Arquivo mensal: setembro 2014

Sobre os jogos de sedução

Nossos olhos se cruzaram no primeiro dia do outono. Você exibia as suas covinhas, com um sorriso meio de lado. Bebia algo com morangos. Estava graciosa com um vestido floral, de uma simplicidade tão bela que me encantou. Eu, de moletom e barba por fazer, sorri desajeitado. Como não sei dançar, escolhi mandar um bilhetinho. Posso não entender nada de passos e compassos, mas as palavras sempre foram minhas amigas. Funcionou. Não ganhei um beijo, mas você foi embora com o meu moletom. Não saí com promessa de encontro, mas havia um novo contato na agenda do celular. Era o suficiente. Naquela madrugada de pouco sono e música invadindo a janela, trocamos as primeiras mensagens.

Lembra-se daquele flerte adorável em que as coisas ficavam nas entrelinhas? É isso que eu amo.

Ao longo dos dias, era difícil ficar longe de você. Os olhares, as piadinhas, as canções… A gente estava construindo nossa historinha. É o delicioso momento em que o não dito revela muito, as provocações são deliciosas, e o encontro é uma mistura de expectativa e prazer. É o encanto dos abraços demorados que dispensam palavras, dos beijos no canto da boca na hora da despedida, dos recados com apenas uma carinha feliz. Eu elogiava suas covinhas, você elogiava a minha barba. Eu implicava com o seu pé grande, você implicava com meu brinco de argola. E, naquele dia em que cheguei sorrateiro e fechei os seus olhos, veio o primeiro beijo. Foi incrível.

Lembra-se de todo aquele nosso joguinho de sedução? É isso que eu amo.

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Mas o seu braço não era dado a torcer. E eu comecei a me envolver. Você se esquivava das minhas conquistas diárias. Os chocolates, os bilhetinhos na caixa do correio, as flores… Nada parecia te ganhar completamente. E eu, cada vez mais sedento, queria que você fosse minha, absolutamente minha. Aquele seu jeito espontâneo me ganhou no primeiro instante. Mas depois eu comecei a me sentir meio enciumado de toda a sua liberdade e libertinagem. A dança com os amigos, a falta de notícias, a demora para responder ao meu chamado… Tudo me deixava querendo mais e mais. Você não se importava com os meus gritos e minhas batidas de porta. Quando eu saía, sempre esperava que você corresse atrás de mim. Não acontecia. E eu, sempre desolado, voltava para o seu sorriso e aconchego. Foi em uma noite assim que fizemos amor pela primeira vez.

Lembra quando você não dava a mínima importância para os meus caprichos? É isso que eu amo.

E aí veio o desastre. Você se encantou totalmente. De alguma forma, quebrei o gelo. Você virou minha. Cada pedaço. O seu amor chegou arrombando as portas, gritando pelos corredores, invadindo todos os espaços. Você não mais se importava com suas danças, seu orgulho, suas convicções. Tudo era pelo meu amor. E eu, que sempre achei que sonhava em ver esse brilho nos seus olhos que faria inveja ao próprio sol, comecei a me afastar. A cada mensagem de “bom dia, amor”, “te amo” e “já estou com saudade”, eu colocava mais um tijolo na parede que eu começava a construir entre nós. A cada adulação e presentes, eu sentia menos vontade de mimos e carinhos. A cada vez que você abdicava da sua liberdade, eu aproveitava para usufruir a minha.

Lembra quando eu te disse que eu amo a arte da conquista? É só isso que eu amo.

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