Arquivo mensal: junho 2013

Coração bobo

Parecia impossível o Instagram ficar mais insuportável. Ficou. Hoje, entre um No Pain No Gain embaixo de uma foto de espelho de academia, as pessoas estão cuspindo toda a sua constrangedora cafonice em nossa cara. E não são apenas as adolescentes que nunca leram uma linha da Clarice e, mesmo assim, citam seus versos sem parar. Não. O Dia dos Namorados potencializa o deslumbramento boboca em pessoas sensatas. São milhares de recadinhos carinhosos e fotos de casais espalhadas pelas internets.

Todo mundo acha bonito estar apaixonado. Você volta a ser aquele jovem sonhador e boca aberta, mesmo que já esteja beirando os 40. Manda flores, escreve versos bregas e tenta um dedilhado das músicas do Flávio Venturini que será inevitavelmente tosco. O apaixonado recupera a vaidade perdida e pede socorro às irmãs ou amigas para renovar o guarda-roupa e o penteado. Tudo para tentar ficar mais atrativo para ela. A paixão traz momentos mágicos. É um novo mundo repleto de suspiros, apelidinhos, chocolates. O “bom dia” vem acompanhado de um “eu te amo” e a trilha sonora da vida é uma eterna melodia melosa de Ghost.

A paixão pode levar aos céus, mas também ao inferno.

A paixão pode levar aos céus, mas também ao inferno.

Quem não quer viver neste lindo universo de amor, quando todos os apaixonados não conseguem esconder o contentamento, a satisfação e as declarações diárias? Todos não dizem que a paixão é linda? Sim, é. Mas é também a pior coisa que pode acontecer. Sério. É hora de ser realista. A paixão pode levar aos céus, mas também ao inferno. Sem avisar. De uma hora para outra. Ela humilha. A paixão nos faz ridículos, estúpidos, sem nenhuma noção de responsabilidade e realidade. O apaixonado fica completamente patético, e o pior de tudo é que ele acha que está irresistível.

Existe alguém que sofre mais do que o apaixonado? Ele não faz nada direito: não come, não dorme, não trabalha. A felicidade dele depende exclusivamente das reações da pessoa amada. Se ela corresponde, ele se sente o próprio Deus. Se não, cai em cima de uma cama, fecha as cortinas e se entrega à tristeza. Ele tem que se segurar para não ligar todo momento. E se um desconhecido deixa um recado para ela, a tranquilidade vai embora e nada é mais importante no mundo do que saber o histórico do cara.

Eu conheço várias pessoas que conseguiram ser fortes e se livraram de uma paixão. Parece um renascimento. O apaixonado é um escravo e só conseguirá se libertar com perseverança e força de vontade. Ele só conseguirá abrir as cortinas, quebrar as algemas e ser feliz, se dominar a paixão. Chega de desabafos intermináveis. Os amigos não aguentam mais tanto drama e tanta história chata. O fato é que o apaixonado não vai perguntar como está o pai da amiga que foi para UTI esta semana. Não. Ele é um egoísta, e o seu mundo só se resume a ela, as histórias dela, os telefonemas dela. A paixão não é apenas cega, ela é surda. Os problemas dos outros que se explodam para lá.

É preciso pensar no quanto é ridículo e retardado este deslumbramento basbaque. É preciso ser esperto e não deixar a paixão vencer. É preciso ser forte. Lembre-se: No Pain No Gain.