Arquivo mensal: novembro 2012

Peitos

Vocês devem ter visto o vídeo do Movimento Gota D’água com vários artistas falando sobre a Usina de Belo Monte. Tem até a Natasha, de Vamp, e o Tufão, de Avenida Brasil. Eu vi. Não entendi nada. Que sei lá eu sobre energia eólica. O que me chamou a atenção foi só uma coisa: a Maitê Proença tirando o sutiã de costas para a câmera. Alguns culpam o fracasso da campanha pela ignorância das celebridades em relação ao tema. Outros mais empolgados disseram que o vídeo é parte de um plano secreto da China e dos EUA para dominar o mundo. Eu acho que o Movimento não deu certo por um motivo mais simples, mais rasteiro: a Maitê Proença pirraça e não mostra os peitos para futuros engajados.

Os peitos acabaram recebendo uma função muito mais desafiadora do que pensam os meninos de 14 anos. Nos dias de hoje, nada, absolutamente nada, é mais revolucionário do que levantar a blusa e mostrar os peitos. Já tivemos protestos com assassinatos. Já tivemos protestos com faixas e cara pintadas. Já tivemos até protestos com músicas do Caetano. Agora é a vez dos peitos. Ninguém pode segurá-los.

ukanian-protest6 As ativistas ucranianas do Femen, organização feminina, aprenderam a protestar assim e não pararam mais. O governo planeja aumentar a idade de aposentadoria para as mulheres na Ucrânia? Peitos. O primeiro-ministro russo Vladmir Putin resolve aparecer pelo país? Mais peitos. O governo quer barrar todos os tipos de aborto? Peitos, peitos e peitos. Balançando e pintando os seios, elas pretendem não só mudar a Ucrânia, mas o mundo. Não tem muito tempo, mostraram mais peitos para prestar solidariedade a uma mulher saudita presa por dirigir um carro.

As brasileiras também aprenderam a protestar. Diferente de vocês que só ficam fazendo revolução com hashtag e a bunda pregada na cadeira, elas arrancaram a blusa para pedir o veto ao Código Florestal. Não precisa ser apenas peito bonito. Como bem mostrou a Marcha das Mulheres, que contou com cerca de cinco mil manifestantes lutando pela igualdade dos sexos, vale todo tipo de seio: farto, caído, pequeno, branco, preto, siliconado e com um assustador mamilo gigante.

Não dá para ficar parada e presa com o sutiã, enquanto o mundo está cheio de irregularidades. Os protestos balançando os seios já ganharam o mundo, mas fica a certeza que falta muito a ser feito. Acho que a Angelina Jolie poderia acabar com a fome do mundo usando os seus peitos. Com suas ajudas humanitárias e viagens para lugares exóticos, ela tira a fome de uma ou duas dezenas de meninos. Mostrando os peitos, toda hora e sempre que possível, ela ajudaria bem mais famintos. E, de quebra, ajudaria os viciados em Dragon Ball. Carolina Dieckmann quer combater os crimes da internet? Pois mostre mais peitos. E dessa vez sem vaso sanitário por perto. Deborah Secco quer mais privacidade em sua vida? Arranque o sutiã no calçadão de Ipanema. Suzana Vieira quer… Tá, chega de exemplos.

Fumar maconha, queimar pneus, elaborar poeminhas com rimas, espernear no megafone, criar gritos de guerra, pintar faixas e caras não funciona mais. Da próxima vez que pensar em protestar, você já sabe o que fazer: corra pelas ruas com os seios ao léu. Aprendeu, Maitê Proença?

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O surto e o papa-léguas

Já deve ter acontecido com você. Em uma noite qualquer, você deita na cama sem sono e, do nada, tem um daqueles surtos “minha vida está parada, estou estagnado, não tenho feito nada de produtivo por mim mesmo, todos estão crescendo e a coisa mais cara que tenho na vida é uma jaqueta que já está desbotando”. Uma sensação igual a de Janaína, do Biquíni Cavadão, que o “tempo não passou” e que “nada aconteceu”. Só que aqui, meu amigo, o tempo está passando. E você ainda não consegue se imaginar dirigindo um carro. Usado, que seja.

Engraçado que você não fica o dia todo jogado no sofá, sujo de salgadinho e rindo ou chorando sem parar na frente da televisão. Rindo, no caso, com o quadro do chapéu do Raul Gil. E chorando com o De Volta Pra Minha Terra, do Gugu. Você trabalha pra burro, poxa! Tenta se virar com dois empregos para pagar todas as contas. E se rolar algum texto para revisão ou uma assessoria dando sopa por aí, você até sacrifica o seu horário de almoço para ganhar mais alguns trocados. Afinal, você também precisa emagrecer e não sobra nem o dinheiro da academia.

Não é que você seja infeliz ou mal-agradecido. Você saiu da faculdade com emprego e isso já é muita coisa nos dias de hoje. Seu pai não é rico para você se dar o luxo de tentar um curso melhor ou pagar uma super especialização na Europa, então sorria e agradeça a todos os deuses possíveis o fato de que o aluguel está garantido – pelo menos este mês. E tem o extra mais do que incrível de você amar o que faz. Isso é importante, sabe? Pensa que você poderia passar anos se matando em uma faculdade para ser caixa do Bom Preço. Ou pior: vestir uma camisa “posso ajudar?” de qualquer comércio xis das esquinas.

Acontece que a vida não é fácil e virar gente grande é complicado. Você tem que se virar nos 30 (outro quadro de grande estímulo intelectual da televisão brasileira, a propósito) para pagar a conta de luz, comprar uma nova jaqueta e, não menos importante, bancar a cervejinha de sexta. E isso só vem com trabalho e dedicação. Hoje em dia nem os seus momentos de diversão e descontração podem ser desperdiçados. O mundo traz tantas possibilidades… Esses dias, eu tive o prazer de conhecer um cara que passou em primeiro lugar para uma seleção de mestrado com um projeto sobre Breaking Bad (o TCC foi sobre Game of Thrones), e já planeja alguma pesquisa envolvendo Criminal Minds. Isso é fantástico e só mostra que você tem que ser proativo e criativo até para ficar sujo de salgadinho, largado no sofá, com o notebook no colo.

O surto é normal. Ele aparece mesmo nos momentos de cansaço, falta de dinheiro ou quando algum plano não funciona. Mas ele não deve durar muito tempo. A recuperação tem que ser rápida. São tantas coisas para ler, escrever, revisar, entregar, postar. Tantos prazos para cumprir e tantas relações para manter e construir. Passado o momento súbito de depressão (com direito a música de Enya e você escorado na parede, descendo lentamente com lágrimas nos olhos), você tem que arredar o pé, abrir a janela e começar a subir os degraus (e já pode trocar a trilha sonora, por favor). O tempo é aquele esperto papa-léguas que você nunca conseguirá pegar com seus explosivos, catapultas e comprimidos de terremoto. Enquanto você tenta enganá-lo, ele passará por você mais rápido do que nunca e, de quebra, soltará um irritante bip-bip no pé da sua orelha. O fim todos nós sabemos: a armadilha, inevitavelmente, volta-se contra você. O jeito é ficar amigo do tempo e fazer dele um aliado nas suas escolhas, planos, projetos e sonhos. Não foi alguém que disse que nunca é tarde para começar? Pois é. Comece antes que você acabe com uma rocha de 60 toneladas na cabeça.

E também é certo que depois da noite fria vem um belo dia iluminado trazendo novos ventos, novas ideias e novas canções. É quando esquecemos toda a tolice de desistir, secamos as lágrimas e, igual a Janaína, a gente pensa que “um dia a gente há de ser feliz”. Claro: se a gente quiser.

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Patif

“Uhu! Eu sou o novo Leonardo da Vinci! Uhu! Eu sou a nova Lady Gaga!”

O Patife tem andado esquecido. Não vou culpar trabalhos, projetos e botecos. Foi um misto de falta de assunto e de criatividade. E também aprendi com o twitter que você não precisa mais do que 140 caracteres para comentar alguma coisa. O resto é enrola, bloguice, ou – pior! – paulocoelhismo. Mas aconteceu uma coisa engraçada com o blog que queria comentar com vocês.

Há algum tempo, recebi um e-mail de um cara de Portugal. Ele deu de cara com o blog por acaso, googlando para cima e para baixo. Estava desesperado e triste. Procurava uma luz, uma saída, qualquer coisa que o ajudasse a resolver uma pendenga emotiva e financeira. Encontrou essa página. Resolveu o problema. Sou o novo Leonardo da Vinci. Se eu sou o novo Da Vinci, o português só pode ser o meu Dan Brown. Minha obra o ajudou a resolver enigmas, emoções e, de quebra, pode render uns bons trocados. E não precisei de nenhum texto para isso. Inspirei-o apenas com o nome do blog: Um Patife Adorável.

Explico. Há 30 anos, o português iniciou um projeto de ensino de Inglês que levou o nome de IF – Inglês Funcional. Todos conheciam o projeto como IF. Era um projeto voltado para crianças, e ele teve a ideia de criar um personagem para melhorar a comunicação. Criou um pato: grande, cabelo espetado, desastrado. Faltava o nome. Como era o pato do IF, ficou Patif. Mostrou-se um sucesso. Um grande sucesso. O português pegou amor pelo pato. Amor de pai, como ele mesmo me descreveu.

O problema: o pato ganhou o mundo e surgiu a oportunidade do projeto ser lançado por aqui, no Brasil. Só que os brasileiros envolvidos alertaram o português (que não se chama nem Manoel e nem Joaquim e, sim, Agostinho) que o nome Patif seria impossível de usar por essas bandas, porque de modo algum poderia ser associado ao mundo infantil. Mesmo sem “e” no final? Sim. Disseram que não tinha jeito mesmo e que, no Brasil, patife é patife mesmo. E aconselharam-no a mudar para Patito. Claro que uma ideia assim só poderia partir de professores de Magistério que participam de semanas pedagógicas, com infinitas dinâmicas e poemas de Paulo Freire.

Agostinho ficou desolado. Mais do que o pato, ele adorava o nome. Sem contar na enorme despesa que uma mudança assim acarretaria. Mandou-me um e-mail enorme. Comentou que leu todos os meus textos (achou realmente adorável e elogiou muito), e pedia um conselho: ele deveria insistir em lançar o pato com o nome “Patif” e arriscar que o carisma do personagem ofuscaria o nome ou seria melhor mudar tudo para evitar um fiasco? Não respondo e-mails, mas esse eu fiz uma questão enorme de responder. Peguei amor pelo pato também (não posso publicar, mas ele me mandou um vídeo em que o Patif flerta com uma loira linda e – acreditem! – eu vi algo de Vadinho, do Jorge Amado, nele). Contei para o português a prosa ruim que estava rolando no momento: um deputado que queria proibir o filme TED, porque tinha um urso de pelúcia fumando. Expliquei que é normal os brasileiros criarem certa resistência ao nome, por conta de um terceiromundismo enraizado e cansado. E, claro, defendi para sempre Patif. Patif tem nome de pato inteligente, esperto, de sorriso fácil, divertido, piadista, moleque, inquieto. Patito é a cara do abestalhado, pateta, tabaréu, bocó. Patif é Saramago. Patito é Cora Coralina. Se o Patif tem algo que lembra Vadinho, o Patito teria algo de Marcos Frota vestido de palhaço.

Ontem chegou mais um e-mail do Agostinho, contando sua decisão. Ficou Patif e Patif sempre será, “em Portugal, no Brasil, na África ou no Japão”. Disse que acredita que todo mundo tem um pouco do Patif dentro de si, e quem conseguir admitir essa alma de patife vai adorar o pato. A vitória de Patif em cima de Patito faz a gente acreditar que o mundo ainda tem salvação. Estou realmente comemorando. Sou a nova Lady Gaga. Se eu sou a nova Gaga, o Patif só pode ser o meu Obama. A cantora usou seu twitter para comemorar a vitória do presidente democrata. Eu? Ressuscitei meu blog com a incrível história (e vitória) de um adorável pato chamado Patif.

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