Uma banana para o José de Alencar

O telefone Nokia N73 tocou. Era um amigo querido da época de colégio que cismava em escrever “corassão”. Queria comprar um apartamento na cidade e estava pedindo opiniões a respeito dos bairros. Marcamos um almoço para matar a saudade e prosar. Além de investir em imóveis, ele acabou de trocar o carro antigo por um Ford Fusion e comprou um iPhone para a namorada. Ele mesmo não gosta de tecnologias e só tem um celular por causa dos trabalhos. A quem perguntar, sua vida está ótima, muito obrigado. Contou com orgulho que acabou de adquirir mais um caminhão e mais um pedaço de terra. Ele planeja, além de café, plantar tomate e feijão. Cresceu sem ao menos saber escrever “crescimento”. Ele mandou uma banana para o José de Alencar e começou a trabalhar na fazenda da família desde muito novo, aprendendo a diferença entre o café arábica e o conilon.

Ele não estava sendo arrogante. Só queria contar que ele conseguiu algo na vida, mesmo sem gostar da Coleção Vagalume (o meu vício da 5ª série). Queria mostrar para o antigo colega de sala, que o repreendia pela falta de estudos e que foi tentar ganhar o mundo na cidade grande, que a falta de interesse em C. S. Lewis era recompensada pela paixão por leilões de gado. Ele nunca sonhou com faculdade, só queria ajudar o pai na roça. Enquanto eu ficava com As Crônicas de Nárnia para cima e para baixo e me enfiava dentro da biblioteca para fazer os trabalhos escolares com a ajuda do Barsa, ele procurava meios de burlar a portaria ou pular os muros e fugir para bem longe de física e português.

Então, depois de me atualizar dos seus projetos, planos e sonhos (e fiquei realmente feliz), chegou o tenso momento em que ele queria saber de mim. O que aconteceu com o menino que só tirava 10 em redação no colégio da cidade pequena e era modelo para todos os professores? Fui vago e só respondi que estava bem, trabalhando duro e investindo em mais estudos. Mas eu deveria gritar o que estava engasgado na garganta. Deveria ter gritado que não tenho apartamento e também não tenho carro. Na verdade, não tenho nem um iPhone e, para ser ainda mais trágico, nem comprar um sorvete depois do almoço eu posso. Moro de aluguel e vivo numa luta diária para pagar as contas. Deveria ter contado a ele que os professores (que repetiam insistentemente que o estudo é a saída para o sucesso) estavam errados. Meus pais também estavam errados. Sempre empolgados e orgulhosos com minha paixão pelos livros da Agatha Christie (e a cada aniversário e Natal me presenteando com várias obras literárias), nunca se importaram em me levar para a roça e ensinar coisas úteis como arar a terra ou saber o momento certo de plantar e colher (verbos que só conheço através de poesias cafonas). Posso até trazer o João Cabral de Melo Neto, o Lima Barreto, o Saramago e o Jorge Luis Borges no coração, mas o que adianta se o bolso anda sempre vazio?

Cheguei ao meu apartamento minúsculo alugado, olhei para a estante de livros e, por um minuto, deu vontade de queimar tudo. Mas não tenho coragem. Não tem saída para mim. Se você ainda não se apaixonou por literatura, leitura, poesia e crônicas, corram para longe. Corram para bem longe. Larguem imediatamente os ensinamentos de Sartre e vão aprender coisas bem mais importantes para a vida: meios eficientes de burlar a portaria ou pular os muros da escola.

O saber na fogueira

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2 pensamentos sobre “Uma banana para o José de Alencar

  1. Hélder Silva disse:

    Igor, você continua escrevendo bem e obcecado por essas questões… Tenho duas indicações de texto pra te fazer:

    http://alexcastro.com.br/o-sonho-dos-meus-12-anos/
    http://www.portalhomem.com.br/artigos/vida-de-artista

    Abraço!

  2. Tallyta Rocha disse:

    “Acho que só a terra me salvará da literatura.” Você é desconcertante, gostei muito!

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