Arquivo mensal: maio 2012

Estou ficando velho

Estou ficando velho. Um viciado em séries, coberta e café. Um ranzinza chato que só sabe reclamar dos adolescentes idiotas e dos preços do mercado. Agora eu fico o domingo todo bocejando e andando de meia do quarto para cozinha. Querem a prova irrefutável da minha velhice? Comecei a gostar de verduras e legumes – até sei da importância do quiabo. Já começo a perceber os fios brancos, estou usando óculos e posso jurar que já nasceram rugas de preocupação.

Eu era daquelas pessoas que não perdia Carnaval em Salvador. Ficava pulando atrás dos trios sem parar. Costumava ir para a Avenida às 14 horas e só voltava para casa às 6 da manhã. Uma coisa absurda. Hoje em dia não gosto do Carnaval da capital nem pela televisão. Fico cansado só de olhar aquele povo suado correndo atrás do Chiclete com Banana. Quando o dinheiro começou a sumir, migrei para o Carnaval de Rio de Contas. Vocês sabem como é: ninguém consegue dormir e a galera fica no loop infinito de cachaça. Fiquei ali por três anos seguidos. Fico de ressaca só de lembrar. Mas, como vocês podem notar, estou envelhecendo. O meu Carnaval esse ano foi numa fazenda com meia dúzia de amigos. Jogamos dominó, sinuca e Imagem e Ação. E foi uma alegria sem fim…

E as micaretas? As festas do Divino em Poções? Grandes sextas no Gimba Jardim? Não posso negar que tenho grandes lembranças e que foi uma época divertidíssima. Mas hoje não rola mais diversão. Fico deslocado, sei lá. E também tem o novo episódio de Game of Thrones para assistir e O Guia do Mochileiro das Galáxias para terminar de ler…

Ainda gosto de uma cervejinha, claro. Mas o que estou curtindo hoje em dia é sentar num boteco com os amigos, no fim do expediente, e reclamar da vida, do trabalho e do cansaço. Vale até ficar bêbado. Tem coisa melhor do que sair do trabalho na sexta e ir direto para um barzinho com alguns poucos amigos para resmungar velhices?

Que fique claro: não me arrependo de nada do que fiz. São várias resenhas e histórias para contar. Fiz parte de uma adolescência que não tinha internet e aí, meu amigo, o lance era fazer festinhas com caipirinha. Era a adolescência que pegava a moto do pai sem pedir para curtir forró em qualquer buraco (desculpa, pai). Lembro de tudo com muita saudade e carinho. Mas passou…

Que fique igualmente claro: é bem possível que você me encontre em alguma grande festa por aí. Pode ser que fico empolgado e vou curtir. Mas o pouco histórico desses últimos tempos só me mostra que, inevitavelmente, estarei cansado às 2 da manhã e procurando um lugar para sentar desde minha chegada.

Então é isso, meu povo. Estou topando convite para almoços, boteco no fim do expediente e jogo de baralho. Agora vou parar de escrever. A coluna começou a doer aqui.

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A viagem

Para ser sincero, ele nunca quis realmente fazer parte daquele mundo – mas sabia, desde sempre, que fora dele desde o primeiro contato. Ele olhava com medo, desconfiança, receio e, para ser ainda mais sincero, certo repúdio – mas também olhava com verdadeira curiosidade, desejo e ansiedade. E ele relutou com todas as suas forças e não admitia – nem mesmo para o espelho – que já era o momento de fazer a viagem.

Foi preciso que uma mão amiga segurasse a sua e o guiasse pela estrada. E ele se entregou – como nunca se entregou a nada. Fez as malas, preparou-se para as despedidas e se aventurou. Hoje, pensando naquele momento, ele lembra do quanto se sentiu estranho durante o percurso. Mas não tinha volta. E ele seguiu o caminho olhando para as novas cores, as novas caras, os novos sabores e os novos saberes. Ele, tão acostumado a fazer parte do outro mundo, agora carregava um novo olhar e uma nova paixão.

A viagem não foi fácil, claro. Ele sempre soube disso. Mas, analisando bem, ele sempre pensou que seria mais difícil. Não dá para saber se ele chorou quando surgiram todas as pedras no caminho, tão diferentes da poesia jeca de Drummond. Se ele chorou, acreditem, foi escondido. Típico dele: mostrar-se sempre tão forte e tão intocável, mas derreter-se sozinho no travesseiro com aquela velha canção.

Mas podemos dizer que ele saboreou todos os momentos sem medo de ser feliz. E quanto mais ele entrava no seu novo mundo, mais ele se entregava. Não foi colhendo flores, mas colheu histórias, gírias e amizades. Tantas histórias. Tantas gírias. Tantas amizades. E só agora, pensando na caminhada, ele sentia os novos ventos e uma sensação fantástica de estar no lugar certo, com as pessoas certas, com as músicas certas e as roupas certas.

E, para ser mais sincero ainda, ele percebeu que o mundo é um só. Não existe essa de mudar de mundo com uma viagem. Ora, o que muda – pensou ele com um grande sorriso – é a gente.

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