontade de morder a fronha de tanto prazer, não adianta.

Se o peito dele não for a tua morada, não é amor.

Andar de mãos dadas pelas ruas da cidade, dividir o mesmo pote de sorvete de flocos e discutir os filmes do Kubrick são coisas que encantam e fazem sorrir. Mas o que vai te fazer delirar é o jeito desarrumado e torto que ele vai arrancar a tua blusa e te jogar na cama. Poesias, recadinhos na geladeira, SMS todas as manhãs, bilhetinhos dentro do teu livro preferido… Nada disso se compara ao êxtase e tremor que você vai sentir se a língua dele souber explorar cada parte do teu corpo.

Se o abraço dele não te levar aos céus, não é amor.

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E é por isso que a Mônica quis o Eduardo e a Julieta quis o Romeu: o fogo que percorre cada partícula do ser e nos faz esquecer todas as razões. Que importa se ele faz aulinhas de inglês, não sabem quem é Godard, e joga futebol de botão com o avô? Toda a tua medicina e o teu alemão não serão suficientes para explicar o que acontece quando alguém te completa na cama. Como feijão com arroz. E os teus pais nunca entenderão os motivos que podem te levar a preferir aquele cafajeste ao educado moço que chega com flores e fala mansa. O buquê e o cavalheirismo são delicados e tudo o mais, mas nada causam quando o buraco é mais embaixo.

Se o simples anúncio da chegada dele não te deixar toda boba, não é amor.

Você pode brigar pela ausência de declarações românticas, implicar com a toalha molhada jogada na cama, e se chatear com a impaciência na hora de te esperar para um encontro. Ele pode não perceber o teu novo cabelo, não ler os teus textos e não te acompanhar nos eventos sociais. E, mesmo com tudo isso, você vai perdoá-lo se o primeiro sorriso de canto de boca tão descarado acordar todas as borboletas do teu estômago. Simplesmente porque o cara que te completar não vai precisar visitar o teu blog para ler tuas maiores vontades.

Se o beijo dele não conseguir calar tuas frustrações, não é amor.

Gostar das mesmas coisas é adorável, mas não é essencial. Os amigos estão aí para decidir contigo qual é a melhor casa de Hogwarts, o melhor filme da Nouvelle Vague, e a música mais linda do MTV acústico do Nando Reis. Os amigos… Esses lindos que a gente ama de um jeito todo especial. E então eu te pergunto: qual a diferença no amor que você sente pelos teus queridos amigos companheiros de filmes, pipoca e guaraná, e do homem que você quer ao seu lado para chamar de teu? Sim, os sussurros, os gozos, os suspiros. Sexo.

Porque é na cama, entre quatro paredes, que você vai sentir o amor.

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Flocos e maracujá – O que ela diz

Ninguém sabe o quanto eu tentei me apaixonar por você. Tentei, e tentei com afinco. Mas o que eu posso fazer se estou tão louca por ele? Vai, pode falar o quanto eu sou estúpida por escolher alguém que não sabe qual é o meu sorvete favorito e desliga o telefone aos sábados. Os amigos já espernearam, a família já julgou, e agora só falta você. Joga na minha cara o quanto eu sou burra por não estar em seus braços curtindo a sua perfeição tão irritante. Grita que eu vou me arrepender em pouco tempo e que você não estará mais disponível. Pode falar o que quiser. Mas a verdade, a mais pura verdade, é que só ele está em minha cabeça e em meu coração.

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E cá fico eu, boba de saudade…

Eu gosto do seu colo tão amigo. Sempre me sinto melhor quando você chega com o seu abraço mais cheiroso e cheio de afago. Mas eu não quero apenas me sentir melhor. Quero aquele tremor que percorre todo o meu corpo quando estou deitada no peito dele. Ele nem se importa com perfumes. Chega todo suado do futebol, joga a blusa surrada em um canto da casa e deita nos meus lençóis limpos. Mas é isso que eu amo: o jeito todo sem jeito que ele pega nos meus cachos. Depois ele some com os amigos para os botecos sujos, pouco se lixando para os meus pedidos de companhia. E cá fico eu, boba de saudade, perdida entre chocolates e lembranças. Mas o que eu posso fazer se com apenas uma promessa de retorno meu coração se acalenta?

Sabe todas as poesias que você escreveu para mim? São tão lindas e fofas, mas não me arrancam suspiros apaixonados. Arrepio mesmo eu só sinto quando ele passa a barba no meu cangote. Não me leve a mal, eu só estou sendo sincera. Você é um cavalheiro que sabe exatamente o que fazer para me deixar contente. Eu que sou uma completa idiota que merece uma bofetada na cara. Às vezes, penso em ser sua. Penso de verdade. Mas é só ele soltar o sorriso mais descarado na minha direção, e eu já sei que sou dele – completamente dele.

Então, pode ir. Vá. Leva sua compreensão, paciência e atenção para alguém que realmente mereça. Leva suas letras mais lindas para uma pessoa que vai se sentir mais do que especial. Leva seus recadinhos e amor para quem vai retribuir. Acredite: queria tanto te querer. Mas a gente sabe que as coisas não são assim… Vá buscar o seu caminho, que eu vou me apegar às minhas pequenas alegrias que ainda são maiores do que as lágrimas. Ele comentou que não gosta quando eu aliso os cabelos e que ama os meus cachos. Você pode achar pouco. Mas eu prefiro acreditar que é um avanço surpreendente. Para ser ainda mais sincera, esse pequeno elogio valeu muito mais do que todos os seus dengos, cartas e canções. Vá. Eu vou ficar aqui na espera que um dia – quem sabe um dia – ele descubra que eu gosto de flocos com maracujá.

Coração bobo

Parecia impossível o Instagram ficar mais insuportável. Ficou. Hoje, entre um No Pain No Gain embaixo de uma foto de espelho de academia, as pessoas estão cuspindo toda a sua constrangedora cafonice em nossa cara. E não são apenas as adolescentes que nunca leram uma linha da Clarice e, mesmo assim, citam seus versos sem parar. Não. O Dia dos Namorados potencializa o deslumbramento boboca em pessoas sensatas. São milhares de recadinhos carinhosos e fotos de casais espalhadas pelas internets.

Todo mundo acha bonito estar apaixonado. Você volta a ser aquele jovem sonhador e boca aberta, mesmo que já esteja beirando os 40. Manda flores, escreve versos bregas e tenta um dedilhado das músicas do Flávio Venturini que será inevitavelmente tosco. O apaixonado recupera a vaidade perdida e pede socorro às irmãs ou amigas para renovar o guarda-roupa e o penteado. Tudo para tentar ficar mais atrativo para ela. A paixão traz momentos mágicos. É um novo mundo repleto de suspiros, apelidinhos, chocolates. O “bom dia” vem acompanhado de um “eu te amo” e a trilha sonora da vida é uma eterna melodia melosa de Ghost.

A paixão pode levar aos céus, mas também ao inferno.

A paixão pode levar aos céus, mas também ao inferno.

Quem não quer viver neste lindo universo de amor, quando todos os apaixonados não conseguem esconder o contentamento, a satisfação e as declarações diárias? Todos não dizem que a paixão é linda? Sim, é. Mas é também a pior coisa que pode acontecer. Sério. É hora de ser realista. A paixão pode levar aos céus, mas também ao inferno. Sem avisar. De uma hora para outra. Ela humilha. A paixão nos faz ridículos, estúpidos, sem nenhuma noção de responsabilidade e realidade. O apaixonado fica completamente patético, e o pior de tudo é que ele acha que está irresistível.

Existe alguém que sofre mais do que o apaixonado? Ele não faz nada direito: não come, não dorme, não trabalha. A felicidade dele depende exclusivamente das reações da pessoa amada. Se ela corresponde, ele se sente o próprio Deus. Se não, cai em cima de uma cama, fecha as cortinas e se entrega à tristeza. Ele tem que se segurar para não ligar todo momento. E se um desconhecido deixa um recado para ela, a tranquilidade vai embora e nada é mais importante no mundo do que saber o histórico do cara.

Eu conheço várias pessoas que conseguiram ser fortes e se livraram de uma paixão. Parece um renascimento. O apaixonado é um escravo e só conseguirá se libertar com perseverança e força de vontade. Ele só conseguirá abrir as cortinas, quebrar as algemas e ser feliz, se dominar a paixão. Chega de desabafos intermináveis. Os amigos não aguentam mais tanto drama e tanta história chata. O fato é que o apaixonado não vai perguntar como está o pai da amiga que foi para UTI esta semana. Não. Ele é um egoísta, e o seu mundo só se resume a ela, as histórias dela, os telefonemas dela. A paixão não é apenas cega, ela é surda. Os problemas dos outros que se explodam para lá.

É preciso pensar no quanto é ridículo e retardado este deslumbramento basbaque. É preciso ser esperto e não deixar a paixão vencer. É preciso ser forte. Lembre-se: No Pain No Gain. 

Bukowski, Rubem e a faxineira

A velha senhora resmungava impaciente enquanto limpava o escritório do Sr. Bukowski. Estava cansada de recolher garrafas vazias e papéis jogados por todo o canto. E os livros do Dostoiévski? Quanto mais ela limpava, mais eles pareciam empoeirados. O escritor e a faxineira nunca tinham trocado grandes palavras. Eram de mundos completamente opostos. Ele, sempre sozinho nos seus livros, nas suas doses e na sua fumaça. Ela, sempre com o espanador. Mas hoje, milagre dos deuses, o velho estava acompanhado. Pelo que ela pôde entender, era outro escritor que veio dos confins para bater um papo. Outro velho. Sem a cara safada e cínica do Bukowski, mas daqueles senhores com uma alma azul que a gente simplesmente quer abraçar. Era o Rubem Alves, poeta com jeito de menino que consegue ver o mundo em um grão de areia. A mulher nunca ligava para as coisas do patrão, mas ficou curiosa com aquela visita e demorou-se um pouco mais no escritório para ouvir o papo.

“Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse?”, perguntou Bukowski.

“Nós amamos a pessoa não pela beleza que existe nela, mas pela beleza nossa que nela aparece refletida”, argumentou o Rubem, visivelmente incomodado com a fumaça do charuto do contista alemão.

“É isso! A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. O amor é uma espécie de preconceito”, retornou Bukowski, dizendo a mesma coisa do poeta brasileiro, mas sem abusar do lirismo poético do colega.

“Será possível, então, um triunfo no amor?”, indagou o Rubem, um pouco preocupado por perceber que ele falava a mesma língua do farrista à sua frente e tudo era questão de semântica.

“Sim, é possível amar o ser humano”, disse o alemão com uma atípica seriedade. “Caso você não o conheça tão bem”, divertiu-se, mostrando que o tom inicial era balela.

“Mas Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende ter uma pessoa: ‘continuarei a ter prazer em conversar com ela daqui a 30 anos?’”, Rubem pareceu não notar o jeito fanfarrão do seu interlocutor e tentou mostrar que o conhecimento do outro é a base do amor.

A faxineira ficou intrigada. Há 30 anos era casada com o velho jardineiro. Amava-o, claro. O amor cansado e fiel, sem surpresas, sem paixões avassaladoras, sem ciúme. Por um instante, imaginou-se jovem, percorrendo o mundo conhecendo as outras dez mil pessoas que o Sr. Bukowski disse que a gente amaria mais. Tomou coragem e, decidida a afastar os seus novos pensamentos, interrompeu um papo sobre Jack London (que ela não fazia ideia de quem se tratava) e perguntou: “É mesmo verdade esta história dos milhares de andantes neste mundo de meu Deus que eu amaria mais do que o meu marido?”

Os dois escritores olharam para a velha mulher, como se a notassem pela primeira vez. Ela ficou ruborizada e arrependida de ter falado qualquer coisa.

O Rubem sorriu gentilmente e, pelo visto, entendia todos os pensamentos da senhora. Afinal, ele escreveu tudo sobre o casamento e suas analogias com gaiolas, asas, tênis e frescobol. 

Bukowski olhou para ela, avaliou sua feliz ignorância, decidiu-se por não prolongar aquele papo, e respondeu com o seu melhor tom de blague: “Mas a gente nunca conhece essas pessoas”. E virou o último gole de uísque.

Dizem que as frases desse diálogo ganharam o mundo através dos tempos.

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La Crème Brûlée e a camisa surrada do Patolino

44920--637x0-1 O Jack Daniel’s está aqui do lado. Bebo como o Keith Richards, dos Rolling Stones: sem gelo e sem copo. Estou com barba por fazer, uma calça de moletom cinza, uma camisa surrada do Patolino e os pés descalços. Estou patético. Quase não tem luz no quarto. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band toca baixinho na caixa de som. Com os Beatles, e não a versão da Cássia Eller. Já faz um tempo que eu estou longe do cigarro, mas hoje, só hoje, eu fumaria um maço de Marlboro Vermelho. Queria ficar ainda mais depressivo, mais desprezível, mais bukowskiano. Olho para o Word e o Doritos. Ambos abertos, mas apenas o salgadinho está pela metade. Nenhuma letrinha sequer no computador. Estranho: quando não estou muito bem, gosto de rabiscar escritos ruins que ninguém vai ler. Estou com um vazio estranho no peito (falando em vazio, o uísque está acabando e preciso dar um jeito nisso imediatamente). Uma agonia maluca. Estou morrendo de saudades e com uma puta vontade de ligar ou mandar mensagem. Não sei lidar com essa paixão desenfreada que chegou me rasgando e me desestabilizando. É isso: pela primeira vez estou enlouquecidamente apaixonado.

Mais um gole. Vou ter que assumir para vocês. Publicamente. Não estou cabendo dentro de mim. É a mais irônica das verdades. Estou encantado e com todas as borboletinhas do estômago acordadas e assanhadas por uma autêntica patricinha. Sério. Ela é a mais fresca e chata das mulheres. Tentei de todas as maneiras (e vocês sabem o quanto!) achar graça nas moças de blusas que se assemelham às minhas, sem qualquer detalhe que lembra catálogos de moda ou etiqueta conhecida. Tentei – e tentei com garra e afinco – as que amam o Chico Buarque e todas as bandas alternativas. Tive até a oportunidade de me envolver por uma bela moça que sabia tocar gaita. E nada do coração empolgar. Ainda me joguei nas mais maneiras que curtem Simone de Beauvoir, amam documentários que o povão jamais curtiria ou mesmo entenderia e se importam com ecologia e meio ambiente.

Foi uma dessas que sempre quis e sonhei. Não são elas as mulheres legais e interessantes? Uma que possa dividir o vício pelos jogos eletrônicos no domingo e corrigir as crases dos meus textos? Uma que se interessasse pelos conflitos mundiais e as criancinhas do interior da África? Poxa, sempre quis aqui ao meu lado uma menina que debatesse as questões dos índios e pegasse os meus livros do Eric Hobsbawm emprestado.

Quer saber? O que fiz a minha vida toda foi reclamar dessas patricinhas burras e implorei que o destino colocasse em minhas mãos uma mulher que prima mais pelo cérebro do que pela bunda. Todos já ouviram meu discurso. Pois é, paguei a língua, paguei o pato e estou aqui admitindo. Sabe aquela menina que amava guitarra (sabia até fazer solos incríveis) e detestava cabeleireiro e unhas pintadas? Nenhum encanto. E aquela outra que gostava de vodka barata e tinha feito um curso de História da Arte? Nem afeição rolou direito. Todos os amigos falavam que eram meninas perfeitas para mim. E eram, sabe? Mas quem vai entender esse meu coração estúpido fazendo merda?

Estou apaixonado – e só de pensar nela fico suspirando igual a um retardado – pela mais delicada das meninas. Ela não sabe quem é Truffaut, mas chora assistindo Um Amor Pra Recordar. Não se interessa pelas cores do quadro de Rembrandt, mas tem uma paixão imensa por rosa e amarelo. Sabe falar todas as histórias e todo o guarda-roupa da Anna Wintour (que, sim, a essa altura do campeonato eu já sei quem é). Os sorrisos dela me convenceram a ir para um restaurante de gente besta (fiz até a barba no dia). Mas isso não é nada. Se for para assumir tudo, que falemos de uma vez: os seus beijos e os seus dengos me levaram para assistir o último filme da saga Crepúsculo. E lá se foram anos de reputação. Fui ver o filme e ainda fiquei com ciúme do lobisomem babaca que arrancava vários elogios da boca linda da minha menina. Ah, as lingeries caras! Que coisa mais linda, meu Deus! Desculpem aí, mas não rola mais ver calcinha bege Linda Joia depois do que estou vivendo. E eu sei que não posso descer mais na concepção de vocês, mas ainda tem espaço para dizer que, sim, já depilei o peito. Ela prefere assim.

Ela é tão frágil (e tão cheirosa) que quero protegê-la para sempre do mundo. Briguei com todos os amigos que riram quando ela perguntou na voz mais inocente e doce o que era esse tal de Game of Thrones que todos estavam comentando na mesa. Ela só vê Gossip Girl. Mas, olha, ninguém no mundo entende mais de sapato do que ela. E a barriguinha sarada, as pernas grossas e a bunda empinada? Levantar livros, ainda que sejam todas as obras da literatura inglesa, não deixará nenhuma mulher com o corpo que ela tem. Mais um gole. Quer saber a real? Ela é tão incrível que faz com que eu esqueça qualquer filme do Woody Allen e só pense em pegá-la de jeito. Desculpa aí, Flaubert, mas essa mulher deixou minha vida mais feliz. Eu sei que ela tem suas futilidades (enquanto eu sempre mantive minha arrogância intelectual), mas quando estou com ela me sinto um vagabundo ao lado de uma dama. Ou um plebeu com a mais bela princesa.

As ativistas que amam assuntos pouco digeríveis pela manhã podem até chamar minha atenção, mas nada causam quando o negócio é mais embaixo. Chega dessa prosa ruim de ficar resolvendo os problemas do mundo entre um boteco, um sexo, um passeio. O negócio, camaradas, é que essa mulher mexe com instintos que eu nem sabia que existiam por aqui. Depois que eu conheci o Crème Brûlée, não quero mais saber de gelatina. E essa é a verdade.

Fiquem aí com a Miriam Leitão de vocês que vou atrás da minha Paris Hilton. Tivemos uma primeira grande briga e eu nem quero saber se estou certo ou errado. Estou aqui arrasado, com uma saudade que dói a alma e só a quero de volta para colorir meus dias. Do meu lado e do Jack só ela: fresca, mimada, desinformada, reclamando do moletom e da barba e – todos os santos sejam louvados – gata demais. Acho que vou convidá-la para ver um filme (dublado, claro, para deixá-la mais feliz). Antes de ir vou tirar todos esses livros da estante (e o box de The Sopranos). O que quero é só liberar espaço para uma foto que tiramos no dia em que nos conhecemos – um dos melhores da minha vida.

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Sobre gaiolas e asas

O Rubem Alves é um escritor bonito que escreve histórias para crianças que gente grande deveria ler. Os adultos são tolos e não sabem ser felizes. As crianças são mais espertas. Adultos sempre lembrarão as responsabilidades, as agendas, os compromissos, a conta de telefone, os extratos bancários. Crianças não lidam com essas obrigações e por isso não devem ser levadas a sério. Bobagem. Elas são tão mais inteligentes quando o assunto é emoção e felicidade. Os pequenos sabem lidar como ninguém com as coisas do coração.

Um amigo, muito triste, veio conversar comigo sobre coisas que o atormentavam. Sua alma chorava. O coração sangrava. Ele havia começado a cortar as suas asas e a entrar em uma gaiola. Estava confuso. Não sabia mais como poderia voar, mas também não queria ver o mundo através das grades. Ele pedia socorro, mesmo sabendo que não poderia ajudá-lo. Nessas horas – e o mundo me ensinou isso com ferro e fogo – não adianta falar e fazer nada. Só podia tentar arrancar alguns sorrisos. E fiquei triste. Foi então que comecei a vasculhar velhas caixas de livros atrás de um conto do Rubem.

PassarinhoGaiola2 Bonito é recordar coisas que a gente sabe de cor. De coração. As palavras do livro já estavam dentro de mim antes mesmo de eu encontrá-lo. E me entreguei ao prazer delicioso de revisitar cenas lindas que ficaram na memória. Lembrava até do título: A Menina e O Pássaro Encantado. O Rubem conta de uma menina que se apaixonou por um pássaro. Era uma ave linda, alegre, livre. Voava e sempre voltava para a menina com histórias, sorrisos e canções. Em suas viagens, conhecia línguas, costumes e mundos. E trazia um pouco de tudo isso para a menina. Livre voava e livre voltava. E a menina adormecia e sonhava com todas as belezas que as novas canções traziam… Foi então que ela começou a sentir muitas saudades e começou a chorar quando o pássaro ganhava o céu. Ele confidenciou que também sentia tantas saudades e que também chorava… É a saudade bonita (e necessária) que não vê a hora do reencontro. Mas a menina não estava satisfeita: ficava com medo de o pássaro não voltar mais. E então, numa noite de regresso e amor, ela trancafiou-o numa gaiola. Claro: uma linda gaiola de prata, digna de uma grande ave. Ela pensava que, sem saudade da ausência, não haveria tristeza e só felicidade. Pena. Sem os altos voos, as penas do pássaro ficaram feias. Sem as viagens, suas histórias ficaram cansadas. Não havia sorrisos e ele deixou de cantar. Ela também ficou triste. Afinal, aquele não era o pássaro que ela amava…

Gaiolas – mesmo as de prata, belas e reluzentes – sempre serão gaiolas. E em nada combinam com amor. As coisas do coração têm que ser um simples transbordar de querer, de alegria, de desejo, de vontade… Lembrei da história da viúva que, antes da morte do marido, vivia de cara amarrada, de coque, de preto. Depois que o esposo se foi e passado o tempo respeitoso em que as pessoas falam do morto, ela floresceu: tirou do baú os vestidos alegres, começou a cantar velhas cantigas e certo dia arriscou até um batonzinho… Quantas algemas ela quebrou? Quanta infelicidade vivia? Quanta tristeza sentia?

A menina, do livro do Rubem, acabou libertando o pássaro… E ele foi buscar de volta o seu encanto, matando a saudade do céu. Ela, toda noite penteava os cabelos e colocava uma flor na janela, à espera do reencontro. E voltou a sorrir. Mas é uma história para crianças. E os adultos nunca conseguirão compreender.

“… que é livre, e que livre voa…”

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O bilhete, o armário e a balança

Estou de mudança. Além da arrumação de caixas, chega o inevitável momento de decidir que papéis seguem comigo e quais levarão o destino de lixo. Encontrei, embaixo de uma conta de telefone, um bilhetinho que ganhei de um grande amigo há muitos anos atrás. Se existe algo de bom em preparar mudanças é isso: achar tesouros perdidos que carregam histórias e lembranças. O bilhete trouxe tudo isso e ainda veio carregado de uma saudade imensurável. Larguei as caixas no chão e corri para contar a vocês a história de Bipe, um amigo do Ensino Fundamental. A arrumação das coisas podia esperar. A vontade de partilhar uma linda história, não.

Seu nome era Péricles, mas todos o chamavam de Bipe. O apelido veio em forma de resenha nos primeiros dias de colegial: uma referência ao remédio Biperideno, usado no tratamento de Parkinson. Bipe não tinha a doença, mas era dono de um peculiar tique nervoso na perna. Sempre tão piadista, ele adorou (e adotou) o apelido. Excetuando a família (que sempre o chamou de “Peu”), ele era Bipe para todos.

O que mais posso falar sobre ele? Era um querido. Até hoje consigo me lembrar do seu jeito falastrão e engraçado. Bonito e inteligente. Brincalhão e ousado. E então, sem avisos prévios, ele mudou completamente. Drasticamente. Ficou calado e cabisbaixo. Introspectivo e pensativo. Por mais que perguntássemos, ele nunca falava. Nada contava. Até um dia… sentei ao seu lado, estávamos sós, eu insisti, pedi confiança, ofereci ajuda e abracei-o. Era o que faltava. Ele explodiu. Começou a chorar e contou o que tanto o atormentava: era heterossexual e estava apaixonado loucamente por uma menina.

Juro para vocês que eu nunca havia desconfiado. Olhei-o chocado, mas não era hora para julgamentos. Falou da dúvida cruel que estava em seu coração: assumia sua condição sexual para a família e amigos ou continuava a fingir que era homossexual? Antes de o coração ser invadido por um sentimento completamente novo, nunca tinha passado pela sua cabeça sair do armário. O medo sempre foi maior, só que agora uma paixão dominava tudo. O que os amigos iriam dizer? E os pais? E se todos o abandonassem, envergonhados? Como contar que era heterossexual numa sociedade completamente heterofóbica? Lembro como hoje dos seus medos, lágrimas e confusões.

Escondi o meu choque (e uma leve decepção) e comecei ajudar a colocar tudo na balança e ver o peso das coisas. Gabriel – e eu tinha quase certeza – não iria aceitar as verdades que Bipe estava quase gritando, como se há muito estivesse entaladas na garganta. Bipe nunca suportou seriados musicais e mentia descaradamente sobre os jantares na casa da avó para ver futebol. Se aquilo me deixava boquiaberto, imagina o que faria com o Gabriel? Não, ele não seria tão complacente. Mas, como eu estava disposto a pesar tudo com ele, tratei de mostrar o lado positivo: se ele fosse logo sincero não seria mais necessário fingir que sabia de cor as músicas das divas americanas e o que ele realmente conhecia de trás para frente eram as últimas contratações dos times cariocas. Mas, porra, como ele ainda assistia a esse esporte falido sem nenhum glamour e – pausa para recuperar do choque – dizia sem errar como e quando ocorria um impedimento?

Com a família era ainda pior. Como contaria para o pai Cassiano – até hoje meu dentista, por sinal – que ele achava um suplício ir ao shopping comprar roupas com ele? E como – como, meu Deus do céu – falaria para o pai Breno que ele sabia trocar a resistência do chuveiro? Tão acostumados com ele dando uma de frágil amante de moda, como agiriam se soubessem que Bipe amava engenharia, jeans e camiseta branca? Mas, voltando à balança, se contasse logo a verdade não precisaria mais entrar em blogs de moda e muito menos apagar as consultas aos sites de elétrica no histórico de navegação do computador que ficava na sala. Seria libertador.

Mas o pior – e até hoje eu vejo claramente a amargura que havia em seus olhos e sua voz – era mentir sobre a sexualidade, de fato. Bipe fingia – e fingia muito bem – que gostava de homem e, na realidade, seu objeto de desejo mesmo eram as mulheres. Assumir isso nos dias de hoje é coisa complicada. Eu mesmo não conseguia imaginar sua dor. E então eu descobri que ele costumava mentir nas rodinhas do colégio de um ou outro cara que tinha ficado. E que o tal namorado de Porto Alegre (“loiro, lindo e super fofo”) era falso, fruto da sua imaginação para fugir de possíveis pretendentes. Foi então que me lembrei do cara lindo que ele tinha ficado no aniversário de Hugo. Bipe falou que durante o beijo pensava nas mulheres que achava sedutoras para tentar se excitar. Sem sucesso e sem ereção. Recorreu a uma mentira suprema: fingiu atender a uma ligação e falou a todos que seu primo não estava passando bem. Funcionou tanto que eu mandei uma mensagem no outro dia perguntando sobre a saúde de Paulinho.

Como quem pede desculpas, ele falou que tentou se encaixar. E, sejamos sinceros, tentou mesmo e isso ninguém pode negar. Ficou com meninos, foi para várias festas GLS, baixou músicas de divas que gritam sem parar, visitou blogs de moda e, certo dia, comprou até uma revista gay na companhia de todos os amigos. Tentou, tentou e tentou. Não conseguiu. E o coração estava pedindo verdade. Seus olhos e vozes mudaram de tristeza para emoção quando foi falar da sua menina. E percebi o quanto Bipe estava apaixonado. Seria injusto com sua própria vida que ele continuasse a mentir pelos amigos e pela família. O sentimento era bonito. Contou que ela estava completamente apaixonada por ele também. Eu conhecia a menina – ele tinha me apresentado certa vez na sorveteria como sua “amiga lésbica”. Passou na minha cabeça que eles realmente estavam muito próximos. Ela também sofria com as mesmas coisas. Nessa sociedade tão preconceituosa, também ela ainda não tinha se assumido heterossexual. Fiquei do seu lado e opinei que o ingrediente do amor pesava muito. Era impossível ir contra um romance tão verdadeiro e tão bonito. Era impossível não abraçar o amigo sabendo que ele ia passar muito sufoco e enfrentar tantos olhares julgadores.

Não demorou muito e eles se assumiram. A vida fora do armário não era fácil. Mas lá fora, podiam ficar juntos. E felizes. Hoje, Bipe é um heterossexual com orgulho. E tenho certeza que ele ficará contente com esse texto.

2013-02-28 14.42.29

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