Doce e dente de leite

Lembro de um cheiro gostoso de doce de leite, de uma porta com ferrolho e cordinha, de uma janela que era o portal da casa para a rua. Lembro de uma imagem gigante de Nossa Senhora Aparecida com as unhas pintadas de vermelho, da farofa de andu, do pé de goiaba. Lembro do medo de ir sozinho ao quintal no escuro, dos antigos ditados e crenças, de uma canção do Toquinho.

Lembranças de uma época de retratos e fotografia em caixas de sapato, de um tempo em que as maiores obrigações eram comprar o pão e jogar o lixo para fora, de quando não havia dúvidas de que os sonhos de menino seriam realizados.

Lembro daquele acidente de bicicleta, da perna engessada com vários recadinhos, de um banho de chuva e lama. Lembro dos puxões de orelha, dos assaltos de doces na geladeira pela madrugada, dos aniversários com chapeuzinho e língua de sogra. Lembro do choro para viajar na caçamba do caminhão, dos dentes de leite que iam embora com a ajuda de linha e maçaneta, dos ensaios de quadrilha.

Lembranças de uma época em que as nuvens contavam histórias fabulosas e desenhavam coisas do futuro, de um tempo em que os trabalhos de escola eram feitos com ajuda de livros antigos e escritos à mão, de quando os joelhos sempre estavam cheios de arranhões.

Lembro que a pequena mesada ia todo para a menina que vendia balas, do jornalzinho, das brincadeiras inventadas. Lembro do dia em que as boias de braços foram para o lixo, das danças nas gincanas, do primeiro beijo. Lembro das peças e do coral na igreja, das aulas de datilografia, do aniversário da cachorra.

Lembranças de uma época de mesa lotada de comida e gente, de um tempo em que a maior preocupação era conseguir fazer curva com os patins deslizando, de quando não sabia se era dia de lavar o cabelo na hora do banho.

E aí veio o tempo, com sua velocidade desmedida, atropelando tudo. E hoje sou gente grande – com grandes obrigações e preocupações. O doce de leite ficou enjoativo, as unhas da Nossa Senhora estão mais desbotadas do que a minha fé e uma das certezas da vida é que quero distância das caçambas de caminhão. Não lembro mais dos passos de quadrilha, o Google substituiu a coleção Barsa e os almoços perderam a fartura – de comida e de gente. As nuvens são apenas sinais de alerta para recolher as roupas do varal, os ditados ficaram esquecidos e os arranhões nos joelhos foram embora com os dentes de leite.

Dizem que ainda sobraram resquícios do sorriso infantil e que ainda tenho a alegria boba de criança quando ganho um presente. Acho que ainda tem duas ou três caixas de sapato com alguns retratos no velho armário do quarto de bagunça que já foi um fantástico quarto de brinquedos. Mas que sei lá eu. A única coisa que eu realmente sei que nunca foi embora e continua aceso aqui, dentro de mim, são os sonhos de menino. E é nesses momentos – apenas quando me lembro deles – que deve surgir o mais agradável e infantil dos sorrisos.

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5 pensamentos sobre “Doce e dente de leite

  1. heeldersilva disse:

    Só ler esse tipo de coisa e a endorfina se espalha generosamente aqui. É difícil me desligar dessa nostalgia confortável e dar de cara com as responsabilidades perturbadoras, mas a grande sacada é que daqui uns anos vou sentir saudade de hoje como sinto de antes. Que a nostalgia tenha seu lugar, mas que não tome todo o tempo de construir uma nova. E um brinde aos sonhos de menino.

    Abraço!

    • igorluzz disse:

      É. Gostei dessa ideia. Afinal, entre as brincadeiras de criança e as grandes responsabilidades, esteve a adolescência chata, cheia de espinhas, descobertas e segredos.

      Que a nostalgia tenha seu lugar. =)

  2. Mário Ribeiro disse:

    Lembro de um tanto de coisas parecidas, tão parecidas que parecia falar de mim. Hoje lembro que tenho saudade disso tudo e também da coleção de figurinhas dos chicletes Ploc.
    Com os olhos prestes a transbordarem numa incessante cascata salgada, eu te deixo um abraço.

    Lindo texto. Abraço, Tchuco 🙂

  3. Tássio disse:

    bonito texto amigo. A única coisa que faço na vida é tentar realizar meus sonhos de menino.

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