Arquivo mensal: julho 2012

Histórias de pescador

O turista chegou, sentou na roda de pescadores, pegou uma água e ouviu histórias de rostos e nomes desconhecidos da pequena aldeia. Estava um pouco cansado e parecia agradável saber de uma vida da qual não pertencia.

De Catarina diziam ser uma apaixonada por navios. Uma faceira, sorridente e impaciente, que odiava ficar esperando no porto. Desde menina achava-se muito esperta e dizia saber tudo sobre o mar. Não havia sossego, havia espera e agonia. Olhar para o horizonte era mais do que um desejo, era uma sina. Sua sede de velejar era tão grande, que nunca conseguiu se apaixonar perdidamente por apenas um barco. Nunca, de fato, soube ser tripulante fiel. Abandonava o navio e chegava com histórias de grandes tempestades e rachaduras violentas. Mas o boato que corria de Catarina era que ela sempre fora a responsável pelos desastres – costumava boicotar sua própria tripulação assim que avistava outra âncora. Estava sempre disposta a pegar o bote. Sempre disposta a pular fora. Sem nenhum respeito. Não era sossegada na terra, mas também não se aquietava no mar. Às vezes, depois de rodar por outros navios, pedia abrigo nos velhos barcos que nunca a abandonaram – mesmo com todas as trapaças. Típico dela – dizia o velho pescador – enganar boas pessoas e digníssimos navios com o seu sorriso falso e encantador. Os mais justos acreditavam (e torciam) que um dia – quem sabe um dia – ela seria punida por tanta falta de cumplicidade. E ficaria no porto, sozinha, implorando uma vaga para os conhecidos capitães que um dia humilhou.

Como Julião era diferente, costumava dizer o mais robusto dos pescadores. Ele tinha tanto medo do mar. Gostava de sonhar com o dia em que velejaria por águas calmas, é bem verdade. Mas era metódico demais, pensativo demais, receoso demais. Quantos barcos legais foram embora e ele não se jogou sem pensar? Vezes demais. Todos gostavam da simpatia de Julião, mas temiam pelo seu futuro. Era um moço tão agradável, mas temia a tudo e a todos. Desconfiava da procedência dos barcos e tinha mania de análises detalhadas. O que ele desconhecia, todos comentavam, é que o navio perfeito nunca iria chegar. Por mais que esperasse, nunca iria aparecer. E ele – que tolo! – já chegava procurando os defeitos, ao invés de se focar nas qualidades. Não entendia que, talvez, tudo que as falhas precisavam era do seu afago… Coitado do Julião – tão bonito e tão sozinho. Os barcos já estavam cansados de procurá-lo. E o medo de sua família conservadora era apenas um: que ele ficasse para a sempre a ver navios…

Mas todas as fofocas da vez eram sobre Rosali. Há algum tempo aventurou-se dentro de uma canoa furada e nada que fizesse dava conserto. Não era por falta de tentativa. A moça sempre foi esforçada e dedicada. Insistia em uma canoa que, todos notavam, não tinha jeito (no fundo, ela própria sabia). Quantas moças já tinham desistido de velejar naquele traste? Quantas tentaram sem sucesso algum? Talvez por apego, quiçá pelo tempo, Rosali persistia. Inutilmente. Não era por falta de aviso. Todos queriam o melhor para ela e a alertavam sobre o barco furado e inútil – que, aparentemente, só queria afundar pessoas junto com ele. Alguns tentaram tirar a moça à força, mas nada adiantava. Ela acreditava piamente – e inocentemente – que todo seu esforço seria recompensado. O movimento era único, repetitivo e cansativo: com o balde na mão, ficava retirando toda a água que entrava. Um dia ela iria cansar, claro. Mas o que seria de Rosali? Ela conseguiria abandonar o barco errado ou seu destino seria morrer afogada?

Depois de comentarem a vida dos jovens da aldeia, cada pescador suspirava e lembrava, com um arrombo de saudade, do mar daqueles tempos – um mar que era cheio de respeito, de amor e que o ato de jogar a rede era coisa séria. Naqueles tempos, diziam, era difícil abandonar um barco. Subir a bordo para enfrentar esse grande mar da vida, significava virar um fiel tripulante pronto para enfrentar os dias de chuva grossa – juntos – e não só colher os belos dias de sol – juntos.

O relógio chamou o turista. Ele se despediu. Os rostos de Catarina, de Julião e de Rosali tinham ganhado formas, cores e expressões. Antes de entrar no carro, olhou para o mar e lembrou-se de algumas viagens inesquecíveis: um passeio rápido em uma linda canoa, uma viagem em um grande navio, um dia de sufoco em um barco perdido. Percebeu que não havia uma fórmula para navegar. Mas que era importante levar o respeito, a diversão e a dignidade. Uma bússola também não faria mal, para voltar quando tudo começasse a desandar. Entrou no carro e partiu. Sem antes, claro, corrigir o poeta: navegar é realmente preciso. Mas é preciso fazer viagens alegres. É imprescindível carregar na mala um bocado de amor próprio, a segurança de que não se deixará cair no fundo do poço e um monte de um tanto de sorrisos.

Já em casa, o turista pensou na vida dos três jovens e na saudade dos pescadores. Não entendeu. Para ele, afinal, não importa muito se vai pegar o barco ou ficar no porto, se vai fazer uma aventura em um domingo chato ou velejar pela eternidade e um dia a mais. O que importa é se divertir. E trazer das viagens sorrisos, lembranças e sabedorias para os próximos passeios. E aí quem sabe – um dia, nesse marzão imenso – não aparece vontade de ficar ali para sempre.

O resto, meu caros, é história de pescador.

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Construindo preciosidades

Durante o percurso do ônibus, escorava a cabeça na janela, pouco se importando com a sujeira acumulada, e imaginava o seu mundo perfeito. Desenhava cenários, escrevia os diálogos e escolhia a trilha sonora. Nas madrugadas de pouco sono, encolhia-se no escuro, pouco se importando com o fato de que trabalharia cedo no dia seguinte, e criava realidades paralelas. O que teria acontecido se a escolha fosse outra? Como estaria? O que tinha atrás das outras portas? Quando entrava no chuveiro, saboreava demoradamente a água caindo pelo corpo, pouco se importando com a falta de chuva e o racionamento, e construía seu próprio destino. Sabia que nada era previsível e que todo trabalho era em vão, mas gostava de sonhar.

Ele sempre teve um sorriso e uma piada, mas só serviam para esconder os medos e segredos. Além disso, por vida foi inconformado, insatisfeito e descontente. E, por isso mesmo, imaginava, criava, construía. Descobriu desde cedo que, realmente, só os idiotas são felizes. E que, feliz ou infelizmente, a insatisfação não gera mudanças, mas cria preciosidades.

Pierre Verger não conseguiu mudar o seu mundo, então descobriu a viagem e foi fotografar. Sempre inconformado, sempre com uma mochila nas costas, sempre buscando respostas através das lentes. Não firmava raízes e não almejava holofotes. Queria ver tudo, ver todos, para tentar entender e, principalmente, inserir-se em algum lugar. Com certeza não conseguiu nenhum dos dois.

John Lennon queria apenas ser feliz. Como não era um idiota, não conseguiu. Foi fazer música para fugir dos medos, das dores do mundo, do descontentamento com as pessoas. Não conseguiu fazer um mundo onde não houvesse fome e nem guerras religiosas, mas – quem sabe em uma madrugada de insônia – imaginou. Ele assoviou, escreveu, cantou e divulgou para milhões a vida que queria.

Almodóvar sempre foi diferente. Não tinha dinheiro. A educação religiosa só serviu para perder a fé em Deus. E não conseguia ser livre, liberto, libertino. Pegou seus medos e suas roupas, jogou dentro das malas e foi aprender a fazer filme. Em suas obras, tenta contar muito do que viveu, aprendeu e sonhou. Nas telonas, através dos olhos (sonhadores) de Pedro Almodóvar, a hipocrisia religiosa homossexual foi punida e as mulheres – todas – têm seu lugar ao sol. No roteiro da vida – essa boba que não sabe seguir quem pensa bonito – a realidade é outra…

A insatisfação, ora, não gera mudanças. Mas cria preciosidades.

Mas, voltemos a ele, que longe do vidro do ônibus, deixava a realidade bater na cara e mostrar que não dá simplesmente para mudar o (seu) mundo com imaginação, desenhos e belas trilhas sonoras. E quando a realidade da vida chega crua e insensível, inacreditavelmente ele consegue sorrir. Afinal, mesmo sem fotografias incríveis, músicas nas rádios e filmes em Hollywood, ele sempre trazia lápis, papel, inconformismo e sonhos de chuveiro.

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Cá entre nós

Eram diferentes em tudo na vida: na razão, na emoção e na quantidade de SMS. Eram diferentes na geografia, na história e até na matemática. Enquanto um era cinema e poesia, o outro era prosa e televisão. Nenhuma decisão era fácil. Nenhum braço era dado a torcer tão facilmente. Bar ou restaurante? Skol ou Brahma? Rock ou Jazz? Tudo era motivo para discussão acalorada e cansativa. Qualquer coisa se transformava em debate. Quantas vezes foi preciso alguém para mediar? Nem sei dizer… Brigavam porque um falava mais, exigia mais e dizia até amar mais. Que sei lá eu se é verdade. Mas, cá entre nós, esse negócio de amor com amor se paga é mesmo uma lorota. Na dosagem de sentimentos, um sempre tem uma gotinha a menos.

Claro que não eram apenas brigas bobas. Houve as confusões sérias, em que as cabeças esquentavam, os insultos eram jogados e o respeito ficava perdido. É o momento tenso da relação: as diferenças gritam e o que separa fica bem maior do que o que une. Eles acabavam resolvendo de todo o jeito e com juras de não acontecer nunca mais. Mas, aos cochichos, já circulava a sentença de quem os conheciam: a relação estava fazendo mais mal do que bem. E, cá entre nós, esse negócio de que os opostos se atraem só funciona mesmo na química. E eles nunca gostaram muito de química.

Todos, inclusive eu, falavam que eles sempre podiam insistir mais um pouco. Todos costumavam encorajar. A vida já me mostrou que não adianta interferir: essas histórias só acabam quando um dos envolvidos resolve colocar o ponto final. A vida também me mostrou que as relações nunca acabam de primeira: é preciso desgaste constante. E nós, os amigos, embora pedíssemos paciência na hora de decidir qualquer coisa, já achávamos que estava tudo muito tenso e que as mudanças nunca chegariam. Cá entre nós, esse negócio de água mole em pedra dura tanto bate até que fura é conversa fiada. As pessoas não aprendem e não cansam de tentar emergir o barco afundado.

Eles viveram bons momentos, ninguém pode negar. Por um bom tempo, tudo foi mágico. Era uma antiga e linda história que causava inspiração, admiração e inveja boa a todos que ouviam. No início tudo era muito perfeito. Eles eram mais engraçados, mais alegres e até mais bonitos. Dava para ver todo o amor dos dois nas pequenas coisas. Sem contar as adversidades que enfrentaram para estarem juntos. Eles foram corajosos, atrevidos e, todos comentavam, combinavam. Mas aí vieram os defeitos, as mentiras e as pessoas do passado para tirar a imperfeição de tudo. Cá entre nós, esse negócio de que para esquecer um amor, só outro grande amor não funciona. Para se entregar ao novo é preciso estar desamarrado completamente.

Nunca dá para saber como eles estão. Discutindo pela sobremesa ou gargalhando juntos por alguma bobagem? Típico deles: essa inconstância absurda e, arrisco dizer, culpada de tudo. Mas não precisa insistir ao ponto de ser apenas tristeza, espinho e ferida. Esse negócio de capitão nunca abandonar o navio é pura besteira. É preciso sabedoria para desistir no tempo certo. Afinal, cá entre nós, o amor não é imortal. Mas que ele seja eterno (e belo) enquanto dure.

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