Construindo preciosidades

Durante o percurso do ônibus, escorava a cabeça na janela, pouco se importando com a sujeira acumulada, e imaginava o seu mundo perfeito. Desenhava cenários, escrevia os diálogos e escolhia a trilha sonora. Nas madrugadas de pouco sono, encolhia-se no escuro, pouco se importando com o fato de que trabalharia cedo no dia seguinte, e criava realidades paralelas. O que teria acontecido se a escolha fosse outra? Como estaria? O que tinha atrás das outras portas? Quando entrava no chuveiro, saboreava demoradamente a água caindo pelo corpo, pouco se importando com a falta de chuva e o racionamento, e construía seu próprio destino. Sabia que nada era previsível e que todo trabalho era em vão, mas gostava de sonhar.

Ele sempre teve um sorriso e uma piada, mas só serviam para esconder os medos e segredos. Além disso, por vida foi inconformado, insatisfeito e descontente. E, por isso mesmo, imaginava, criava, construía. Descobriu desde cedo que, realmente, só os idiotas são felizes. E que, feliz ou infelizmente, a insatisfação não gera mudanças, mas cria preciosidades.

Pierre Verger não conseguiu mudar o seu mundo, então descobriu a viagem e foi fotografar. Sempre inconformado, sempre com uma mochila nas costas, sempre buscando respostas através das lentes. Não firmava raízes e não almejava holofotes. Queria ver tudo, ver todos, para tentar entender e, principalmente, inserir-se em algum lugar. Com certeza não conseguiu nenhum dos dois.

John Lennon queria apenas ser feliz. Como não era um idiota, não conseguiu. Foi fazer música para fugir dos medos, das dores do mundo, do descontentamento com as pessoas. Não conseguiu fazer um mundo onde não houvesse fome e nem guerras religiosas, mas – quem sabe em uma madrugada de insônia – imaginou. Ele assoviou, escreveu, cantou e divulgou para milhões a vida que queria.

Almodóvar sempre foi diferente. Não tinha dinheiro. A educação religiosa só serviu para perder a fé em Deus. E não conseguia ser livre, liberto, libertino. Pegou seus medos e suas roupas, jogou dentro das malas e foi aprender a fazer filme. Em suas obras, tenta contar muito do que viveu, aprendeu e sonhou. Nas telonas, através dos olhos (sonhadores) de Pedro Almodóvar, a hipocrisia religiosa homossexual foi punida e as mulheres – todas – têm seu lugar ao sol. No roteiro da vida – essa boba que não sabe seguir quem pensa bonito – a realidade é outra…

A insatisfação, ora, não gera mudanças. Mas cria preciosidades.

Mas, voltemos a ele, que longe do vidro do ônibus, deixava a realidade bater na cara e mostrar que não dá simplesmente para mudar o (seu) mundo com imaginação, desenhos e belas trilhas sonoras. E quando a realidade da vida chega crua e insensível, inacreditavelmente ele consegue sorrir. Afinal, mesmo sem fotografias incríveis, músicas nas rádios e filmes em Hollywood, ele sempre trazia lápis, papel, inconformismo e sonhos de chuveiro.

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