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Sobre os jogos de sedução

Nossos olhos se cruzaram no primeiro dia do outono. Você exibia as suas covinhas, com um sorriso meio de lado. Bebia algo com morangos. Estava graciosa com um vestido floral, de uma simplicidade tão bela que me encantou. Eu, de moletom e barba por fazer, sorri desajeitado. Como não sei dançar, escolhi mandar um bilhetinho. Posso não entender nada de passos e compassos, mas as palavras sempre foram minhas amigas. Funcionou. Não ganhei um beijo, mas você foi embora com o meu moletom. Não saí com promessa de encontro, mas havia um novo contato na agenda do celular. Era o suficiente. Naquela madrugada de pouco sono e música invadindo a janela, trocamos as primeiras mensagens.

Lembra-se daquele flerte adorável em que as coisas ficavam nas entrelinhas? É isso que eu amo.

Ao longo dos dias, era difícil ficar longe de você. Os olhares, as piadinhas, as canções… A gente estava construindo nossa historinha. É o delicioso momento em que o não dito revela muito, as provocações são deliciosas, e o encontro é uma mistura de expectativa e prazer. É o encanto dos abraços demorados que dispensam palavras, dos beijos no canto da boca na hora da despedida, dos recados com apenas uma carinha feliz. Eu elogiava suas covinhas, você elogiava a minha barba. Eu implicava com o seu pé grande, você implicava com meu brinco de argola. E, naquele dia em que cheguei sorrateiro e fechei os seus olhos, veio o primeiro beijo. Foi incrível.

Lembra-se de todo aquele nosso joguinho de sedução? É isso que eu amo.

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Mas o seu braço não era dado a torcer. E eu comecei a me envolver. Você se esquivava das minhas conquistas diárias. Os chocolates, os bilhetinhos na caixa do correio, as flores… Nada parecia te ganhar completamente. E eu, cada vez mais sedento, queria que você fosse minha, absolutamente minha. Aquele seu jeito espontâneo me ganhou no primeiro instante. Mas depois eu comecei a me sentir meio enciumado de toda a sua liberdade e libertinagem. A dança com os amigos, a falta de notícias, a demora para responder ao meu chamado… Tudo me deixava querendo mais e mais. Você não se importava com os meus gritos e minhas batidas de porta. Quando eu saía, sempre esperava que você corresse atrás de mim. Não acontecia. E eu, sempre desolado, voltava para o seu sorriso e aconchego. Foi em uma noite assim que fizemos amor pela primeira vez.

Lembra quando você não dava a mínima importância para os meus caprichos? É isso que eu amo.

E aí veio o desastre. Você se encantou totalmente. De alguma forma, quebrei o gelo. Você virou minha. Cada pedaço. O seu amor chegou arrombando as portas, gritando pelos corredores, invadindo todos os espaços. Você não mais se importava com suas danças, seu orgulho, suas convicções. Tudo era pelo meu amor. E eu, que sempre achei que sonhava em ver esse brilho nos seus olhos que faria inveja ao próprio sol, comecei a me afastar. A cada mensagem de “bom dia, amor”, “te amo” e “já estou com saudade”, eu colocava mais um tijolo na parede que eu começava a construir entre nós. A cada adulação e presentes, eu sentia menos vontade de mimos e carinhos. A cada vez que você abdicava da sua liberdade, eu aproveitava para usufruir a minha.

Lembra quando eu te disse que eu amo a arte da conquista? É só isso que eu amo.

O que eu queria ter dito

– Já está na hora de você esquecê-lo.

– Por quê?

“Porque estou apaixonado por você.”

– Porque ele não te merece.

– Ele é tão doce… Se parece tanto comigo… Tanto…

“Eu sei, e isso dói.”

– Mas ele não te quer, e não há nada que você possa fazer a respeito.

– O que eu tenho de errado? Por que ele não consegue se encantar um pouco que seja?

“Porque ele é um tolo, um idiota, que não percebe o quão linda tu é.”

– Talvez ele esteja em outra.

– Só em pensar nessa possibilidade o coração dói e chora.

“Sou um burro. Um idiota. Como posso deixá-la sofrer?”

– Não chore, por favor.

– Me dá um abraço.

“Será que ela vai sentir o meu coração acelerado?”

– Vamos brincar de mandar a tristeza ir embora? Vou fazer aquele brigadeiro de panela que você ama, e depois veremos reprises de Friends, e a gente vai desenhar um sorriso lindo neste seu rosto.

– É o que eu preciso. Podemos reler as conversas que eu tive com ele e pensar em algum meio de me deixar irresistível?

“É demais. É demais revisitar todo esse dengo que me enche de ciúmes.”

– Sim, sim. Podemos. Vamos deixar você ainda mais linda, e ele vai perceber todos seus encantos. Só não me faça aquelas dancinhas malucas porque você fica parecendo uma doida.

– Bobo. Só você pra me fazer rir nesses momentos.

“Eu nunca te disse, mas cada piada é para ver essa gargalhada gostosa que deixa o meu mundo mais colorido e feliz.”

– Então, vamos. Segura na minha mão.

– Não sei o que eu faria sem você. Tu é meu melhor amigo. Te amo.

 “Se você soubesse como isso machuca.”

– Também te amo.

“E isso é tudo, tudo, tudo o que eu sempre quis te dizer.”

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Amor entre quatro paredes

Que contestem os bobocas apaixonados, mas importante mesmo na relação é o sexo. Sim: SEXO. É a pele que define onde está o teu coração, as tuas vontades e as tuas loucuras. No fundo, não importa muito se os dois amam Harry Potter, canções do Nando e passeios nas montanhas. É muito legal compartilhar coisas lindas, mas se o toque dele não fizer o teu corpo sentir arrepios, se o beijo dele não te tirar do chão, se aquele cheiro no cangote não te fizer sentir vontade de morder a fronha de tanto prazer, não adianta.

Se o peito dele não for a tua morada, não é amor.

Andar de mãos dadas pelas ruas da cidade, dividir o mesmo pote de sorvete de flocos e discutir os filmes do Kubrick são coisas que encantam e fazem sorrir. Mas o que vai te fazer delirar é o jeito desarrumado e torto que ele vai arrancar a tua blusa e te jogar na cama. Poesias, recadinhos na geladeira, SMS todas as manhãs, bilhetinhos dentro do teu livro preferido… Nada disso se compara ao êxtase e tremor que você vai sentir se a língua dele souber explorar cada parte do teu corpo.

Se o abraço dele não te levar aos céus, não é amor.

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E é por isso que a Mônica quis o Eduardo e a Julieta quis o Romeu: o fogo que percorre cada partícula do ser e nos faz esquecer todas as razões. Que importa se ele faz aulinhas de inglês, não sabem quem é Godard, e joga futebol de botão com o avô? Toda a tua medicina e o teu alemão não serão suficientes para explicar o que acontece quando alguém te completa na cama. Como feijão com arroz. E os teus pais nunca entenderão os motivos que podem te levar a preferir aquele cafajeste ao educado moço que chega com flores e fala mansa. O buquê e o cavalheirismo são delicados e tudo o mais, mas nada causam quando o buraco é mais embaixo.

Se o simples anúncio da chegada dele não te deixar toda boba, não é amor.

Você pode brigar pela ausência de declarações românticas, implicar com a toalha molhada jogada na cama, e se chatear com a impaciência na hora de te esperar para um encontro. Ele pode não perceber o teu novo cabelo, não ler os teus textos e não te acompanhar nos eventos sociais. E, mesmo com tudo isso, você vai perdoá-lo se o primeiro sorriso de canto de boca tão descarado acordar todas as borboletas do teu estômago. Simplesmente porque o cara que te completar não vai precisar visitar o teu blog para ler tuas maiores vontades.

Se o beijo dele não conseguir calar tuas frustrações, não é amor.

Gostar das mesmas coisas é adorável, mas não é essencial. Os amigos estão aí para decidir contigo qual é a melhor casa de Hogwarts, o melhor filme da Nouvelle Vague, e a música mais linda do MTV acústico do Nando Reis. Os amigos… Esses lindos que a gente ama de um jeito todo especial. E então eu te pergunto: qual a diferença no amor que você sente pelos teus queridos amigos companheiros de filmes, pipoca e guaraná, e do homem que você quer ao seu lado para chamar de teu? Sim, os sussurros, os gozos, os suspiros. Sexo.

Porque é na cama, entre quatro paredes, que você vai sentir o amor.

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Flocos e maracujá – O que ela diz

Ninguém sabe o quanto eu tentei me apaixonar por você. Tentei, e tentei com afinco. Mas o que eu posso fazer se estou tão louca por ele? Vai, pode falar o quanto eu sou estúpida por escolher alguém que não sabe qual é o meu sorvete favorito e desliga o telefone aos sábados. Os amigos já espernearam, a família já julgou, e agora só falta você. Joga na minha cara o quanto eu sou burra por não estar em seus braços curtindo a sua perfeição tão irritante. Grita que eu vou me arrepender em pouco tempo e que você não estará mais disponível. Pode falar o que quiser. Mas a verdade, a mais pura verdade, é que só ele está em minha cabeça e em meu coração.

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E cá fico eu, boba de saudade…

Eu gosto do seu colo tão amigo. Sempre me sinto melhor quando você chega com o seu abraço mais cheiroso e cheio de afago. Mas eu não quero apenas me sentir melhor. Quero aquele tremor que percorre todo o meu corpo quando estou deitada no peito dele. Ele nem se importa com perfumes. Chega todo suado do futebol, joga a blusa surrada em um canto da casa e deita nos meus lençóis limpos. Mas é isso que eu amo: o jeito todo sem jeito que ele pega nos meus cachos. Depois ele some com os amigos para os botecos sujos, pouco se lixando para os meus pedidos de companhia. E cá fico eu, boba de saudade, perdida entre chocolates e lembranças. Mas o que eu posso fazer se com apenas uma promessa de retorno meu coração se acalenta?

Sabe todas as poesias que você escreveu para mim? São tão lindas e fofas, mas não me arrancam suspiros apaixonados. Arrepio mesmo eu só sinto quando ele passa a barba no meu cangote. Não me leve a mal, eu só estou sendo sincera. Você é um cavalheiro que sabe exatamente o que fazer para me deixar contente. Eu que sou uma completa idiota que merece uma bofetada na cara. Às vezes, penso em ser sua. Penso de verdade. Mas é só ele soltar o sorriso mais descarado na minha direção, e eu já sei que sou dele – completamente dele.

Então, pode ir. Vá. Leva sua compreensão, paciência e atenção para alguém que realmente mereça. Leva suas letras mais lindas para uma pessoa que vai se sentir mais do que especial. Leva seus recadinhos e amor para quem vai retribuir. Acredite: queria tanto te querer. Mas a gente sabe que as coisas não são assim… Vá buscar o seu caminho, que eu vou me apegar às minhas pequenas alegrias que ainda são maiores do que as lágrimas. Ele comentou que não gosta quando eu aliso os cabelos e que ama os meus cachos. Você pode achar pouco. Mas eu prefiro acreditar que é um avanço surpreendente. Para ser ainda mais sincera, esse pequeno elogio valeu muito mais do que todos os seus dengos, cartas e canções. Vá. Eu vou ficar aqui na espera que um dia – quem sabe um dia – ele descubra que eu gosto de flocos com maracujá.

Coração bobo

Parecia impossível o Instagram ficar mais insuportável. Ficou. Hoje, entre um No Pain No Gain embaixo de uma foto de espelho de academia, as pessoas estão cuspindo toda a sua constrangedora cafonice em nossa cara. E não são apenas as adolescentes que nunca leram uma linha da Clarice e, mesmo assim, citam seus versos sem parar. Não. O Dia dos Namorados potencializa o deslumbramento boboca em pessoas sensatas. São milhares de recadinhos carinhosos e fotos de casais espalhadas pelas internets.

Todo mundo acha bonito estar apaixonado. Você volta a ser aquele jovem sonhador e boca aberta, mesmo que já esteja beirando os 40. Manda flores, escreve versos bregas e tenta um dedilhado das músicas do Flávio Venturini que será inevitavelmente tosco. O apaixonado recupera a vaidade perdida e pede socorro às irmãs ou amigas para renovar o guarda-roupa e o penteado. Tudo para tentar ficar mais atrativo para ela. A paixão traz momentos mágicos. É um novo mundo repleto de suspiros, apelidinhos, chocolates. O “bom dia” vem acompanhado de um “eu te amo” e a trilha sonora da vida é uma eterna melodia melosa de Ghost.

A paixão pode levar aos céus, mas também ao inferno.

A paixão pode levar aos céus, mas também ao inferno.

Quem não quer viver neste lindo universo de amor, quando todos os apaixonados não conseguem esconder o contentamento, a satisfação e as declarações diárias? Todos não dizem que a paixão é linda? Sim, é. Mas é também a pior coisa que pode acontecer. Sério. É hora de ser realista. A paixão pode levar aos céus, mas também ao inferno. Sem avisar. De uma hora para outra. Ela humilha. A paixão nos faz ridículos, estúpidos, sem nenhuma noção de responsabilidade e realidade. O apaixonado fica completamente patético, e o pior de tudo é que ele acha que está irresistível.

Existe alguém que sofre mais do que o apaixonado? Ele não faz nada direito: não come, não dorme, não trabalha. A felicidade dele depende exclusivamente das reações da pessoa amada. Se ela corresponde, ele se sente o próprio Deus. Se não, cai em cima de uma cama, fecha as cortinas e se entrega à tristeza. Ele tem que se segurar para não ligar todo momento. E se um desconhecido deixa um recado para ela, a tranquilidade vai embora e nada é mais importante no mundo do que saber o histórico do cara.

Eu conheço várias pessoas que conseguiram ser fortes e se livraram de uma paixão. Parece um renascimento. O apaixonado é um escravo e só conseguirá se libertar com perseverança e força de vontade. Ele só conseguirá abrir as cortinas, quebrar as algemas e ser feliz, se dominar a paixão. Chega de desabafos intermináveis. Os amigos não aguentam mais tanto drama e tanta história chata. O fato é que o apaixonado não vai perguntar como está o pai da amiga que foi para UTI esta semana. Não. Ele é um egoísta, e o seu mundo só se resume a ela, as histórias dela, os telefonemas dela. A paixão não é apenas cega, ela é surda. Os problemas dos outros que se explodam para lá.

É preciso pensar no quanto é ridículo e retardado este deslumbramento basbaque. É preciso ser esperto e não deixar a paixão vencer. É preciso ser forte. Lembre-se: No Pain No Gain. 

La Crème Brûlée e a camisa surrada do Patolino

44920--637x0-1 O Jack Daniel’s está aqui do lado. Bebo como o Keith Richards, dos Rolling Stones: sem gelo e sem copo. Estou com barba por fazer, uma calça de moletom cinza, uma camisa surrada do Patolino e os pés descalços. Estou patético. Quase não tem luz no quarto. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band toca baixinho na caixa de som. Com os Beatles, e não a versão da Cássia Eller. Já faz um tempo que eu estou longe do cigarro, mas hoje, só hoje, eu fumaria um maço de Marlboro Vermelho. Queria ficar ainda mais depressivo, mais desprezível, mais bukowskiano. Olho para o Word e o Doritos. Ambos abertos, mas apenas o salgadinho está pela metade. Nenhuma letrinha sequer no computador. Estranho: quando não estou muito bem, gosto de rabiscar escritos ruins que ninguém vai ler. Estou com um vazio estranho no peito (falando em vazio, o uísque está acabando e preciso dar um jeito nisso imediatamente). Uma agonia maluca. Estou morrendo de saudades e com uma puta vontade de ligar ou mandar mensagem. Não sei lidar com essa paixão desenfreada que chegou me rasgando e me desestabilizando. É isso: pela primeira vez estou enlouquecidamente apaixonado.

Mais um gole. Vou ter que assumir para vocês. Publicamente. Não estou cabendo dentro de mim. É a mais irônica das verdades. Estou encantado e com todas as borboletinhas do estômago acordadas e assanhadas por uma autêntica patricinha. Sério. Ela é a mais fresca e chata das mulheres. Tentei de todas as maneiras (e vocês sabem o quanto!) achar graça nas moças de blusas que se assemelham às minhas, sem qualquer detalhe que lembra catálogos de moda ou etiqueta conhecida. Tentei – e tentei com garra e afinco – as que amam o Chico Buarque e todas as bandas alternativas. Tive até a oportunidade de me envolver por uma bela moça que sabia tocar gaita. E nada do coração empolgar. Ainda me joguei nas mais maneiras que curtem Simone de Beauvoir, amam documentários que o povão jamais curtiria ou mesmo entenderia e se importam com ecologia e meio ambiente.

Foi uma dessas que sempre quis e sonhei. Não são elas as mulheres legais e interessantes? Uma que possa dividir o vício pelos jogos eletrônicos no domingo e corrigir as crases dos meus textos? Uma que se interessasse pelos conflitos mundiais e as criancinhas do interior da África? Poxa, sempre quis aqui ao meu lado uma menina que debatesse as questões dos índios e pegasse os meus livros do Eric Hobsbawm emprestado.

Quer saber? O que fiz a minha vida toda foi reclamar dessas patricinhas burras e implorei que o destino colocasse em minhas mãos uma mulher que prima mais pelo cérebro do que pela bunda. Todos já ouviram meu discurso. Pois é, paguei a língua, paguei o pato e estou aqui admitindo. Sabe aquela menina que amava guitarra (sabia até fazer solos incríveis) e detestava cabeleireiro e unhas pintadas? Nenhum encanto. E aquela outra que gostava de vodka barata e tinha feito um curso de História da Arte? Nem afeição rolou direito. Todos os amigos falavam que eram meninas perfeitas para mim. E eram, sabe? Mas quem vai entender esse meu coração estúpido fazendo merda?

Estou apaixonado – e só de pensar nela fico suspirando igual a um retardado – pela mais delicada das meninas. Ela não sabe quem é Truffaut, mas chora assistindo Um Amor Pra Recordar. Não se interessa pelas cores do quadro de Rembrandt, mas tem uma paixão imensa por rosa e amarelo. Sabe falar todas as histórias e todo o guarda-roupa da Anna Wintour (que, sim, a essa altura do campeonato eu já sei quem é). Os sorrisos dela me convenceram a ir para um restaurante de gente besta (fiz até a barba no dia). Mas isso não é nada. Se for para assumir tudo, que falemos de uma vez: os seus beijos e os seus dengos me levaram para assistir o último filme da saga Crepúsculo. E lá se foram anos de reputação. Fui ver o filme e ainda fiquei com ciúme do lobisomem babaca que arrancava vários elogios da boca linda da minha menina. Ah, as lingeries caras! Que coisa mais linda, meu Deus! Desculpem aí, mas não rola mais ver calcinha bege Linda Joia depois do que estou vivendo. E eu sei que não posso descer mais na concepção de vocês, mas ainda tem espaço para dizer que, sim, já depilei o peito. Ela prefere assim.

Ela é tão frágil (e tão cheirosa) que quero protegê-la para sempre do mundo. Briguei com todos os amigos que riram quando ela perguntou na voz mais inocente e doce o que era esse tal de Game of Thrones que todos estavam comentando na mesa. Ela só vê Gossip Girl. Mas, olha, ninguém no mundo entende mais de sapato do que ela. E a barriguinha sarada, as pernas grossas e a bunda empinada? Levantar livros, ainda que sejam todas as obras da literatura inglesa, não deixará nenhuma mulher com o corpo que ela tem. Mais um gole. Quer saber a real? Ela é tão incrível que faz com que eu esqueça qualquer filme do Woody Allen e só pense em pegá-la de jeito. Desculpa aí, Flaubert, mas essa mulher deixou minha vida mais feliz. Eu sei que ela tem suas futilidades (enquanto eu sempre mantive minha arrogância intelectual), mas quando estou com ela me sinto um vagabundo ao lado de uma dama. Ou um plebeu com a mais bela princesa.

As ativistas que amam assuntos pouco digeríveis pela manhã podem até chamar minha atenção, mas nada causam quando o negócio é mais embaixo. Chega dessa prosa ruim de ficar resolvendo os problemas do mundo entre um boteco, um sexo, um passeio. O negócio, camaradas, é que essa mulher mexe com instintos que eu nem sabia que existiam por aqui. Depois que eu conheci o Crème Brûlée, não quero mais saber de gelatina. E essa é a verdade.

Fiquem aí com a Miriam Leitão de vocês que vou atrás da minha Paris Hilton. Tivemos uma primeira grande briga e eu nem quero saber se estou certo ou errado. Estou aqui arrasado, com uma saudade que dói a alma e só a quero de volta para colorir meus dias. Do meu lado e do Jack só ela: fresca, mimada, desinformada, reclamando do moletom e da barba e – todos os santos sejam louvados – gata demais. Acho que vou convidá-la para ver um filme (dublado, claro, para deixá-la mais feliz). Antes de ir vou tirar todos esses livros da estante (e o box de The Sopranos). O que quero é só liberar espaço para uma foto que tiramos no dia em que nos conhecemos – um dos melhores da minha vida.

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Run!

O fim de ano foi de muita cerveja gelada, acarajé no prato, frango rasgado no dente durante a viagem e arroz de polvo. Sim: arroz de polvo. Sei que parece frescura um simples jornalista comer iguarias ricas, mas queria ser abusado e dar na cara dos recalcados. Essa loucura financeira teve um resultado desastroso: comer podrão todos os outros dias em barraquinhas de procedência duvidosa para compensar o rombo no restaurante que deixaria até a Glorinha Kalil boquiaberta. Nesse lugar cheio de classe e fineza, tomei até vinho chileno (novamente um VRÁ na poker face de vocês).

Mas, sim, com tantas gordices e bebidinhas, acabei ganhando uns quilinhos desnecessários que comprometem o momento the edge of glory de tirar a camisa na praia com poder e sedução. Para alguém como eu, que já saiu de Jô Soares para Caio Castro (desconsiderem os extremos das duas partes, por favor), nada mais justo que ficar cismado com a borda que aparece na cintura (mesmo sendo de caturpiry, amores).

O que fazer? Ficar depressivo ouvindo músicas da Adele e comendo como a própria para inchar ainda mais? Não. Vender o meu corpo cabelo para conseguir grana e pagar uma boa academia? Também não. Aproveitei que chegou o verão, calor no coração, coloquei o único tênis que sobreviveu e fui correr na avenida. Todos os dias, depois do trabalho, eu tiro coragem não sei de onde e corro para o abraço e para a magreza.

Comecei a correr com amigos que falam para todos os mundos, todos os povos, todas as nações e todas as internets que ADOOOOORAMMM correr. Os argumentos vão desde os didáticos sonolentos (“libera endorfina”) até os mais deslumbrados (“me sinto a Globeleza no calçadão do Leblon”). Comigo não tem essa. Não gosto de correr. Vou por obrigação. Preferia estar em um bar. Ou jogado no sofá vendo séries. Ou na Igreja louvando e gritando Deus é fiel. Mas, não. Estou lá: correndo, suando e emagrecendo. Tudo para caber nas camisas M e nas calças 40. Imagina um mundo onde eu não caibo mais nas roupas que eu cabia e não encho mais a casa de alegria? Não dá.

O problema não é só correr. É qualquer atividade que faz o corpo gritar de dor (e tome Dorflex pra dentro). Sem mentira, a única atividade física que eu realmente gosto é fazer sexo nadar. Mas como é mais barato pagar uma prostituta mineira bilíngue do que pagar a mensalidade da Natação, não me resta outra saída. E não se enganem: corro para poder fazer gordices nos feriados e fins de semana.

Fato é que, gostando ou não, é importante fazer um esforço por motivos de: ficar saradão para rebolar no Axé Moi saúde. Tem também a sunga na praia, os elogios, aquela blusa vermelha que não ficava legal há séculos e a autoestima. E aí? Vamos para a malhação, que faz bem pro coração e o corpo fica igual a um violão?

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Uma banana para o José de Alencar

O telefone Nokia N73 tocou. Era um amigo querido da época de colégio que cismava em escrever “corassão”. Queria comprar um apartamento na cidade e estava pedindo opiniões a respeito dos bairros. Marcamos um almoço para matar a saudade e prosar. Além de investir em imóveis, ele acabou de trocar o carro antigo por um Ford Fusion e comprou um iPhone para a namorada. Ele mesmo não gosta de tecnologias e só tem um celular por causa dos trabalhos. A quem perguntar, sua vida está ótima, muito obrigado. Contou com orgulho que acabou de adquirir mais um caminhão e mais um pedaço de terra. Ele planeja, além de café, plantar tomate e feijão. Cresceu sem ao menos saber escrever “crescimento”. Ele mandou uma banana para o José de Alencar e começou a trabalhar na fazenda da família desde muito novo, aprendendo a diferença entre o café arábica e o conilon.

Ele não estava sendo arrogante. Só queria contar que ele conseguiu algo na vida, mesmo sem gostar da Coleção Vagalume (o meu vício da 5ª série). Queria mostrar para o antigo colega de sala, que o repreendia pela falta de estudos e que foi tentar ganhar o mundo na cidade grande, que a falta de interesse em C. S. Lewis era recompensada pela paixão por leilões de gado. Ele nunca sonhou com faculdade, só queria ajudar o pai na roça. Enquanto eu ficava com As Crônicas de Nárnia para cima e para baixo e me enfiava dentro da biblioteca para fazer os trabalhos escolares com a ajuda do Barsa, ele procurava meios de burlar a portaria ou pular os muros e fugir para bem longe de física e português.

Então, depois de me atualizar dos seus projetos, planos e sonhos (e fiquei realmente feliz), chegou o tenso momento em que ele queria saber de mim. O que aconteceu com o menino que só tirava 10 em redação no colégio da cidade pequena e era modelo para todos os professores? Fui vago e só respondi que estava bem, trabalhando duro e investindo em mais estudos. Mas eu deveria gritar o que estava engasgado na garganta. Deveria ter gritado que não tenho apartamento e também não tenho carro. Na verdade, não tenho nem um iPhone e, para ser ainda mais trágico, nem comprar um sorvete depois do almoço eu posso. Moro de aluguel e vivo numa luta diária para pagar as contas. Deveria ter contado a ele que os professores (que repetiam insistentemente que o estudo é a saída para o sucesso) estavam errados. Meus pais também estavam errados. Sempre empolgados e orgulhosos com minha paixão pelos livros da Agatha Christie (e a cada aniversário e Natal me presenteando com várias obras literárias), nunca se importaram em me levar para a roça e ensinar coisas úteis como arar a terra ou saber o momento certo de plantar e colher (verbos que só conheço através de poesias cafonas). Posso até trazer o João Cabral de Melo Neto, o Lima Barreto, o Saramago e o Jorge Luis Borges no coração, mas o que adianta se o bolso anda sempre vazio?

Cheguei ao meu apartamento minúsculo alugado, olhei para a estante de livros e, por um minuto, deu vontade de queimar tudo. Mas não tenho coragem. Não tem saída para mim. Se você ainda não se apaixonou por literatura, leitura, poesia e crônicas, corram para longe. Corram para bem longe. Larguem imediatamente os ensinamentos de Sartre e vão aprender coisas bem mais importantes para a vida: meios eficientes de burlar a portaria ou pular os muros da escola.

O saber na fogueira

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Peitos

Vocês devem ter visto o vídeo do Movimento Gota D’água com vários artistas falando sobre a Usina de Belo Monte. Tem até a Natasha, de Vamp, e o Tufão, de Avenida Brasil. Eu vi. Não entendi nada. Que sei lá eu sobre energia eólica. O que me chamou a atenção foi só uma coisa: a Maitê Proença tirando o sutiã de costas para a câmera. Alguns culpam o fracasso da campanha pela ignorância das celebridades em relação ao tema. Outros mais empolgados disseram que o vídeo é parte de um plano secreto da China e dos EUA para dominar o mundo. Eu acho que o Movimento não deu certo por um motivo mais simples, mais rasteiro: a Maitê Proença pirraça e não mostra os peitos para futuros engajados.

Os peitos acabaram recebendo uma função muito mais desafiadora do que pensam os meninos de 14 anos. Nos dias de hoje, nada, absolutamente nada, é mais revolucionário do que levantar a blusa e mostrar os peitos. Já tivemos protestos com assassinatos. Já tivemos protestos com faixas e cara pintadas. Já tivemos até protestos com músicas do Caetano. Agora é a vez dos peitos. Ninguém pode segurá-los.

ukanian-protest6 As ativistas ucranianas do Femen, organização feminina, aprenderam a protestar assim e não pararam mais. O governo planeja aumentar a idade de aposentadoria para as mulheres na Ucrânia? Peitos. O primeiro-ministro russo Vladmir Putin resolve aparecer pelo país? Mais peitos. O governo quer barrar todos os tipos de aborto? Peitos, peitos e peitos. Balançando e pintando os seios, elas pretendem não só mudar a Ucrânia, mas o mundo. Não tem muito tempo, mostraram mais peitos para prestar solidariedade a uma mulher saudita presa por dirigir um carro.

As brasileiras também aprenderam a protestar. Diferente de vocês que só ficam fazendo revolução com hashtag e a bunda pregada na cadeira, elas arrancaram a blusa para pedir o veto ao Código Florestal. Não precisa ser apenas peito bonito. Como bem mostrou a Marcha das Mulheres, que contou com cerca de cinco mil manifestantes lutando pela igualdade dos sexos, vale todo tipo de seio: farto, caído, pequeno, branco, preto, siliconado e com um assustador mamilo gigante.

Não dá para ficar parada e presa com o sutiã, enquanto o mundo está cheio de irregularidades. Os protestos balançando os seios já ganharam o mundo, mas fica a certeza que falta muito a ser feito. Acho que a Angelina Jolie poderia acabar com a fome do mundo usando os seus peitos. Com suas ajudas humanitárias e viagens para lugares exóticos, ela tira a fome de uma ou duas dezenas de meninos. Mostrando os peitos, toda hora e sempre que possível, ela ajudaria bem mais famintos. E, de quebra, ajudaria os viciados em Dragon Ball. Carolina Dieckmann quer combater os crimes da internet? Pois mostre mais peitos. E dessa vez sem vaso sanitário por perto. Deborah Secco quer mais privacidade em sua vida? Arranque o sutiã no calçadão de Ipanema. Suzana Vieira quer… Tá, chega de exemplos.

Fumar maconha, queimar pneus, elaborar poeminhas com rimas, espernear no megafone, criar gritos de guerra, pintar faixas e caras não funciona mais. Da próxima vez que pensar em protestar, você já sabe o que fazer: corra pelas ruas com os seios ao léu. Aprendeu, Maitê Proença?

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O surto e o papa-léguas

Já deve ter acontecido com você. Em uma noite qualquer, você deita na cama sem sono e, do nada, tem um daqueles surtos “minha vida está parada, estou estagnado, não tenho feito nada de produtivo por mim mesmo, todos estão crescendo e a coisa mais cara que tenho na vida é uma jaqueta que já está desbotando”. Uma sensação igual a de Janaína, do Biquíni Cavadão, que o “tempo não passou” e que “nada aconteceu”. Só que aqui, meu amigo, o tempo está passando. E você ainda não consegue se imaginar dirigindo um carro. Usado, que seja.

Engraçado que você não fica o dia todo jogado no sofá, sujo de salgadinho e rindo ou chorando sem parar na frente da televisão. Rindo, no caso, com o quadro do chapéu do Raul Gil. E chorando com o De Volta Pra Minha Terra, do Gugu. Você trabalha pra burro, poxa! Tenta se virar com dois empregos para pagar todas as contas. E se rolar algum texto para revisão ou uma assessoria dando sopa por aí, você até sacrifica o seu horário de almoço para ganhar mais alguns trocados. Afinal, você também precisa emagrecer e não sobra nem o dinheiro da academia.

Não é que você seja infeliz ou mal-agradecido. Você saiu da faculdade com emprego e isso já é muita coisa nos dias de hoje. Seu pai não é rico para você se dar o luxo de tentar um curso melhor ou pagar uma super especialização na Europa, então sorria e agradeça a todos os deuses possíveis o fato de que o aluguel está garantido – pelo menos este mês. E tem o extra mais do que incrível de você amar o que faz. Isso é importante, sabe? Pensa que você poderia passar anos se matando em uma faculdade para ser caixa do Bom Preço. Ou pior: vestir uma camisa “posso ajudar?” de qualquer comércio xis das esquinas.

Acontece que a vida não é fácil e virar gente grande é complicado. Você tem que se virar nos 30 (outro quadro de grande estímulo intelectual da televisão brasileira, a propósito) para pagar a conta de luz, comprar uma nova jaqueta e, não menos importante, bancar a cervejinha de sexta. E isso só vem com trabalho e dedicação. Hoje em dia nem os seus momentos de diversão e descontração podem ser desperdiçados. O mundo traz tantas possibilidades… Esses dias, eu tive o prazer de conhecer um cara que passou em primeiro lugar para uma seleção de mestrado com um projeto sobre Breaking Bad (o TCC foi sobre Game of Thrones), e já planeja alguma pesquisa envolvendo Criminal Minds. Isso é fantástico e só mostra que você tem que ser proativo e criativo até para ficar sujo de salgadinho, largado no sofá, com o notebook no colo.

O surto é normal. Ele aparece mesmo nos momentos de cansaço, falta de dinheiro ou quando algum plano não funciona. Mas ele não deve durar muito tempo. A recuperação tem que ser rápida. São tantas coisas para ler, escrever, revisar, entregar, postar. Tantos prazos para cumprir e tantas relações para manter e construir. Passado o momento súbito de depressão (com direito a música de Enya e você escorado na parede, descendo lentamente com lágrimas nos olhos), você tem que arredar o pé, abrir a janela e começar a subir os degraus (e já pode trocar a trilha sonora, por favor). O tempo é aquele esperto papa-léguas que você nunca conseguirá pegar com seus explosivos, catapultas e comprimidos de terremoto. Enquanto você tenta enganá-lo, ele passará por você mais rápido do que nunca e, de quebra, soltará um irritante bip-bip no pé da sua orelha. O fim todos nós sabemos: a armadilha, inevitavelmente, volta-se contra você. O jeito é ficar amigo do tempo e fazer dele um aliado nas suas escolhas, planos, projetos e sonhos. Não foi alguém que disse que nunca é tarde para começar? Pois é. Comece antes que você acabe com uma rocha de 60 toneladas na cabeça.

E também é certo que depois da noite fria vem um belo dia iluminado trazendo novos ventos, novas ideias e novas canções. É quando esquecemos toda a tolice de desistir, secamos as lágrimas e, igual a Janaína, a gente pensa que “um dia a gente há de ser feliz”. Claro: se a gente quiser.

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