Sobre Machado, preconceitos e cultivo de jardim

Como Macunaíma, Machado de Assis nasceu negro e foi ficando branco à medida que se afastava de sua origem. Nascido no sofrível Morro do Livramento, o mulato, filho de pintor de paredes e lavadeira, foi parar, confortável e esbranquiçado, no bairro elitista de Cosme Velho.

Não sei se Machado gostaria que alguém se lembrasse da sua mulatice. Temo que não. Ele iria considerar rasteiro. Apelativo. Se for para falar de Machado, vamos falar de sua incrível genialidade. Mas hoje – só por hoje – vou precisar apelar para o cansado assunto do racismo para esse texto. Prometo ser a última vez. Todo mundo sabe que Machado de Assis foi um negro que repudiou sua origem. Um negro que ganhou absurda importância nacional e se absteve de se posicionar politicamente numa época em que a Abolição era debatida. Um negro que se rendeu à arte literária europeia. Um negro que só dispensava aos negros papéis sofridos e resignados em seus livros.

Numa crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888, seis dias após a Abolição da Escravatura, Machado falou da questão, abordando o tema com o tom mais sarcástico que coube: “juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha”. Narrou o momento em que restituía liberdade ao seu escravo Pancrácio durante um banquete: “Fiz discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo”.

Com fina ironia, de fazer inveja a Jonathan Swift, Machado contou que a liberdade fez bem ao moleque, que por pequenos trocados aceitava petelecos, pontapés, puxões de orelhas e apelidos humilhantes. O escravo continuava escravo, mas agora ganhava um pequeno ordenado. Nosso ilustre escritor sabia, desde aquela época, que a Abolição sozinha não resolveria a questão. No fim da mesma crônica, Machado pesa o tom de blague: “O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda gente que dêle teve notícia”. Colocando uma lupa nisso tudo, a impressão é que Machado de Assis era um ser desprezível. Mas a verdade é que o autor só tinha compromisso com sua cabeça e seu futuro glorioso.

O movimento negro sempre lutou para que os negros se orgulhassem de sua cor. Machado, não. Ele era o inverso de Castro Alves, o poeta dos escravos. Arrisco dizer que ele acharia uma patetice todas essas ações afirmativas, a política de cotas e certeza que zombaria de um Dia Nacional da Consciência Negra, com extenuantes homenagens a Zumbi. Tudo isso caracteriza uma única raça, um único povo, uma única cor. Machado não achava que o conceito de raça tivesse alguma relevância. Ele pensava mais. Ele pensava além.

Machado de Assis não disfarçou sua cor por conta de racismo ou repúdio aos seus antepassados. O motivo é muito mais simplista: a família de sua mulher portuguesa fez restrições ao casamento por motivos raciais e os amigos poderosos e políticos em que o autor se apoiou eram todos brancos. Naquela época, o mestiço ainda era visto como um ser inferior. Machado repudiava qualquer espécie de preconceito, mas precisava pautar o Estado e os ricos que frequentavam teatro e liam compulsivamente. Não nos enganemos: nosso mais ilustre escritor foi pelego quando precisou ser, bajulou quem precisava ser bajulado e foi o incentivador – quiçá o inventor – dos sorrisos e elogios falsos que pairam na Academia Brasileira de Letras.

A posição sensata de Machado de Assis está em Esaú e Jacó, livro de 1904: “Abolição é a aurora da liberdade; esperamos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco”. Lógico. Ele entendia a miséria social não só como um problema do negro, mas também do branco pobre e marginalizado. Machado tinha a consciência negra, branca, brasileira, mundial, mulata e amarela. É muito bonito hastear faixas para Zumbi dos Palmares e cartazes com frases de Castro Alves, mas o combate necessário é contra o preconceito financeiro – e esse só será extinto de acordo o esforço de cada um. Veja bem: o mulato filho de lavadeira e pintor de paredes se tornou a maior referência da literatura brasileira. Como disse Voltaire, é preciso que cada um cultive o seu jardim.

Machado foi um homem muito esperto, mas acho que ele imaginou que no século próximo ao seu não existiriam essas demagogias desnecessárias e que a busca pessoal pela ascensão superaria qualquer preconceito. Mas a verdade é que não há busca. O rico não busca. O pobre não busca. E todos vivem nesse eterno conformismo, compartilhando montagens toscas com frases piegas enaltecendo as minorias nas mídias digitais . Sobre Machado de Assis resta dizer que ele não foi apenas um homem a frente do seu tempo. Ele é um homem muito a frente do nosso tempo.

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Um pensamento sobre “Sobre Machado, preconceitos e cultivo de jardim

  1. Marcos Tom disse:

    Olha… depois de uns textos bossa nova, Igor Luz voltou a ser o patife que sempre amamos.

    Só ele sabe colocar a acidez no tom certo, de fazer inveja a Jonathan Swift.

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