Cá entre nós

Eram diferentes em tudo na vida: na razão, na emoção e na quantidade de SMS. Eram diferentes na geografia, na história e até na matemática. Enquanto um era cinema e poesia, o outro era prosa e televisão. Nenhuma decisão era fácil. Nenhum braço era dado a torcer tão facilmente. Bar ou restaurante? Skol ou Brahma? Rock ou Jazz? Tudo era motivo para discussão acalorada e cansativa. Qualquer coisa se transformava em debate. Quantas vezes foi preciso alguém para mediar? Nem sei dizer… Brigavam porque um falava mais, exigia mais e dizia até amar mais. Que sei lá eu se é verdade. Mas, cá entre nós, esse negócio de amor com amor se paga é mesmo uma lorota. Na dosagem de sentimentos, um sempre tem uma gotinha a menos.

Claro que não eram apenas brigas bobas. Houve as confusões sérias, em que as cabeças esquentavam, os insultos eram jogados e o respeito ficava perdido. É o momento tenso da relação: as diferenças gritam e o que separa fica bem maior do que o que une. Eles acabavam resolvendo de todo o jeito e com juras de não acontecer nunca mais. Mas, aos cochichos, já circulava a sentença de quem os conheciam: a relação estava fazendo mais mal do que bem. E, cá entre nós, esse negócio de que os opostos se atraem só funciona mesmo na química. E eles nunca gostaram muito de química.

Todos, inclusive eu, falavam que eles sempre podiam insistir mais um pouco. Todos costumavam encorajar. A vida já me mostrou que não adianta interferir: essas histórias só acabam quando um dos envolvidos resolve colocar o ponto final. A vida também me mostrou que as relações nunca acabam de primeira: é preciso desgaste constante. E nós, os amigos, embora pedíssemos paciência na hora de decidir qualquer coisa, já achávamos que estava tudo muito tenso e que as mudanças nunca chegariam. Cá entre nós, esse negócio de água mole em pedra dura tanto bate até que fura é conversa fiada. As pessoas não aprendem e não cansam de tentar emergir o barco afundado.

Eles viveram bons momentos, ninguém pode negar. Por um bom tempo, tudo foi mágico. Era uma antiga e linda história que causava inspiração, admiração e inveja boa a todos que ouviam. No início tudo era muito perfeito. Eles eram mais engraçados, mais alegres e até mais bonitos. Dava para ver todo o amor dos dois nas pequenas coisas. Sem contar as adversidades que enfrentaram para estarem juntos. Eles foram corajosos, atrevidos e, todos comentavam, combinavam. Mas aí vieram os defeitos, as mentiras e as pessoas do passado para tirar a imperfeição de tudo. Cá entre nós, esse negócio de que para esquecer um amor, só outro grande amor não funciona. Para se entregar ao novo é preciso estar desamarrado completamente.

Nunca dá para saber como eles estão. Discutindo pela sobremesa ou gargalhando juntos por alguma bobagem? Típico deles: essa inconstância absurda e, arrisco dizer, culpada de tudo. Mas não precisa insistir ao ponto de ser apenas tristeza, espinho e ferida. Esse negócio de capitão nunca abandonar o navio é pura besteira. É preciso sabedoria para desistir no tempo certo. Afinal, cá entre nós, o amor não é imortal. Mas que ele seja eterno (e belo) enquanto dure.

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