O choro de Caio Fernando Abreu

Hoje as cortinas se abrem para um monólogo. E eu, muito humildemente, só queria apresentar para vocês o Caio Fernando Abreu que eu conheço.

O Caio tinha alma de gay ousado. Arrisco dizer que era mais do que isso, mas não consigo pensar em um termo adequado para situação. Talvez bicha promíscua, mas sinto que a alcunha não seria bem recebida pela plateia. Mas não dá para negar: sua áurea era colorida e seus sentidos eram femininos. A angústia do Caio, diga-se, chegava a ser angustiante. E todo seu melodrama era sintomático dos seus gritos sufocados pelo desejo de mostrar-se verdadeiro – coisa que ele nunca conseguiu, de fato. E chorou.

Poeta é aquele que chora.

Imagino a tristeza com que ele escreveu Aqueles Dois – crônica bonita sobre dois homens que se apaixonam depois de uma frustrada vida heterossexual. Os caras, nas palavras do Caio, são sérios, comportados, um tanto tímidos, um tanto cultos, um tanto lindos. Sonho do Caio ter sido assim – e encontrado alguém assim. Os protagonistas usaram a solidão de um e a solidão de outro para que viessem dias de sorrisos. O Caio Fernando Abreu não conseguiu, até o fim da vida, aplacar o deserto que habitava sua alma. O que ele conseguiu foi uma HIV, que potencializou suas lágrimas, seu desespero e seu desprezo.

Poeta é aquele que chora.

Pobre do Caio. Um de seus textos mais pungentes, Pela Noite, fala de como a tribo gay é um gueto atolado de pessoas com os mesmos gostos e mesmo palavreado que aparenta (apenas aparenta) exclusividade. E segue dizendo que a própria palavra gay é uma “sacralização da bobagem”. O Caio não se encaixava. Ele não escandalizava. Disse que se inspirou mais em Cazuza e Rita Lee do que em Guimarães Rosa, mas nunca conseguiu gritar suas condições, opções e erros. Mas não precisava. Como Vinícius, a biografia e bibliografia do Caio informam o mesmo comportamento. E não se engane: é uma literatura de quarentão solitário homossexual, que não conseguiu conviver com seus desejos, seu verdadeiro eu e todos os eus que inventou – para o espelho, para os amigos escritores, para a família. E se lamentava. Afinal, como ele escreveu: “Só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais”.

Poeta é aquele que chora.

Tudo em Caio era dor, angústia, saudade, desejo, punição, culpa, mentira. E tudo virou poesia – algumas boas, outras ruins. Ele tentou tanto esconder sua natureza e hoje sua literatura é considerada apenas gay – palavra que ele sempre recusou. Apenas. Sem margens para outras interpretações. Como disse a escritora Márcia Denser em uma homenagem ao centenário do escritor, “a visão, a manutenção do ponto de vista dum narrador exclusivamente homossexual restringe, limita e aprisiona o grande artista”. O Caio foi tudo isso: restrito, limitado, aprisionado, grande artista. E, claro, homossexual – daqueles que querem, em vão, esconder o que está transcendendo. Uma vez, numa carta, aconselhou o jornalista Luiz Fernando Emediato a se cuidar mais e não se expor demais. “A gente é muito frágil e eles são muito fortes”, explicou Caio.

Poeta é aquele que chora.

Hoje, o Caio F. Abreu faz sucesso. E sua literatura balizada não é mais vista assim. Ele deixou de ser o cara da literatura gay (esse termo é odioso, ou a literatura é boa ou ruim). Agora ele é o poeta da menina que foi traída, do cara que nunca leu um livro na vida, da pré-adolescente que adora modismos. O choro de Caio virou choro barato nas mídias sociais, virou poesia de mesa de colégio e pieguice de poltrona de ônibus. As dores, as recusas e a solidão de Caio se transformaram em chacota, em pára-choque de caminhão. O novo Caio F. Abreu que vinga pelas mídias sociais afora não me interessa muito. A galera do Facebook pode ficar com ele.

Poeta é aquele que chora. Então chore, Caio. Porque é tua a emoção.

Cai o pano.

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Um pensamento sobre “O choro de Caio Fernando Abreu

  1. Vito disse:

    Fosse eu o autor dum texto contextualizado e continente (esta palavra basta por si), vez que os trechos seguidos de “C.F.A.” não o são, acharia justo que atentassem, os que a ele tivessem acesso, manifestassem-se. Claro que os “haters gonna hate”, especialmente as ninfetas que tomaram um pé na bunda do pegador (em algus lugare(jos)s “prostituto”) do colégio…se bem que elas provavelmente não chegariam ao final do texto ou criticariam a reiteração da frase “Poeta é aquele que chora.”. Enfim, nem uma curtida, tampouco uma compartilhada, mas sim, minhas congratulações.

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