Arquivo mensal: maio 2013

Bukowski, Rubem e a faxineira

A velha senhora resmungava impaciente enquanto limpava o escritório do Sr. Bukowski. Estava cansada de recolher garrafas vazias e papéis jogados por todo o canto. E os livros do Dostoiévski? Quanto mais ela limpava, mais eles pareciam empoeirados. O escritor e a faxineira nunca tinham trocado grandes palavras. Eram de mundos completamente opostos. Ele, sempre sozinho nos seus livros, nas suas doses e na sua fumaça. Ela, sempre com o espanador. Mas hoje, milagre dos deuses, o velho estava acompanhado. Pelo que ela pôde entender, era outro escritor que veio dos confins para bater um papo. Outro velho. Sem a cara safada e cínica do Bukowski, mas daqueles senhores com uma alma azul que a gente simplesmente quer abraçar. Era o Rubem Alves, poeta com jeito de menino que consegue ver o mundo em um grão de areia. A mulher nunca ligava para as coisas do patrão, mas ficou curiosa com aquela visita e demorou-se um pouco mais no escritório para ouvir o papo.

“Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse?”, perguntou Bukowski.

“Nós amamos a pessoa não pela beleza que existe nela, mas pela beleza nossa que nela aparece refletida”, argumentou o Rubem, visivelmente incomodado com a fumaça do charuto do contista alemão.

“É isso! A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. O amor é uma espécie de preconceito”, retornou Bukowski, dizendo a mesma coisa do poeta brasileiro, mas sem abusar do lirismo poético do colega.

“Será possível, então, um triunfo no amor?”, indagou o Rubem, um pouco preocupado por perceber que ele falava a mesma língua do farrista à sua frente e tudo era questão de semântica.

“Sim, é possível amar o ser humano”, disse o alemão com uma atípica seriedade. “Caso você não o conheça tão bem”, divertiu-se, mostrando que o tom inicial era balela.

“Mas Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende ter uma pessoa: ‘continuarei a ter prazer em conversar com ela daqui a 30 anos?’”, Rubem pareceu não notar o jeito fanfarrão do seu interlocutor e tentou mostrar que o conhecimento do outro é a base do amor.

A faxineira ficou intrigada. Há 30 anos era casada com o velho jardineiro. Amava-o, claro. O amor cansado e fiel, sem surpresas, sem paixões avassaladoras, sem ciúme. Por um instante, imaginou-se jovem, percorrendo o mundo conhecendo as outras dez mil pessoas que o Sr. Bukowski disse que a gente amaria mais. Tomou coragem e, decidida a afastar os seus novos pensamentos, interrompeu um papo sobre Jack London (que ela não fazia ideia de quem se tratava) e perguntou: “É mesmo verdade esta história dos milhares de andantes neste mundo de meu Deus que eu amaria mais do que o meu marido?”

Os dois escritores olharam para a velha mulher, como se a notassem pela primeira vez. Ela ficou ruborizada e arrependida de ter falado qualquer coisa.

O Rubem sorriu gentilmente e, pelo visto, entendia todos os pensamentos da senhora. Afinal, ele escreveu tudo sobre o casamento e suas analogias com gaiolas, asas, tênis e frescobol. 

Bukowski olhou para ela, avaliou sua feliz ignorância, decidiu-se por não prolongar aquele papo, e respondeu com o seu melhor tom de blague: “Mas a gente nunca conhece essas pessoas”. E virou o último gole de uísque.

Dizem que as frases desse diálogo ganharam o mundo através dos tempos.

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