Arquivo mensal: agosto 2012

Doce e dente de leite

Lembro de um cheiro gostoso de doce de leite, de uma porta com ferrolho e cordinha, de uma janela que era o portal da casa para a rua. Lembro de uma imagem gigante de Nossa Senhora Aparecida com as unhas pintadas de vermelho, da farofa de andu, do pé de goiaba. Lembro do medo de ir sozinho ao quintal no escuro, dos antigos ditados e crenças, de uma canção do Toquinho.

Lembranças de uma época de retratos e fotografia em caixas de sapato, de um tempo em que as maiores obrigações eram comprar o pão e jogar o lixo para fora, de quando não havia dúvidas de que os sonhos de menino seriam realizados.

Lembro daquele acidente de bicicleta, da perna engessada com vários recadinhos, de um banho de chuva e lama. Lembro dos puxões de orelha, dos assaltos de doces na geladeira pela madrugada, dos aniversários com chapeuzinho e língua de sogra. Lembro do choro para viajar na caçamba do caminhão, dos dentes de leite que iam embora com a ajuda de linha e maçaneta, dos ensaios de quadrilha.

Lembranças de uma época em que as nuvens contavam histórias fabulosas e desenhavam coisas do futuro, de um tempo em que os trabalhos de escola eram feitos com ajuda de livros antigos e escritos à mão, de quando os joelhos sempre estavam cheios de arranhões.

Lembro que a pequena mesada ia todo para a menina que vendia balas, do jornalzinho, das brincadeiras inventadas. Lembro do dia em que as boias de braços foram para o lixo, das danças nas gincanas, do primeiro beijo. Lembro das peças e do coral na igreja, das aulas de datilografia, do aniversário da cachorra.

Lembranças de uma época de mesa lotada de comida e gente, de um tempo em que a maior preocupação era conseguir fazer curva com os patins deslizando, de quando não sabia se era dia de lavar o cabelo na hora do banho.

E aí veio o tempo, com sua velocidade desmedida, atropelando tudo. E hoje sou gente grande – com grandes obrigações e preocupações. O doce de leite ficou enjoativo, as unhas da Nossa Senhora estão mais desbotadas do que a minha fé e uma das certezas da vida é que quero distância das caçambas de caminhão. Não lembro mais dos passos de quadrilha, o Google substituiu a coleção Barsa e os almoços perderam a fartura – de comida e de gente. As nuvens são apenas sinais de alerta para recolher as roupas do varal, os ditados ficaram esquecidos e os arranhões nos joelhos foram embora com os dentes de leite.

Dizem que ainda sobraram resquícios do sorriso infantil e que ainda tenho a alegria boba de criança quando ganho um presente. Acho que ainda tem duas ou três caixas de sapato com alguns retratos no velho armário do quarto de bagunça que já foi um fantástico quarto de brinquedos. Mas que sei lá eu. A única coisa que eu realmente sei que nunca foi embora e continua aceso aqui, dentro de mim, são os sonhos de menino. E é nesses momentos – apenas quando me lembro deles – que deve surgir o mais agradável e infantil dos sorrisos.

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O choro de Caio Fernando Abreu

Hoje as cortinas se abrem para um monólogo. E eu, muito humildemente, só queria apresentar para vocês o Caio Fernando Abreu que eu conheço.

O Caio tinha alma de gay ousado. Arrisco dizer que era mais do que isso, mas não consigo pensar em um termo adequado para situação. Talvez bicha promíscua, mas sinto que a alcunha não seria bem recebida pela plateia. Mas não dá para negar: sua áurea era colorida e seus sentidos eram femininos. A angústia do Caio, diga-se, chegava a ser angustiante. E todo seu melodrama era sintomático dos seus gritos sufocados pelo desejo de mostrar-se verdadeiro – coisa que ele nunca conseguiu, de fato. E chorou.

Poeta é aquele que chora.

Imagino a tristeza com que ele escreveu Aqueles Dois – crônica bonita sobre dois homens que se apaixonam depois de uma frustrada vida heterossexual. Os caras, nas palavras do Caio, são sérios, comportados, um tanto tímidos, um tanto cultos, um tanto lindos. Sonho do Caio ter sido assim – e encontrado alguém assim. Os protagonistas usaram a solidão de um e a solidão de outro para que viessem dias de sorrisos. O Caio Fernando Abreu não conseguiu, até o fim da vida, aplacar o deserto que habitava sua alma. O que ele conseguiu foi uma HIV, que potencializou suas lágrimas, seu desespero e seu desprezo.

Poeta é aquele que chora.

Pobre do Caio. Um de seus textos mais pungentes, Pela Noite, fala de como a tribo gay é um gueto atolado de pessoas com os mesmos gostos e mesmo palavreado que aparenta (apenas aparenta) exclusividade. E segue dizendo que a própria palavra gay é uma “sacralização da bobagem”. O Caio não se encaixava. Ele não escandalizava. Disse que se inspirou mais em Cazuza e Rita Lee do que em Guimarães Rosa, mas nunca conseguiu gritar suas condições, opções e erros. Mas não precisava. Como Vinícius, a biografia e bibliografia do Caio informam o mesmo comportamento. E não se engane: é uma literatura de quarentão solitário homossexual, que não conseguiu conviver com seus desejos, seu verdadeiro eu e todos os eus que inventou – para o espelho, para os amigos escritores, para a família. E se lamentava. Afinal, como ele escreveu: “Só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais”.

Poeta é aquele que chora.

Tudo em Caio era dor, angústia, saudade, desejo, punição, culpa, mentira. E tudo virou poesia – algumas boas, outras ruins. Ele tentou tanto esconder sua natureza e hoje sua literatura é considerada apenas gay – palavra que ele sempre recusou. Apenas. Sem margens para outras interpretações. Como disse a escritora Márcia Denser em uma homenagem ao centenário do escritor, “a visão, a manutenção do ponto de vista dum narrador exclusivamente homossexual restringe, limita e aprisiona o grande artista”. O Caio foi tudo isso: restrito, limitado, aprisionado, grande artista. E, claro, homossexual – daqueles que querem, em vão, esconder o que está transcendendo. Uma vez, numa carta, aconselhou o jornalista Luiz Fernando Emediato a se cuidar mais e não se expor demais. “A gente é muito frágil e eles são muito fortes”, explicou Caio.

Poeta é aquele que chora.

Hoje, o Caio F. Abreu faz sucesso. E sua literatura balizada não é mais vista assim. Ele deixou de ser o cara da literatura gay (esse termo é odioso, ou a literatura é boa ou ruim). Agora ele é o poeta da menina que foi traída, do cara que nunca leu um livro na vida, da pré-adolescente que adora modismos. O choro de Caio virou choro barato nas mídias sociais, virou poesia de mesa de colégio e pieguice de poltrona de ônibus. As dores, as recusas e a solidão de Caio se transformaram em chacota, em pára-choque de caminhão. O novo Caio F. Abreu que vinga pelas mídias sociais afora não me interessa muito. A galera do Facebook pode ficar com ele.

Poeta é aquele que chora. Então chore, Caio. Porque é tua a emoção.

Cai o pano.

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Sobre Machado, preconceitos e cultivo de jardim

Como Macunaíma, Machado de Assis nasceu negro e foi ficando branco à medida que se afastava de sua origem. Nascido no sofrível Morro do Livramento, o mulato, filho de pintor de paredes e lavadeira, foi parar, confortável e esbranquiçado, no bairro elitista de Cosme Velho.

Não sei se Machado gostaria que alguém se lembrasse da sua mulatice. Temo que não. Ele iria considerar rasteiro. Apelativo. Se for para falar de Machado, vamos falar de sua incrível genialidade. Mas hoje – só por hoje – vou precisar apelar para o cansado assunto do racismo para esse texto. Prometo ser a última vez. Todo mundo sabe que Machado de Assis foi um negro que repudiou sua origem. Um negro que ganhou absurda importância nacional e se absteve de se posicionar politicamente numa época em que a Abolição era debatida. Um negro que se rendeu à arte literária europeia. Um negro que só dispensava aos negros papéis sofridos e resignados em seus livros.

Numa crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888, seis dias após a Abolição da Escravatura, Machado falou da questão, abordando o tema com o tom mais sarcástico que coube: “juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha”. Narrou o momento em que restituía liberdade ao seu escravo Pancrácio durante um banquete: “Fiz discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo”.

Com fina ironia, de fazer inveja a Jonathan Swift, Machado contou que a liberdade fez bem ao moleque, que por pequenos trocados aceitava petelecos, pontapés, puxões de orelhas e apelidos humilhantes. O escravo continuava escravo, mas agora ganhava um pequeno ordenado. Nosso ilustre escritor sabia, desde aquela época, que a Abolição sozinha não resolveria a questão. No fim da mesma crônica, Machado pesa o tom de blague: “O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda gente que dêle teve notícia”. Colocando uma lupa nisso tudo, a impressão é que Machado de Assis era um ser desprezível. Mas a verdade é que o autor só tinha compromisso com sua cabeça e seu futuro glorioso.

O movimento negro sempre lutou para que os negros se orgulhassem de sua cor. Machado, não. Ele era o inverso de Castro Alves, o poeta dos escravos. Arrisco dizer que ele acharia uma patetice todas essas ações afirmativas, a política de cotas e certeza que zombaria de um Dia Nacional da Consciência Negra, com extenuantes homenagens a Zumbi. Tudo isso caracteriza uma única raça, um único povo, uma única cor. Machado não achava que o conceito de raça tivesse alguma relevância. Ele pensava mais. Ele pensava além.

Machado de Assis não disfarçou sua cor por conta de racismo ou repúdio aos seus antepassados. O motivo é muito mais simplista: a família de sua mulher portuguesa fez restrições ao casamento por motivos raciais e os amigos poderosos e políticos em que o autor se apoiou eram todos brancos. Naquela época, o mestiço ainda era visto como um ser inferior. Machado repudiava qualquer espécie de preconceito, mas precisava pautar o Estado e os ricos que frequentavam teatro e liam compulsivamente. Não nos enganemos: nosso mais ilustre escritor foi pelego quando precisou ser, bajulou quem precisava ser bajulado e foi o incentivador – quiçá o inventor – dos sorrisos e elogios falsos que pairam na Academia Brasileira de Letras.

A posição sensata de Machado de Assis está em Esaú e Jacó, livro de 1904: “Abolição é a aurora da liberdade; esperamos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco”. Lógico. Ele entendia a miséria social não só como um problema do negro, mas também do branco pobre e marginalizado. Machado tinha a consciência negra, branca, brasileira, mundial, mulata e amarela. É muito bonito hastear faixas para Zumbi dos Palmares e cartazes com frases de Castro Alves, mas o combate necessário é contra o preconceito financeiro – e esse só será extinto de acordo o esforço de cada um. Veja bem: o mulato filho de lavadeira e pintor de paredes se tornou a maior referência da literatura brasileira. Como disse Voltaire, é preciso que cada um cultive o seu jardim.

Machado foi um homem muito esperto, mas acho que ele imaginou que no século próximo ao seu não existiriam essas demagogias desnecessárias e que a busca pessoal pela ascensão superaria qualquer preconceito. Mas a verdade é que não há busca. O rico não busca. O pobre não busca. E todos vivem nesse eterno conformismo, compartilhando montagens toscas com frases piegas enaltecendo as minorias nas mídias digitais . Sobre Machado de Assis resta dizer que ele não foi apenas um homem a frente do seu tempo. Ele é um homem muito a frente do nosso tempo.

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