Arquivo mensal: outubro 2014

Carta para ti

Só escrevi pra te agradecer.

Ao teu lado, sempre me sentia estúpida e desajeitada. Eu costumava policiar meu jeito de comer e de sentar porque, para ti, eu era relaxada demais. Antes da tua chegada, eu corria pela casa arrumando as pequenas bagunças que te irritavam, para que teus olhos percorressem o meu corpo ao invés de reparar no casaco largado pela cadeira e nos talheres ainda sujos do almoço. Nunca gostei dessas bandas internacionais que tu colocaste em meu celular. Eu gosto mesmo é de sertanejo, mas tu fizeste eu me sentir uma burra quando eu te contei.

Ao lado dele, eu posso gargalhar alto e andar de pés descalços. A gente até costuma pirraçar um ao outro falando com a boca cheia de Doritos. A última vez que isso aconteceu, eu quase engasguei, pensando no que tu dirias se me visse daquele jeito. Com ele, entrego-me ao prazer de ser um pouquinho preguiçosa e deixar para amanhã os pratos que sujei hoje. Quando giro a maçaneta, ele está se lixando se o meu sapato está largado pela sala. Ele só quer mesmo me amar depois de um dia cheio e cansado. E só surge uma pequena impaciência nos olhos dele na hora de abrir o fecho do sutiã.

Ao teu lado, eu não era eu. Era a pessoa que tu querias que eu fosse. Nada em mim respira aquela menina bem comportada, de fala delicada e que faz um sexo sem graça uma vez por semana. Eu respiro vida, alegria, desejo e diversão – pena que tu nunca quiseste conhecer o meu mundo. Preso na tua bolha de arrogância e mente limitada, nem notou que a cada estupidez gratuita eu me afastava um pouco mais. E mais. E mais. Sabe aqueles dias em que eu te falei que precisava trabalhar até mais tarde? Era só para adiar o momento em que eu teria que encontrar com o teu mau humor.

Ao lado dele, tudo termina em sorvete, piquenique, chocolate e cores. Confesso até uma leve irresponsabilidade: quando estou deitada no peito dele, esqueço o mundo, esqueço tudo, esqueço a hora do trabalho. Para ele, se eu quebro um copo, está tudo bem, porque é só um copo. Ele só corre mesmo para saber se eu não me machuquei. Depois, abre aquele sorrisão gostoso e brinca com meu desastre chamando-me de Felícia, arrancando xingos e risos. E então a única confusão que ele cria é a de misturar pele, suor e pelos.

Foi fácil ficar seduzida com toda gentileza e graça dele, quando o contraste com teus insultos era tão visível. É por isso que eu te agradeço. Talvez, se tu tivesses sido um pouco mais paciente, um pouco mais amoroso, um pouco mais humano, eu não notaria os pequenos elogios que ele jogava toda manhã. Se tu fosses um tanto menos orgulhoso, um tanto menos insensível, um tanto menos ignorante, eu talvez não tivesse me encantado pelo olhar de paixão e desejo que ele soltava a cada momento que a gente se cruzava.

Mas, aconteceu. Sem saber, tu me jogaste para o colo dele. Tu foste o meu cupido. Tu me fizeste ver as qualidades tão lindas que eu espero de uma pessoa. Tu me ensinaste tudo o que não esperar de alguém para passar o resto da minha vida.

Só escrevi pra te dizer que estou feliz.

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