Arquivo da categoria: Letras

Bukowski, Rubem e a faxineira

A velha senhora resmungava impaciente enquanto limpava o escritório do Sr. Bukowski. Estava cansada de recolher garrafas vazias e papéis jogados por todo o canto. E os livros do Dostoiévski? Quanto mais ela limpava, mais eles pareciam empoeirados. O escritor e a faxineira nunca tinham trocado grandes palavras. Eram de mundos completamente opostos. Ele, sempre sozinho nos seus livros, nas suas doses e na sua fumaça. Ela, sempre com o espanador. Mas hoje, milagre dos deuses, o velho estava acompanhado. Pelo que ela pôde entender, era outro escritor que veio dos confins para bater um papo. Outro velho. Sem a cara safada e cínica do Bukowski, mas daqueles senhores com uma alma azul que a gente simplesmente quer abraçar. Era o Rubem Alves, poeta com jeito de menino que consegue ver o mundo em um grão de areia. A mulher nunca ligava para as coisas do patrão, mas ficou curiosa com aquela visita e demorou-se um pouco mais no escritório para ouvir o papo.

“Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse?”, perguntou Bukowski.

“Nós amamos a pessoa não pela beleza que existe nela, mas pela beleza nossa que nela aparece refletida”, argumentou o Rubem, visivelmente incomodado com a fumaça do charuto do contista alemão.

“É isso! A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. O amor é uma espécie de preconceito”, retornou Bukowski, dizendo a mesma coisa do poeta brasileiro, mas sem abusar do lirismo poético do colega.

“Será possível, então, um triunfo no amor?”, indagou o Rubem, um pouco preocupado por perceber que ele falava a mesma língua do farrista à sua frente e tudo era questão de semântica.

“Sim, é possível amar o ser humano”, disse o alemão com uma atípica seriedade. “Caso você não o conheça tão bem”, divertiu-se, mostrando que o tom inicial era balela.

“Mas Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende ter uma pessoa: ‘continuarei a ter prazer em conversar com ela daqui a 30 anos?’”, Rubem pareceu não notar o jeito fanfarrão do seu interlocutor e tentou mostrar que o conhecimento do outro é a base do amor.

A faxineira ficou intrigada. Há 30 anos era casada com o velho jardineiro. Amava-o, claro. O amor cansado e fiel, sem surpresas, sem paixões avassaladoras, sem ciúme. Por um instante, imaginou-se jovem, percorrendo o mundo conhecendo as outras dez mil pessoas que o Sr. Bukowski disse que a gente amaria mais. Tomou coragem e, decidida a afastar os seus novos pensamentos, interrompeu um papo sobre Jack London (que ela não fazia ideia de quem se tratava) e perguntou: “É mesmo verdade esta história dos milhares de andantes neste mundo de meu Deus que eu amaria mais do que o meu marido?”

Os dois escritores olharam para a velha mulher, como se a notassem pela primeira vez. Ela ficou ruborizada e arrependida de ter falado qualquer coisa.

O Rubem sorriu gentilmente e, pelo visto, entendia todos os pensamentos da senhora. Afinal, ele escreveu tudo sobre o casamento e suas analogias com gaiolas, asas, tênis e frescobol. 

Bukowski olhou para ela, avaliou sua feliz ignorância, decidiu-se por não prolongar aquele papo, e respondeu com o seu melhor tom de blague: “Mas a gente nunca conhece essas pessoas”. E virou o último gole de uísque.

Dizem que as frases desse diálogo ganharam o mundo através dos tempos.

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Sobre gaiolas e asas

O Rubem Alves é um escritor bonito que escreve histórias para crianças que gente grande deveria ler. Os adultos são tolos e não sabem ser felizes. As crianças são mais espertas. Adultos sempre lembrarão as responsabilidades, as agendas, os compromissos, a conta de telefone, os extratos bancários. Crianças não lidam com essas obrigações e por isso não devem ser levadas a sério. Bobagem. Elas são tão mais inteligentes quando o assunto é emoção e felicidade. Os pequenos sabem lidar como ninguém com as coisas do coração.

Um amigo, muito triste, veio conversar comigo sobre coisas que o atormentavam. Sua alma chorava. O coração sangrava. Ele havia começado a cortar as suas asas e a entrar em uma gaiola. Estava confuso. Não sabia mais como poderia voar, mas também não queria ver o mundo através das grades. Ele pedia socorro, mesmo sabendo que não poderia ajudá-lo. Nessas horas – e o mundo me ensinou isso com ferro e fogo – não adianta falar e fazer nada. Só podia tentar arrancar alguns sorrisos. E fiquei triste. Foi então que comecei a vasculhar velhas caixas de livros atrás de um conto do Rubem.

PassarinhoGaiola2 Bonito é recordar coisas que a gente sabe de cor. De coração. As palavras do livro já estavam dentro de mim antes mesmo de eu encontrá-lo. E me entreguei ao prazer delicioso de revisitar cenas lindas que ficaram na memória. Lembrava até do título: A Menina e O Pássaro Encantado. O Rubem conta de uma menina que se apaixonou por um pássaro. Era uma ave linda, alegre, livre. Voava e sempre voltava para a menina com histórias, sorrisos e canções. Em suas viagens, conhecia línguas, costumes e mundos. E trazia um pouco de tudo isso para a menina. Livre voava e livre voltava. E a menina adormecia e sonhava com todas as belezas que as novas canções traziam… Foi então que ela começou a sentir muitas saudades e começou a chorar quando o pássaro ganhava o céu. Ele confidenciou que também sentia tantas saudades e que também chorava… É a saudade bonita (e necessária) que não vê a hora do reencontro. Mas a menina não estava satisfeita: ficava com medo de o pássaro não voltar mais. E então, numa noite de regresso e amor, ela trancafiou-o numa gaiola. Claro: uma linda gaiola de prata, digna de uma grande ave. Ela pensava que, sem saudade da ausência, não haveria tristeza e só felicidade. Pena. Sem os altos voos, as penas do pássaro ficaram feias. Sem as viagens, suas histórias ficaram cansadas. Não havia sorrisos e ele deixou de cantar. Ela também ficou triste. Afinal, aquele não era o pássaro que ela amava…

Gaiolas – mesmo as de prata, belas e reluzentes – sempre serão gaiolas. E em nada combinam com amor. As coisas do coração têm que ser um simples transbordar de querer, de alegria, de desejo, de vontade… Lembrei da história da viúva que, antes da morte do marido, vivia de cara amarrada, de coque, de preto. Depois que o esposo se foi e passado o tempo respeitoso em que as pessoas falam do morto, ela floresceu: tirou do baú os vestidos alegres, começou a cantar velhas cantigas e certo dia arriscou até um batonzinho… Quantas algemas ela quebrou? Quanta infelicidade vivia? Quanta tristeza sentia?

A menina, do livro do Rubem, acabou libertando o pássaro… E ele foi buscar de volta o seu encanto, matando a saudade do céu. Ela, toda noite penteava os cabelos e colocava uma flor na janela, à espera do reencontro. E voltou a sorrir. Mas é uma história para crianças. E os adultos nunca conseguirão compreender.

“… que é livre, e que livre voa…”

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O choro de Caio Fernando Abreu

Hoje as cortinas se abrem para um monólogo. E eu, muito humildemente, só queria apresentar para vocês o Caio Fernando Abreu que eu conheço.

O Caio tinha alma de gay ousado. Arrisco dizer que era mais do que isso, mas não consigo pensar em um termo adequado para situação. Talvez bicha promíscua, mas sinto que a alcunha não seria bem recebida pela plateia. Mas não dá para negar: sua áurea era colorida e seus sentidos eram femininos. A angústia do Caio, diga-se, chegava a ser angustiante. E todo seu melodrama era sintomático dos seus gritos sufocados pelo desejo de mostrar-se verdadeiro – coisa que ele nunca conseguiu, de fato. E chorou.

Poeta é aquele que chora.

Imagino a tristeza com que ele escreveu Aqueles Dois – crônica bonita sobre dois homens que se apaixonam depois de uma frustrada vida heterossexual. Os caras, nas palavras do Caio, são sérios, comportados, um tanto tímidos, um tanto cultos, um tanto lindos. Sonho do Caio ter sido assim – e encontrado alguém assim. Os protagonistas usaram a solidão de um e a solidão de outro para que viessem dias de sorrisos. O Caio Fernando Abreu não conseguiu, até o fim da vida, aplacar o deserto que habitava sua alma. O que ele conseguiu foi uma HIV, que potencializou suas lágrimas, seu desespero e seu desprezo.

Poeta é aquele que chora.

Pobre do Caio. Um de seus textos mais pungentes, Pela Noite, fala de como a tribo gay é um gueto atolado de pessoas com os mesmos gostos e mesmo palavreado que aparenta (apenas aparenta) exclusividade. E segue dizendo que a própria palavra gay é uma “sacralização da bobagem”. O Caio não se encaixava. Ele não escandalizava. Disse que se inspirou mais em Cazuza e Rita Lee do que em Guimarães Rosa, mas nunca conseguiu gritar suas condições, opções e erros. Mas não precisava. Como Vinícius, a biografia e bibliografia do Caio informam o mesmo comportamento. E não se engane: é uma literatura de quarentão solitário homossexual, que não conseguiu conviver com seus desejos, seu verdadeiro eu e todos os eus que inventou – para o espelho, para os amigos escritores, para a família. E se lamentava. Afinal, como ele escreveu: “Só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais”.

Poeta é aquele que chora.

Tudo em Caio era dor, angústia, saudade, desejo, punição, culpa, mentira. E tudo virou poesia – algumas boas, outras ruins. Ele tentou tanto esconder sua natureza e hoje sua literatura é considerada apenas gay – palavra que ele sempre recusou. Apenas. Sem margens para outras interpretações. Como disse a escritora Márcia Denser em uma homenagem ao centenário do escritor, “a visão, a manutenção do ponto de vista dum narrador exclusivamente homossexual restringe, limita e aprisiona o grande artista”. O Caio foi tudo isso: restrito, limitado, aprisionado, grande artista. E, claro, homossexual – daqueles que querem, em vão, esconder o que está transcendendo. Uma vez, numa carta, aconselhou o jornalista Luiz Fernando Emediato a se cuidar mais e não se expor demais. “A gente é muito frágil e eles são muito fortes”, explicou Caio.

Poeta é aquele que chora.

Hoje, o Caio F. Abreu faz sucesso. E sua literatura balizada não é mais vista assim. Ele deixou de ser o cara da literatura gay (esse termo é odioso, ou a literatura é boa ou ruim). Agora ele é o poeta da menina que foi traída, do cara que nunca leu um livro na vida, da pré-adolescente que adora modismos. O choro de Caio virou choro barato nas mídias sociais, virou poesia de mesa de colégio e pieguice de poltrona de ônibus. As dores, as recusas e a solidão de Caio se transformaram em chacota, em pára-choque de caminhão. O novo Caio F. Abreu que vinga pelas mídias sociais afora não me interessa muito. A galera do Facebook pode ficar com ele.

Poeta é aquele que chora. Então chore, Caio. Porque é tua a emoção.

Cai o pano.

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Sobre Machado, preconceitos e cultivo de jardim

Como Macunaíma, Machado de Assis nasceu negro e foi ficando branco à medida que se afastava de sua origem. Nascido no sofrível Morro do Livramento, o mulato, filho de pintor de paredes e lavadeira, foi parar, confortável e esbranquiçado, no bairro elitista de Cosme Velho.

Não sei se Machado gostaria que alguém se lembrasse da sua mulatice. Temo que não. Ele iria considerar rasteiro. Apelativo. Se for para falar de Machado, vamos falar de sua incrível genialidade. Mas hoje – só por hoje – vou precisar apelar para o cansado assunto do racismo para esse texto. Prometo ser a última vez. Todo mundo sabe que Machado de Assis foi um negro que repudiou sua origem. Um negro que ganhou absurda importância nacional e se absteve de se posicionar politicamente numa época em que a Abolição era debatida. Um negro que se rendeu à arte literária europeia. Um negro que só dispensava aos negros papéis sofridos e resignados em seus livros.

Numa crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888, seis dias após a Abolição da Escravatura, Machado falou da questão, abordando o tema com o tom mais sarcástico que coube: “juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha”. Narrou o momento em que restituía liberdade ao seu escravo Pancrácio durante um banquete: “Fiz discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo”.

Com fina ironia, de fazer inveja a Jonathan Swift, Machado contou que a liberdade fez bem ao moleque, que por pequenos trocados aceitava petelecos, pontapés, puxões de orelhas e apelidos humilhantes. O escravo continuava escravo, mas agora ganhava um pequeno ordenado. Nosso ilustre escritor sabia, desde aquela época, que a Abolição sozinha não resolveria a questão. No fim da mesma crônica, Machado pesa o tom de blague: “O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda gente que dêle teve notícia”. Colocando uma lupa nisso tudo, a impressão é que Machado de Assis era um ser desprezível. Mas a verdade é que o autor só tinha compromisso com sua cabeça e seu futuro glorioso.

O movimento negro sempre lutou para que os negros se orgulhassem de sua cor. Machado, não. Ele era o inverso de Castro Alves, o poeta dos escravos. Arrisco dizer que ele acharia uma patetice todas essas ações afirmativas, a política de cotas e certeza que zombaria de um Dia Nacional da Consciência Negra, com extenuantes homenagens a Zumbi. Tudo isso caracteriza uma única raça, um único povo, uma única cor. Machado não achava que o conceito de raça tivesse alguma relevância. Ele pensava mais. Ele pensava além.

Machado de Assis não disfarçou sua cor por conta de racismo ou repúdio aos seus antepassados. O motivo é muito mais simplista: a família de sua mulher portuguesa fez restrições ao casamento por motivos raciais e os amigos poderosos e políticos em que o autor se apoiou eram todos brancos. Naquela época, o mestiço ainda era visto como um ser inferior. Machado repudiava qualquer espécie de preconceito, mas precisava pautar o Estado e os ricos que frequentavam teatro e liam compulsivamente. Não nos enganemos: nosso mais ilustre escritor foi pelego quando precisou ser, bajulou quem precisava ser bajulado e foi o incentivador – quiçá o inventor – dos sorrisos e elogios falsos que pairam na Academia Brasileira de Letras.

A posição sensata de Machado de Assis está em Esaú e Jacó, livro de 1904: “Abolição é a aurora da liberdade; esperamos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco”. Lógico. Ele entendia a miséria social não só como um problema do negro, mas também do branco pobre e marginalizado. Machado tinha a consciência negra, branca, brasileira, mundial, mulata e amarela. É muito bonito hastear faixas para Zumbi dos Palmares e cartazes com frases de Castro Alves, mas o combate necessário é contra o preconceito financeiro – e esse só será extinto de acordo o esforço de cada um. Veja bem: o mulato filho de lavadeira e pintor de paredes se tornou a maior referência da literatura brasileira. Como disse Voltaire, é preciso que cada um cultive o seu jardim.

Machado foi um homem muito esperto, mas acho que ele imaginou que no século próximo ao seu não existiriam essas demagogias desnecessárias e que a busca pessoal pela ascensão superaria qualquer preconceito. Mas a verdade é que não há busca. O rico não busca. O pobre não busca. E todos vivem nesse eterno conformismo, compartilhando montagens toscas com frases piegas enaltecendo as minorias nas mídias digitais . Sobre Machado de Assis resta dizer que ele não foi apenas um homem a frente do seu tempo. Ele é um homem muito a frente do nosso tempo.

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