Arquivo mensal: abril 2013

La Crème Brûlée e a camisa surrada do Patolino

44920--637x0-1 O Jack Daniel’s está aqui do lado. Bebo como o Keith Richards, dos Rolling Stones: sem gelo e sem copo. Estou com barba por fazer, uma calça de moletom cinza, uma camisa surrada do Patolino e os pés descalços. Estou patético. Quase não tem luz no quarto. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band toca baixinho na caixa de som. Com os Beatles, e não a versão da Cássia Eller. Já faz um tempo que eu estou longe do cigarro, mas hoje, só hoje, eu fumaria um maço de Marlboro Vermelho. Queria ficar ainda mais depressivo, mais desprezível, mais bukowskiano. Olho para o Word e o Doritos. Ambos abertos, mas apenas o salgadinho está pela metade. Nenhuma letrinha sequer no computador. Estranho: quando não estou muito bem, gosto de rabiscar escritos ruins que ninguém vai ler. Estou com um vazio estranho no peito (falando em vazio, o uísque está acabando e preciso dar um jeito nisso imediatamente). Uma agonia maluca. Estou morrendo de saudades e com uma puta vontade de ligar ou mandar mensagem. Não sei lidar com essa paixão desenfreada que chegou me rasgando e me desestabilizando. É isso: pela primeira vez estou enlouquecidamente apaixonado.

Mais um gole. Vou ter que assumir para vocês. Publicamente. Não estou cabendo dentro de mim. É a mais irônica das verdades. Estou encantado e com todas as borboletinhas do estômago acordadas e assanhadas por uma autêntica patricinha. Sério. Ela é a mais fresca e chata das mulheres. Tentei de todas as maneiras (e vocês sabem o quanto!) achar graça nas moças de blusas que se assemelham às minhas, sem qualquer detalhe que lembra catálogos de moda ou etiqueta conhecida. Tentei – e tentei com garra e afinco – as que amam o Chico Buarque e todas as bandas alternativas. Tive até a oportunidade de me envolver por uma bela moça que sabia tocar gaita. E nada do coração empolgar. Ainda me joguei nas mais maneiras que curtem Simone de Beauvoir, amam documentários que o povão jamais curtiria ou mesmo entenderia e se importam com ecologia e meio ambiente.

Foi uma dessas que sempre quis e sonhei. Não são elas as mulheres legais e interessantes? Uma que possa dividir o vício pelos jogos eletrônicos no domingo e corrigir as crases dos meus textos? Uma que se interessasse pelos conflitos mundiais e as criancinhas do interior da África? Poxa, sempre quis aqui ao meu lado uma menina que debatesse as questões dos índios e pegasse os meus livros do Eric Hobsbawm emprestado.

Quer saber? O que fiz a minha vida toda foi reclamar dessas patricinhas burras e implorei que o destino colocasse em minhas mãos uma mulher que prima mais pelo cérebro do que pela bunda. Todos já ouviram meu discurso. Pois é, paguei a língua, paguei o pato e estou aqui admitindo. Sabe aquela menina que amava guitarra (sabia até fazer solos incríveis) e detestava cabeleireiro e unhas pintadas? Nenhum encanto. E aquela outra que gostava de vodka barata e tinha feito um curso de História da Arte? Nem afeição rolou direito. Todos os amigos falavam que eram meninas perfeitas para mim. E eram, sabe? Mas quem vai entender esse meu coração estúpido fazendo merda?

Estou apaixonado – e só de pensar nela fico suspirando igual a um retardado – pela mais delicada das meninas. Ela não sabe quem é Truffaut, mas chora assistindo Um Amor Pra Recordar. Não se interessa pelas cores do quadro de Rembrandt, mas tem uma paixão imensa por rosa e amarelo. Sabe falar todas as histórias e todo o guarda-roupa da Anna Wintour (que, sim, a essa altura do campeonato eu já sei quem é). Os sorrisos dela me convenceram a ir para um restaurante de gente besta (fiz até a barba no dia). Mas isso não é nada. Se for para assumir tudo, que falemos de uma vez: os seus beijos e os seus dengos me levaram para assistir o último filme da saga Crepúsculo. E lá se foram anos de reputação. Fui ver o filme e ainda fiquei com ciúme do lobisomem babaca que arrancava vários elogios da boca linda da minha menina. Ah, as lingeries caras! Que coisa mais linda, meu Deus! Desculpem aí, mas não rola mais ver calcinha bege Linda Joia depois do que estou vivendo. E eu sei que não posso descer mais na concepção de vocês, mas ainda tem espaço para dizer que, sim, já depilei o peito. Ela prefere assim.

Ela é tão frágil (e tão cheirosa) que quero protegê-la para sempre do mundo. Briguei com todos os amigos que riram quando ela perguntou na voz mais inocente e doce o que era esse tal de Game of Thrones que todos estavam comentando na mesa. Ela só vê Gossip Girl. Mas, olha, ninguém no mundo entende mais de sapato do que ela. E a barriguinha sarada, as pernas grossas e a bunda empinada? Levantar livros, ainda que sejam todas as obras da literatura inglesa, não deixará nenhuma mulher com o corpo que ela tem. Mais um gole. Quer saber a real? Ela é tão incrível que faz com que eu esqueça qualquer filme do Woody Allen e só pense em pegá-la de jeito. Desculpa aí, Flaubert, mas essa mulher deixou minha vida mais feliz. Eu sei que ela tem suas futilidades (enquanto eu sempre mantive minha arrogância intelectual), mas quando estou com ela me sinto um vagabundo ao lado de uma dama. Ou um plebeu com a mais bela princesa.

As ativistas que amam assuntos pouco digeríveis pela manhã podem até chamar minha atenção, mas nada causam quando o negócio é mais embaixo. Chega dessa prosa ruim de ficar resolvendo os problemas do mundo entre um boteco, um sexo, um passeio. O negócio, camaradas, é que essa mulher mexe com instintos que eu nem sabia que existiam por aqui. Depois que eu conheci o Crème Brûlée, não quero mais saber de gelatina. E essa é a verdade.

Fiquem aí com a Miriam Leitão de vocês que vou atrás da minha Paris Hilton. Tivemos uma primeira grande briga e eu nem quero saber se estou certo ou errado. Estou aqui arrasado, com uma saudade que dói a alma e só a quero de volta para colorir meus dias. Do meu lado e do Jack só ela: fresca, mimada, desinformada, reclamando do moletom e da barba e – todos os santos sejam louvados – gata demais. Acho que vou convidá-la para ver um filme (dublado, claro, para deixá-la mais feliz). Antes de ir vou tirar todos esses livros da estante (e o box de The Sopranos). O que quero é só liberar espaço para uma foto que tiramos no dia em que nos conhecemos – um dos melhores da minha vida.

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Sobre gaiolas e asas

O Rubem Alves é um escritor bonito que escreve histórias para crianças que gente grande deveria ler. Os adultos são tolos e não sabem ser felizes. As crianças são mais espertas. Adultos sempre lembrarão as responsabilidades, as agendas, os compromissos, a conta de telefone, os extratos bancários. Crianças não lidam com essas obrigações e por isso não devem ser levadas a sério. Bobagem. Elas são tão mais inteligentes quando o assunto é emoção e felicidade. Os pequenos sabem lidar como ninguém com as coisas do coração.

Um amigo, muito triste, veio conversar comigo sobre coisas que o atormentavam. Sua alma chorava. O coração sangrava. Ele havia começado a cortar as suas asas e a entrar em uma gaiola. Estava confuso. Não sabia mais como poderia voar, mas também não queria ver o mundo através das grades. Ele pedia socorro, mesmo sabendo que não poderia ajudá-lo. Nessas horas – e o mundo me ensinou isso com ferro e fogo – não adianta falar e fazer nada. Só podia tentar arrancar alguns sorrisos. E fiquei triste. Foi então que comecei a vasculhar velhas caixas de livros atrás de um conto do Rubem.

PassarinhoGaiola2 Bonito é recordar coisas que a gente sabe de cor. De coração. As palavras do livro já estavam dentro de mim antes mesmo de eu encontrá-lo. E me entreguei ao prazer delicioso de revisitar cenas lindas que ficaram na memória. Lembrava até do título: A Menina e O Pássaro Encantado. O Rubem conta de uma menina que se apaixonou por um pássaro. Era uma ave linda, alegre, livre. Voava e sempre voltava para a menina com histórias, sorrisos e canções. Em suas viagens, conhecia línguas, costumes e mundos. E trazia um pouco de tudo isso para a menina. Livre voava e livre voltava. E a menina adormecia e sonhava com todas as belezas que as novas canções traziam… Foi então que ela começou a sentir muitas saudades e começou a chorar quando o pássaro ganhava o céu. Ele confidenciou que também sentia tantas saudades e que também chorava… É a saudade bonita (e necessária) que não vê a hora do reencontro. Mas a menina não estava satisfeita: ficava com medo de o pássaro não voltar mais. E então, numa noite de regresso e amor, ela trancafiou-o numa gaiola. Claro: uma linda gaiola de prata, digna de uma grande ave. Ela pensava que, sem saudade da ausência, não haveria tristeza e só felicidade. Pena. Sem os altos voos, as penas do pássaro ficaram feias. Sem as viagens, suas histórias ficaram cansadas. Não havia sorrisos e ele deixou de cantar. Ela também ficou triste. Afinal, aquele não era o pássaro que ela amava…

Gaiolas – mesmo as de prata, belas e reluzentes – sempre serão gaiolas. E em nada combinam com amor. As coisas do coração têm que ser um simples transbordar de querer, de alegria, de desejo, de vontade… Lembrei da história da viúva que, antes da morte do marido, vivia de cara amarrada, de coque, de preto. Depois que o esposo se foi e passado o tempo respeitoso em que as pessoas falam do morto, ela floresceu: tirou do baú os vestidos alegres, começou a cantar velhas cantigas e certo dia arriscou até um batonzinho… Quantas algemas ela quebrou? Quanta infelicidade vivia? Quanta tristeza sentia?

A menina, do livro do Rubem, acabou libertando o pássaro… E ele foi buscar de volta o seu encanto, matando a saudade do céu. Ela, toda noite penteava os cabelos e colocava uma flor na janela, à espera do reencontro. E voltou a sorrir. Mas é uma história para crianças. E os adultos nunca conseguirão compreender.

“… que é livre, e que livre voa…”

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