Arquivo da categoria: Caixa de Sapato

Carta para ti

Só escrevi pra te agradecer.

Ao teu lado, sempre me sentia estúpida e desajeitada. Eu costumava policiar meu jeito de comer e de sentar porque, para ti, eu era relaxada demais. Antes da tua chegada, eu corria pela casa arrumando as pequenas bagunças que te irritavam, para que teus olhos percorressem o meu corpo ao invés de reparar no casaco largado pela cadeira e nos talheres ainda sujos do almoço. Nunca gostei dessas bandas internacionais que tu colocaste em meu celular. Eu gosto mesmo é de sertanejo, mas tu fizeste eu me sentir uma burra quando eu te contei.

Ao lado dele, eu posso gargalhar alto e andar de pés descalços. A gente até costuma pirraçar um ao outro falando com a boca cheia de Doritos. A última vez que isso aconteceu, eu quase engasguei, pensando no que tu dirias se me visse daquele jeito. Com ele, entrego-me ao prazer de ser um pouquinho preguiçosa e deixar para amanhã os pratos que sujei hoje. Quando giro a maçaneta, ele está se lixando se o meu sapato está largado pela sala. Ele só quer mesmo me amar depois de um dia cheio e cansado. E só surge uma pequena impaciência nos olhos dele na hora de abrir o fecho do sutiã.

Ao teu lado, eu não era eu. Era a pessoa que tu querias que eu fosse. Nada em mim respira aquela menina bem comportada, de fala delicada e que faz um sexo sem graça uma vez por semana. Eu respiro vida, alegria, desejo e diversão – pena que tu nunca quiseste conhecer o meu mundo. Preso na tua bolha de arrogância e mente limitada, nem notou que a cada estupidez gratuita eu me afastava um pouco mais. E mais. E mais. Sabe aqueles dias em que eu te falei que precisava trabalhar até mais tarde? Era só para adiar o momento em que eu teria que encontrar com o teu mau humor.

Ao lado dele, tudo termina em sorvete, piquenique, chocolate e cores. Confesso até uma leve irresponsabilidade: quando estou deitada no peito dele, esqueço o mundo, esqueço tudo, esqueço a hora do trabalho. Para ele, se eu quebro um copo, está tudo bem, porque é só um copo. Ele só corre mesmo para saber se eu não me machuquei. Depois, abre aquele sorrisão gostoso e brinca com meu desastre chamando-me de Felícia, arrancando xingos e risos. E então a única confusão que ele cria é a de misturar pele, suor e pelos.

Foi fácil ficar seduzida com toda gentileza e graça dele, quando o contraste com teus insultos era tão visível. É por isso que eu te agradeço. Talvez, se tu tivesses sido um pouco mais paciente, um pouco mais amoroso, um pouco mais humano, eu não notaria os pequenos elogios que ele jogava toda manhã. Se tu fosses um tanto menos orgulhoso, um tanto menos insensível, um tanto menos ignorante, eu talvez não tivesse me encantado pelo olhar de paixão e desejo que ele soltava a cada momento que a gente se cruzava.

Mas, aconteceu. Sem saber, tu me jogaste para o colo dele. Tu foste o meu cupido. Tu me fizeste ver as qualidades tão lindas que eu espero de uma pessoa. Tu me ensinaste tudo o que não esperar de alguém para passar o resto da minha vida.

Só escrevi pra te dizer que estou feliz.

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O bilhete, o armário e a balança

Estou de mudança. Além da arrumação de caixas, chega o inevitável momento de decidir que papéis seguem comigo e quais levarão o destino de lixo. Encontrei, embaixo de uma conta de telefone, um bilhetinho que ganhei de um grande amigo há muitos anos atrás. Se existe algo de bom em preparar mudanças é isso: achar tesouros perdidos que carregam histórias e lembranças. O bilhete trouxe tudo isso e ainda veio carregado de uma saudade imensurável. Larguei as caixas no chão e corri para contar a vocês a história de Bipe, um amigo do Ensino Fundamental. A arrumação das coisas podia esperar. A vontade de partilhar uma linda história, não.

Seu nome era Péricles, mas todos o chamavam de Bipe. O apelido veio em forma de resenha nos primeiros dias de colegial: uma referência ao remédio Biperideno, usado no tratamento de Parkinson. Bipe não tinha a doença, mas era dono de um peculiar tique nervoso na perna. Sempre tão piadista, ele adorou (e adotou) o apelido. Excetuando a família (que sempre o chamou de “Peu”), ele era Bipe para todos.

O que mais posso falar sobre ele? Era um querido. Até hoje consigo me lembrar do seu jeito falastrão e engraçado. Bonito e inteligente. Brincalhão e ousado. E então, sem avisos prévios, ele mudou completamente. Drasticamente. Ficou calado e cabisbaixo. Introspectivo e pensativo. Por mais que perguntássemos, ele nunca falava. Nada contava. Até um dia… sentei ao seu lado, estávamos sós, eu insisti, pedi confiança, ofereci ajuda e abracei-o. Era o que faltava. Ele explodiu. Começou a chorar e contou o que tanto o atormentava: era heterossexual e estava apaixonado loucamente por uma menina.

Juro para vocês que eu nunca havia desconfiado. Olhei-o chocado, mas não era hora para julgamentos. Falou da dúvida cruel que estava em seu coração: assumia sua condição sexual para a família e amigos ou continuava a fingir que era homossexual? Antes de o coração ser invadido por um sentimento completamente novo, nunca tinha passado pela sua cabeça sair do armário. O medo sempre foi maior, só que agora uma paixão dominava tudo. O que os amigos iriam dizer? E os pais? E se todos o abandonassem, envergonhados? Como contar que era heterossexual numa sociedade completamente heterofóbica? Lembro como hoje dos seus medos, lágrimas e confusões.

Escondi o meu choque (e uma leve decepção) e comecei ajudar a colocar tudo na balança e ver o peso das coisas. Gabriel – e eu tinha quase certeza – não iria aceitar as verdades que Bipe estava quase gritando, como se há muito estivesse entaladas na garganta. Bipe nunca suportou seriados musicais e mentia descaradamente sobre os jantares na casa da avó para ver futebol. Se aquilo me deixava boquiaberto, imagina o que faria com o Gabriel? Não, ele não seria tão complacente. Mas, como eu estava disposto a pesar tudo com ele, tratei de mostrar o lado positivo: se ele fosse logo sincero não seria mais necessário fingir que sabia de cor as músicas das divas americanas e o que ele realmente conhecia de trás para frente eram as últimas contratações dos times cariocas. Mas, porra, como ele ainda assistia a esse esporte falido sem nenhum glamour e – pausa para recuperar do choque – dizia sem errar como e quando ocorria um impedimento?

Com a família era ainda pior. Como contaria para o pai Cassiano – até hoje meu dentista, por sinal – que ele achava um suplício ir ao shopping comprar roupas com ele? E como – como, meu Deus do céu – falaria para o pai Breno que ele sabia trocar a resistência do chuveiro? Tão acostumados com ele dando uma de frágil amante de moda, como agiriam se soubessem que Bipe amava engenharia, jeans e camiseta branca? Mas, voltando à balança, se contasse logo a verdade não precisaria mais entrar em blogs de moda e muito menos apagar as consultas aos sites de elétrica no histórico de navegação do computador que ficava na sala. Seria libertador.

Mas o pior – e até hoje eu vejo claramente a amargura que havia em seus olhos e sua voz – era mentir sobre a sexualidade, de fato. Bipe fingia – e fingia muito bem – que gostava de homem e, na realidade, seu objeto de desejo mesmo eram as mulheres. Assumir isso nos dias de hoje é coisa complicada. Eu mesmo não conseguia imaginar sua dor. E então eu descobri que ele costumava mentir nas rodinhas do colégio de um ou outro cara que tinha ficado. E que o tal namorado de Porto Alegre (“loiro, lindo e super fofo”) era falso, fruto da sua imaginação para fugir de possíveis pretendentes. Foi então que me lembrei do cara lindo que ele tinha ficado no aniversário de Hugo. Bipe falou que durante o beijo pensava nas mulheres que achava sedutoras para tentar se excitar. Sem sucesso e sem ereção. Recorreu a uma mentira suprema: fingiu atender a uma ligação e falou a todos que seu primo não estava passando bem. Funcionou tanto que eu mandei uma mensagem no outro dia perguntando sobre a saúde de Paulinho.

Como quem pede desculpas, ele falou que tentou se encaixar. E, sejamos sinceros, tentou mesmo e isso ninguém pode negar. Ficou com meninos, foi para várias festas GLS, baixou músicas de divas que gritam sem parar, visitou blogs de moda e, certo dia, comprou até uma revista gay na companhia de todos os amigos. Tentou, tentou e tentou. Não conseguiu. E o coração estava pedindo verdade. Seus olhos e vozes mudaram de tristeza para emoção quando foi falar da sua menina. E percebi o quanto Bipe estava apaixonado. Seria injusto com sua própria vida que ele continuasse a mentir pelos amigos e pela família. O sentimento era bonito. Contou que ela estava completamente apaixonada por ele também. Eu conhecia a menina – ele tinha me apresentado certa vez na sorveteria como sua “amiga lésbica”. Passou na minha cabeça que eles realmente estavam muito próximos. Ela também sofria com as mesmas coisas. Nessa sociedade tão preconceituosa, também ela ainda não tinha se assumido heterossexual. Fiquei do seu lado e opinei que o ingrediente do amor pesava muito. Era impossível ir contra um romance tão verdadeiro e tão bonito. Era impossível não abraçar o amigo sabendo que ele ia passar muito sufoco e enfrentar tantos olhares julgadores.

Não demorou muito e eles se assumiram. A vida fora do armário não era fácil. Mas lá fora, podiam ficar juntos. E felizes. Hoje, Bipe é um heterossexual com orgulho. E tenho certeza que ele ficará contente com esse texto.

2013-02-28 14.42.29

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Doce e dente de leite

Lembro de um cheiro gostoso de doce de leite, de uma porta com ferrolho e cordinha, de uma janela que era o portal da casa para a rua. Lembro de uma imagem gigante de Nossa Senhora Aparecida com as unhas pintadas de vermelho, da farofa de andu, do pé de goiaba. Lembro do medo de ir sozinho ao quintal no escuro, dos antigos ditados e crenças, de uma canção do Toquinho.

Lembranças de uma época de retratos e fotografia em caixas de sapato, de um tempo em que as maiores obrigações eram comprar o pão e jogar o lixo para fora, de quando não havia dúvidas de que os sonhos de menino seriam realizados.

Lembro daquele acidente de bicicleta, da perna engessada com vários recadinhos, de um banho de chuva e lama. Lembro dos puxões de orelha, dos assaltos de doces na geladeira pela madrugada, dos aniversários com chapeuzinho e língua de sogra. Lembro do choro para viajar na caçamba do caminhão, dos dentes de leite que iam embora com a ajuda de linha e maçaneta, dos ensaios de quadrilha.

Lembranças de uma época em que as nuvens contavam histórias fabulosas e desenhavam coisas do futuro, de um tempo em que os trabalhos de escola eram feitos com ajuda de livros antigos e escritos à mão, de quando os joelhos sempre estavam cheios de arranhões.

Lembro que a pequena mesada ia todo para a menina que vendia balas, do jornalzinho, das brincadeiras inventadas. Lembro do dia em que as boias de braços foram para o lixo, das danças nas gincanas, do primeiro beijo. Lembro das peças e do coral na igreja, das aulas de datilografia, do aniversário da cachorra.

Lembranças de uma época de mesa lotada de comida e gente, de um tempo em que a maior preocupação era conseguir fazer curva com os patins deslizando, de quando não sabia se era dia de lavar o cabelo na hora do banho.

E aí veio o tempo, com sua velocidade desmedida, atropelando tudo. E hoje sou gente grande – com grandes obrigações e preocupações. O doce de leite ficou enjoativo, as unhas da Nossa Senhora estão mais desbotadas do que a minha fé e uma das certezas da vida é que quero distância das caçambas de caminhão. Não lembro mais dos passos de quadrilha, o Google substituiu a coleção Barsa e os almoços perderam a fartura – de comida e de gente. As nuvens são apenas sinais de alerta para recolher as roupas do varal, os ditados ficaram esquecidos e os arranhões nos joelhos foram embora com os dentes de leite.

Dizem que ainda sobraram resquícios do sorriso infantil e que ainda tenho a alegria boba de criança quando ganho um presente. Acho que ainda tem duas ou três caixas de sapato com alguns retratos no velho armário do quarto de bagunça que já foi um fantástico quarto de brinquedos. Mas que sei lá eu. A única coisa que eu realmente sei que nunca foi embora e continua aceso aqui, dentro de mim, são os sonhos de menino. E é nesses momentos – apenas quando me lembro deles – que deve surgir o mais agradável e infantil dos sorrisos.

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Histórias de pescador

O turista chegou, sentou na roda de pescadores, pegou uma água e ouviu histórias de rostos e nomes desconhecidos da pequena aldeia. Estava um pouco cansado e parecia agradável saber de uma vida da qual não pertencia.

De Catarina diziam ser uma apaixonada por navios. Uma faceira, sorridente e impaciente, que odiava ficar esperando no porto. Desde menina achava-se muito esperta e dizia saber tudo sobre o mar. Não havia sossego, havia espera e agonia. Olhar para o horizonte era mais do que um desejo, era uma sina. Sua sede de velejar era tão grande, que nunca conseguiu se apaixonar perdidamente por apenas um barco. Nunca, de fato, soube ser tripulante fiel. Abandonava o navio e chegava com histórias de grandes tempestades e rachaduras violentas. Mas o boato que corria de Catarina era que ela sempre fora a responsável pelos desastres – costumava boicotar sua própria tripulação assim que avistava outra âncora. Estava sempre disposta a pegar o bote. Sempre disposta a pular fora. Sem nenhum respeito. Não era sossegada na terra, mas também não se aquietava no mar. Às vezes, depois de rodar por outros navios, pedia abrigo nos velhos barcos que nunca a abandonaram – mesmo com todas as trapaças. Típico dela – dizia o velho pescador – enganar boas pessoas e digníssimos navios com o seu sorriso falso e encantador. Os mais justos acreditavam (e torciam) que um dia – quem sabe um dia – ela seria punida por tanta falta de cumplicidade. E ficaria no porto, sozinha, implorando uma vaga para os conhecidos capitães que um dia humilhou.

Como Julião era diferente, costumava dizer o mais robusto dos pescadores. Ele tinha tanto medo do mar. Gostava de sonhar com o dia em que velejaria por águas calmas, é bem verdade. Mas era metódico demais, pensativo demais, receoso demais. Quantos barcos legais foram embora e ele não se jogou sem pensar? Vezes demais. Todos gostavam da simpatia de Julião, mas temiam pelo seu futuro. Era um moço tão agradável, mas temia a tudo e a todos. Desconfiava da procedência dos barcos e tinha mania de análises detalhadas. O que ele desconhecia, todos comentavam, é que o navio perfeito nunca iria chegar. Por mais que esperasse, nunca iria aparecer. E ele – que tolo! – já chegava procurando os defeitos, ao invés de se focar nas qualidades. Não entendia que, talvez, tudo que as falhas precisavam era do seu afago… Coitado do Julião – tão bonito e tão sozinho. Os barcos já estavam cansados de procurá-lo. E o medo de sua família conservadora era apenas um: que ele ficasse para a sempre a ver navios…

Mas todas as fofocas da vez eram sobre Rosali. Há algum tempo aventurou-se dentro de uma canoa furada e nada que fizesse dava conserto. Não era por falta de tentativa. A moça sempre foi esforçada e dedicada. Insistia em uma canoa que, todos notavam, não tinha jeito (no fundo, ela própria sabia). Quantas moças já tinham desistido de velejar naquele traste? Quantas tentaram sem sucesso algum? Talvez por apego, quiçá pelo tempo, Rosali persistia. Inutilmente. Não era por falta de aviso. Todos queriam o melhor para ela e a alertavam sobre o barco furado e inútil – que, aparentemente, só queria afundar pessoas junto com ele. Alguns tentaram tirar a moça à força, mas nada adiantava. Ela acreditava piamente – e inocentemente – que todo seu esforço seria recompensado. O movimento era único, repetitivo e cansativo: com o balde na mão, ficava retirando toda a água que entrava. Um dia ela iria cansar, claro. Mas o que seria de Rosali? Ela conseguiria abandonar o barco errado ou seu destino seria morrer afogada?

Depois de comentarem a vida dos jovens da aldeia, cada pescador suspirava e lembrava, com um arrombo de saudade, do mar daqueles tempos – um mar que era cheio de respeito, de amor e que o ato de jogar a rede era coisa séria. Naqueles tempos, diziam, era difícil abandonar um barco. Subir a bordo para enfrentar esse grande mar da vida, significava virar um fiel tripulante pronto para enfrentar os dias de chuva grossa – juntos – e não só colher os belos dias de sol – juntos.

O relógio chamou o turista. Ele se despediu. Os rostos de Catarina, de Julião e de Rosali tinham ganhado formas, cores e expressões. Antes de entrar no carro, olhou para o mar e lembrou-se de algumas viagens inesquecíveis: um passeio rápido em uma linda canoa, uma viagem em um grande navio, um dia de sufoco em um barco perdido. Percebeu que não havia uma fórmula para navegar. Mas que era importante levar o respeito, a diversão e a dignidade. Uma bússola também não faria mal, para voltar quando tudo começasse a desandar. Entrou no carro e partiu. Sem antes, claro, corrigir o poeta: navegar é realmente preciso. Mas é preciso fazer viagens alegres. É imprescindível carregar na mala um bocado de amor próprio, a segurança de que não se deixará cair no fundo do poço e um monte de um tanto de sorrisos.

Já em casa, o turista pensou na vida dos três jovens e na saudade dos pescadores. Não entendeu. Para ele, afinal, não importa muito se vai pegar o barco ou ficar no porto, se vai fazer uma aventura em um domingo chato ou velejar pela eternidade e um dia a mais. O que importa é se divertir. E trazer das viagens sorrisos, lembranças e sabedorias para os próximos passeios. E aí quem sabe – um dia, nesse marzão imenso – não aparece vontade de ficar ali para sempre.

O resto, meu caros, é história de pescador.

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Construindo preciosidades

Durante o percurso do ônibus, escorava a cabeça na janela, pouco se importando com a sujeira acumulada, e imaginava o seu mundo perfeito. Desenhava cenários, escrevia os diálogos e escolhia a trilha sonora. Nas madrugadas de pouco sono, encolhia-se no escuro, pouco se importando com o fato de que trabalharia cedo no dia seguinte, e criava realidades paralelas. O que teria acontecido se a escolha fosse outra? Como estaria? O que tinha atrás das outras portas? Quando entrava no chuveiro, saboreava demoradamente a água caindo pelo corpo, pouco se importando com a falta de chuva e o racionamento, e construía seu próprio destino. Sabia que nada era previsível e que todo trabalho era em vão, mas gostava de sonhar.

Ele sempre teve um sorriso e uma piada, mas só serviam para esconder os medos e segredos. Além disso, por vida foi inconformado, insatisfeito e descontente. E, por isso mesmo, imaginava, criava, construía. Descobriu desde cedo que, realmente, só os idiotas são felizes. E que, feliz ou infelizmente, a insatisfação não gera mudanças, mas cria preciosidades.

Pierre Verger não conseguiu mudar o seu mundo, então descobriu a viagem e foi fotografar. Sempre inconformado, sempre com uma mochila nas costas, sempre buscando respostas através das lentes. Não firmava raízes e não almejava holofotes. Queria ver tudo, ver todos, para tentar entender e, principalmente, inserir-se em algum lugar. Com certeza não conseguiu nenhum dos dois.

John Lennon queria apenas ser feliz. Como não era um idiota, não conseguiu. Foi fazer música para fugir dos medos, das dores do mundo, do descontentamento com as pessoas. Não conseguiu fazer um mundo onde não houvesse fome e nem guerras religiosas, mas – quem sabe em uma madrugada de insônia – imaginou. Ele assoviou, escreveu, cantou e divulgou para milhões a vida que queria.

Almodóvar sempre foi diferente. Não tinha dinheiro. A educação religiosa só serviu para perder a fé em Deus. E não conseguia ser livre, liberto, libertino. Pegou seus medos e suas roupas, jogou dentro das malas e foi aprender a fazer filme. Em suas obras, tenta contar muito do que viveu, aprendeu e sonhou. Nas telonas, através dos olhos (sonhadores) de Pedro Almodóvar, a hipocrisia religiosa homossexual foi punida e as mulheres – todas – têm seu lugar ao sol. No roteiro da vida – essa boba que não sabe seguir quem pensa bonito – a realidade é outra…

A insatisfação, ora, não gera mudanças. Mas cria preciosidades.

Mas, voltemos a ele, que longe do vidro do ônibus, deixava a realidade bater na cara e mostrar que não dá simplesmente para mudar o (seu) mundo com imaginação, desenhos e belas trilhas sonoras. E quando a realidade da vida chega crua e insensível, inacreditavelmente ele consegue sorrir. Afinal, mesmo sem fotografias incríveis, músicas nas rádios e filmes em Hollywood, ele sempre trazia lápis, papel, inconformismo e sonhos de chuveiro.

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Cá entre nós

Eram diferentes em tudo na vida: na razão, na emoção e na quantidade de SMS. Eram diferentes na geografia, na história e até na matemática. Enquanto um era cinema e poesia, o outro era prosa e televisão. Nenhuma decisão era fácil. Nenhum braço era dado a torcer tão facilmente. Bar ou restaurante? Skol ou Brahma? Rock ou Jazz? Tudo era motivo para discussão acalorada e cansativa. Qualquer coisa se transformava em debate. Quantas vezes foi preciso alguém para mediar? Nem sei dizer… Brigavam porque um falava mais, exigia mais e dizia até amar mais. Que sei lá eu se é verdade. Mas, cá entre nós, esse negócio de amor com amor se paga é mesmo uma lorota. Na dosagem de sentimentos, um sempre tem uma gotinha a menos.

Claro que não eram apenas brigas bobas. Houve as confusões sérias, em que as cabeças esquentavam, os insultos eram jogados e o respeito ficava perdido. É o momento tenso da relação: as diferenças gritam e o que separa fica bem maior do que o que une. Eles acabavam resolvendo de todo o jeito e com juras de não acontecer nunca mais. Mas, aos cochichos, já circulava a sentença de quem os conheciam: a relação estava fazendo mais mal do que bem. E, cá entre nós, esse negócio de que os opostos se atraem só funciona mesmo na química. E eles nunca gostaram muito de química.

Todos, inclusive eu, falavam que eles sempre podiam insistir mais um pouco. Todos costumavam encorajar. A vida já me mostrou que não adianta interferir: essas histórias só acabam quando um dos envolvidos resolve colocar o ponto final. A vida também me mostrou que as relações nunca acabam de primeira: é preciso desgaste constante. E nós, os amigos, embora pedíssemos paciência na hora de decidir qualquer coisa, já achávamos que estava tudo muito tenso e que as mudanças nunca chegariam. Cá entre nós, esse negócio de água mole em pedra dura tanto bate até que fura é conversa fiada. As pessoas não aprendem e não cansam de tentar emergir o barco afundado.

Eles viveram bons momentos, ninguém pode negar. Por um bom tempo, tudo foi mágico. Era uma antiga e linda história que causava inspiração, admiração e inveja boa a todos que ouviam. No início tudo era muito perfeito. Eles eram mais engraçados, mais alegres e até mais bonitos. Dava para ver todo o amor dos dois nas pequenas coisas. Sem contar as adversidades que enfrentaram para estarem juntos. Eles foram corajosos, atrevidos e, todos comentavam, combinavam. Mas aí vieram os defeitos, as mentiras e as pessoas do passado para tirar a imperfeição de tudo. Cá entre nós, esse negócio de que para esquecer um amor, só outro grande amor não funciona. Para se entregar ao novo é preciso estar desamarrado completamente.

Nunca dá para saber como eles estão. Discutindo pela sobremesa ou gargalhando juntos por alguma bobagem? Típico deles: essa inconstância absurda e, arrisco dizer, culpada de tudo. Mas não precisa insistir ao ponto de ser apenas tristeza, espinho e ferida. Esse negócio de capitão nunca abandonar o navio é pura besteira. É preciso sabedoria para desistir no tempo certo. Afinal, cá entre nós, o amor não é imortal. Mas que ele seja eterno (e belo) enquanto dure.

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A viagem

Para ser sincero, ele nunca quis realmente fazer parte daquele mundo – mas sabia, desde sempre, que fora dele desde o primeiro contato. Ele olhava com medo, desconfiança, receio e, para ser ainda mais sincero, certo repúdio – mas também olhava com verdadeira curiosidade, desejo e ansiedade. E ele relutou com todas as suas forças e não admitia – nem mesmo para o espelho – que já era o momento de fazer a viagem.

Foi preciso que uma mão amiga segurasse a sua e o guiasse pela estrada. E ele se entregou – como nunca se entregou a nada. Fez as malas, preparou-se para as despedidas e se aventurou. Hoje, pensando naquele momento, ele lembra do quanto se sentiu estranho durante o percurso. Mas não tinha volta. E ele seguiu o caminho olhando para as novas cores, as novas caras, os novos sabores e os novos saberes. Ele, tão acostumado a fazer parte do outro mundo, agora carregava um novo olhar e uma nova paixão.

A viagem não foi fácil, claro. Ele sempre soube disso. Mas, analisando bem, ele sempre pensou que seria mais difícil. Não dá para saber se ele chorou quando surgiram todas as pedras no caminho, tão diferentes da poesia jeca de Drummond. Se ele chorou, acreditem, foi escondido. Típico dele: mostrar-se sempre tão forte e tão intocável, mas derreter-se sozinho no travesseiro com aquela velha canção.

Mas podemos dizer que ele saboreou todos os momentos sem medo de ser feliz. E quanto mais ele entrava no seu novo mundo, mais ele se entregava. Não foi colhendo flores, mas colheu histórias, gírias e amizades. Tantas histórias. Tantas gírias. Tantas amizades. E só agora, pensando na caminhada, ele sentia os novos ventos e uma sensação fantástica de estar no lugar certo, com as pessoas certas, com as músicas certas e as roupas certas.

E, para ser mais sincero ainda, ele percebeu que o mundo é um só. Não existe essa de mudar de mundo com uma viagem. Ora, o que muda – pensou ele com um grande sorriso – é a gente.

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