O surto e o papa-léguas

Já deve ter acontecido com você. Em uma noite qualquer, você deita na cama sem sono e, do nada, tem um daqueles surtos “minha vida está parada, estou estagnado, não tenho feito nada de produtivo por mim mesmo, todos estão crescendo e a coisa mais cara que tenho na vida é uma jaqueta que já está desbotando”. Uma sensação igual a de Janaína, do Biquíni Cavadão, que o “tempo não passou” e que “nada aconteceu”. Só que aqui, meu amigo, o tempo está passando. E você ainda não consegue se imaginar dirigindo um carro. Usado, que seja.

Engraçado que você não fica o dia todo jogado no sofá, sujo de salgadinho e rindo ou chorando sem parar na frente da televisão. Rindo, no caso, com o quadro do chapéu do Raul Gil. E chorando com o De Volta Pra Minha Terra, do Gugu. Você trabalha pra burro, poxa! Tenta se virar com dois empregos para pagar todas as contas. E se rolar algum texto para revisão ou uma assessoria dando sopa por aí, você até sacrifica o seu horário de almoço para ganhar mais alguns trocados. Afinal, você também precisa emagrecer e não sobra nem o dinheiro da academia.

Não é que você seja infeliz ou mal-agradecido. Você saiu da faculdade com emprego e isso já é muita coisa nos dias de hoje. Seu pai não é rico para você se dar o luxo de tentar um curso melhor ou pagar uma super especialização na Europa, então sorria e agradeça a todos os deuses possíveis o fato de que o aluguel está garantido – pelo menos este mês. E tem o extra mais do que incrível de você amar o que faz. Isso é importante, sabe? Pensa que você poderia passar anos se matando em uma faculdade para ser caixa do Bom Preço. Ou pior: vestir uma camisa “posso ajudar?” de qualquer comércio xis das esquinas.

Acontece que a vida não é fácil e virar gente grande é complicado. Você tem que se virar nos 30 (outro quadro de grande estímulo intelectual da televisão brasileira, a propósito) para pagar a conta de luz, comprar uma nova jaqueta e, não menos importante, bancar a cervejinha de sexta. E isso só vem com trabalho e dedicação. Hoje em dia nem os seus momentos de diversão e descontração podem ser desperdiçados. O mundo traz tantas possibilidades… Esses dias, eu tive o prazer de conhecer um cara que passou em primeiro lugar para uma seleção de mestrado com um projeto sobre Breaking Bad (o TCC foi sobre Game of Thrones), e já planeja alguma pesquisa envolvendo Criminal Minds. Isso é fantástico e só mostra que você tem que ser proativo e criativo até para ficar sujo de salgadinho, largado no sofá, com o notebook no colo.

O surto é normal. Ele aparece mesmo nos momentos de cansaço, falta de dinheiro ou quando algum plano não funciona. Mas ele não deve durar muito tempo. A recuperação tem que ser rápida. São tantas coisas para ler, escrever, revisar, entregar, postar. Tantos prazos para cumprir e tantas relações para manter e construir. Passado o momento súbito de depressão (com direito a música de Enya e você escorado na parede, descendo lentamente com lágrimas nos olhos), você tem que arredar o pé, abrir a janela e começar a subir os degraus (e já pode trocar a trilha sonora, por favor). O tempo é aquele esperto papa-léguas que você nunca conseguirá pegar com seus explosivos, catapultas e comprimidos de terremoto. Enquanto você tenta enganá-lo, ele passará por você mais rápido do que nunca e, de quebra, soltará um irritante bip-bip no pé da sua orelha. O fim todos nós sabemos: a armadilha, inevitavelmente, volta-se contra você. O jeito é ficar amigo do tempo e fazer dele um aliado nas suas escolhas, planos, projetos e sonhos. Não foi alguém que disse que nunca é tarde para começar? Pois é. Comece antes que você acabe com uma rocha de 60 toneladas na cabeça.

E também é certo que depois da noite fria vem um belo dia iluminado trazendo novos ventos, novas ideias e novas canções. É quando esquecemos toda a tolice de desistir, secamos as lágrimas e, igual a Janaína, a gente pensa que “um dia a gente há de ser feliz”. Claro: se a gente quiser.

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