Run!

O fim de ano foi de muita cerveja gelada, acarajé no prato, frango rasgado no dente durante a viagem e arroz de polvo. Sim: arroz de polvo. Sei que parece frescura um simples jornalista comer iguarias ricas, mas queria ser abusado e dar na cara dos recalcados. Essa loucura financeira teve um resultado desastroso: comer podrão todos os outros dias em barraquinhas de procedência duvidosa para compensar o rombo no restaurante que deixaria até a Glorinha Kalil boquiaberta. Nesse lugar cheio de classe e fineza, tomei até vinho chileno (novamente um VRÁ na poker face de vocês).

Mas, sim, com tantas gordices e bebidinhas, acabei ganhando uns quilinhos desnecessários que comprometem o momento the edge of glory de tirar a camisa na praia com poder e sedução. Para alguém como eu, que já saiu de Jô Soares para Caio Castro (desconsiderem os extremos das duas partes, por favor), nada mais justo que ficar cismado com a borda que aparece na cintura (mesmo sendo de caturpiry, amores).

O que fazer? Ficar depressivo ouvindo músicas da Adele e comendo como a própria para inchar ainda mais? Não. Vender o meu corpo cabelo para conseguir grana e pagar uma boa academia? Também não. Aproveitei que chegou o verão, calor no coração, coloquei o único tênis que sobreviveu e fui correr na avenida. Todos os dias, depois do trabalho, eu tiro coragem não sei de onde e corro para o abraço e para a magreza.

Comecei a correr com amigos que falam para todos os mundos, todos os povos, todas as nações e todas as internets que ADOOOOORAMMM correr. Os argumentos vão desde os didáticos sonolentos (“libera endorfina”) até os mais deslumbrados (“me sinto a Globeleza no calçadão do Leblon”). Comigo não tem essa. Não gosto de correr. Vou por obrigação. Preferia estar em um bar. Ou jogado no sofá vendo séries. Ou na Igreja louvando e gritando Deus é fiel. Mas, não. Estou lá: correndo, suando e emagrecendo. Tudo para caber nas camisas M e nas calças 40. Imagina um mundo onde eu não caibo mais nas roupas que eu cabia e não encho mais a casa de alegria? Não dá.

O problema não é só correr. É qualquer atividade que faz o corpo gritar de dor (e tome Dorflex pra dentro). Sem mentira, a única atividade física que eu realmente gosto é fazer sexo nadar. Mas como é mais barato pagar uma prostituta mineira bilíngue do que pagar a mensalidade da Natação, não me resta outra saída. E não se enganem: corro para poder fazer gordices nos feriados e fins de semana.

Fato é que, gostando ou não, é importante fazer um esforço por motivos de: ficar saradão para rebolar no Axé Moi saúde. Tem também a sunga na praia, os elogios, aquela blusa vermelha que não ficava legal há séculos e a autoestima. E aí? Vamos para a malhação, que faz bem pro coração e o corpo fica igual a um violão?

run

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Uma banana para o José de Alencar

O telefone Nokia N73 tocou. Era um amigo querido da época de colégio que cismava em escrever “corassão”. Queria comprar um apartamento na cidade e estava pedindo opiniões a respeito dos bairros. Marcamos um almoço para matar a saudade e prosar. Além de investir em imóveis, ele acabou de trocar o carro antigo por um Ford Fusion e comprou um iPhone para a namorada. Ele mesmo não gosta de tecnologias e só tem um celular por causa dos trabalhos. A quem perguntar, sua vida está ótima, muito obrigado. Contou com orgulho que acabou de adquirir mais um caminhão e mais um pedaço de terra. Ele planeja, além de café, plantar tomate e feijão. Cresceu sem ao menos saber escrever “crescimento”. Ele mandou uma banana para o José de Alencar e começou a trabalhar na fazenda da família desde muito novo, aprendendo a diferença entre o café arábica e o conilon.

Ele não estava sendo arrogante. Só queria contar que ele conseguiu algo na vida, mesmo sem gostar da Coleção Vagalume (o meu vício da 5ª série). Queria mostrar para o antigo colega de sala, que o repreendia pela falta de estudos e que foi tentar ganhar o mundo na cidade grande, que a falta de interesse em C. S. Lewis era recompensada pela paixão por leilões de gado. Ele nunca sonhou com faculdade, só queria ajudar o pai na roça. Enquanto eu ficava com As Crônicas de Nárnia para cima e para baixo e me enfiava dentro da biblioteca para fazer os trabalhos escolares com a ajuda do Barsa, ele procurava meios de burlar a portaria ou pular os muros e fugir para bem longe de física e português.

Então, depois de me atualizar dos seus projetos, planos e sonhos (e fiquei realmente feliz), chegou o tenso momento em que ele queria saber de mim. O que aconteceu com o menino que só tirava 10 em redação no colégio da cidade pequena e era modelo para todos os professores? Fui vago e só respondi que estava bem, trabalhando duro e investindo em mais estudos. Mas eu deveria gritar o que estava engasgado na garganta. Deveria ter gritado que não tenho apartamento e também não tenho carro. Na verdade, não tenho nem um iPhone e, para ser ainda mais trágico, nem comprar um sorvete depois do almoço eu posso. Moro de aluguel e vivo numa luta diária para pagar as contas. Deveria ter contado a ele que os professores (que repetiam insistentemente que o estudo é a saída para o sucesso) estavam errados. Meus pais também estavam errados. Sempre empolgados e orgulhosos com minha paixão pelos livros da Agatha Christie (e a cada aniversário e Natal me presenteando com várias obras literárias), nunca se importaram em me levar para a roça e ensinar coisas úteis como arar a terra ou saber o momento certo de plantar e colher (verbos que só conheço através de poesias cafonas). Posso até trazer o João Cabral de Melo Neto, o Lima Barreto, o Saramago e o Jorge Luis Borges no coração, mas o que adianta se o bolso anda sempre vazio?

Cheguei ao meu apartamento minúsculo alugado, olhei para a estante de livros e, por um minuto, deu vontade de queimar tudo. Mas não tenho coragem. Não tem saída para mim. Se você ainda não se apaixonou por literatura, leitura, poesia e crônicas, corram para longe. Corram para bem longe. Larguem imediatamente os ensinamentos de Sartre e vão aprender coisas bem mais importantes para a vida: meios eficientes de burlar a portaria ou pular os muros da escola.

O saber na fogueira

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Peitos

Vocês devem ter visto o vídeo do Movimento Gota D’água com vários artistas falando sobre a Usina de Belo Monte. Tem até a Natasha, de Vamp, e o Tufão, de Avenida Brasil. Eu vi. Não entendi nada. Que sei lá eu sobre energia eólica. O que me chamou a atenção foi só uma coisa: a Maitê Proença tirando o sutiã de costas para a câmera. Alguns culpam o fracasso da campanha pela ignorância das celebridades em relação ao tema. Outros mais empolgados disseram que o vídeo é parte de um plano secreto da China e dos EUA para dominar o mundo. Eu acho que o Movimento não deu certo por um motivo mais simples, mais rasteiro: a Maitê Proença pirraça e não mostra os peitos para futuros engajados.

Os peitos acabaram recebendo uma função muito mais desafiadora do que pensam os meninos de 14 anos. Nos dias de hoje, nada, absolutamente nada, é mais revolucionário do que levantar a blusa e mostrar os peitos. Já tivemos protestos com assassinatos. Já tivemos protestos com faixas e cara pintadas. Já tivemos até protestos com músicas do Caetano. Agora é a vez dos peitos. Ninguém pode segurá-los.

ukanian-protest6 As ativistas ucranianas do Femen, organização feminina, aprenderam a protestar assim e não pararam mais. O governo planeja aumentar a idade de aposentadoria para as mulheres na Ucrânia? Peitos. O primeiro-ministro russo Vladmir Putin resolve aparecer pelo país? Mais peitos. O governo quer barrar todos os tipos de aborto? Peitos, peitos e peitos. Balançando e pintando os seios, elas pretendem não só mudar a Ucrânia, mas o mundo. Não tem muito tempo, mostraram mais peitos para prestar solidariedade a uma mulher saudita presa por dirigir um carro.

As brasileiras também aprenderam a protestar. Diferente de vocês que só ficam fazendo revolução com hashtag e a bunda pregada na cadeira, elas arrancaram a blusa para pedir o veto ao Código Florestal. Não precisa ser apenas peito bonito. Como bem mostrou a Marcha das Mulheres, que contou com cerca de cinco mil manifestantes lutando pela igualdade dos sexos, vale todo tipo de seio: farto, caído, pequeno, branco, preto, siliconado e com um assustador mamilo gigante.

Não dá para ficar parada e presa com o sutiã, enquanto o mundo está cheio de irregularidades. Os protestos balançando os seios já ganharam o mundo, mas fica a certeza que falta muito a ser feito. Acho que a Angelina Jolie poderia acabar com a fome do mundo usando os seus peitos. Com suas ajudas humanitárias e viagens para lugares exóticos, ela tira a fome de uma ou duas dezenas de meninos. Mostrando os peitos, toda hora e sempre que possível, ela ajudaria bem mais famintos. E, de quebra, ajudaria os viciados em Dragon Ball. Carolina Dieckmann quer combater os crimes da internet? Pois mostre mais peitos. E dessa vez sem vaso sanitário por perto. Deborah Secco quer mais privacidade em sua vida? Arranque o sutiã no calçadão de Ipanema. Suzana Vieira quer… Tá, chega de exemplos.

Fumar maconha, queimar pneus, elaborar poeminhas com rimas, espernear no megafone, criar gritos de guerra, pintar faixas e caras não funciona mais. Da próxima vez que pensar em protestar, você já sabe o que fazer: corra pelas ruas com os seios ao léu. Aprendeu, Maitê Proença?

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O surto e o papa-léguas

Já deve ter acontecido com você. Em uma noite qualquer, você deita na cama sem sono e, do nada, tem um daqueles surtos “minha vida está parada, estou estagnado, não tenho feito nada de produtivo por mim mesmo, todos estão crescendo e a coisa mais cara que tenho na vida é uma jaqueta que já está desbotando”. Uma sensação igual a de Janaína, do Biquíni Cavadão, que o “tempo não passou” e que “nada aconteceu”. Só que aqui, meu amigo, o tempo está passando. E você ainda não consegue se imaginar dirigindo um carro. Usado, que seja.

Engraçado que você não fica o dia todo jogado no sofá, sujo de salgadinho e rindo ou chorando sem parar na frente da televisão. Rindo, no caso, com o quadro do chapéu do Raul Gil. E chorando com o De Volta Pra Minha Terra, do Gugu. Você trabalha pra burro, poxa! Tenta se virar com dois empregos para pagar todas as contas. E se rolar algum texto para revisão ou uma assessoria dando sopa por aí, você até sacrifica o seu horário de almoço para ganhar mais alguns trocados. Afinal, você também precisa emagrecer e não sobra nem o dinheiro da academia.

Não é que você seja infeliz ou mal-agradecido. Você saiu da faculdade com emprego e isso já é muita coisa nos dias de hoje. Seu pai não é rico para você se dar o luxo de tentar um curso melhor ou pagar uma super especialização na Europa, então sorria e agradeça a todos os deuses possíveis o fato de que o aluguel está garantido – pelo menos este mês. E tem o extra mais do que incrível de você amar o que faz. Isso é importante, sabe? Pensa que você poderia passar anos se matando em uma faculdade para ser caixa do Bom Preço. Ou pior: vestir uma camisa “posso ajudar?” de qualquer comércio xis das esquinas.

Acontece que a vida não é fácil e virar gente grande é complicado. Você tem que se virar nos 30 (outro quadro de grande estímulo intelectual da televisão brasileira, a propósito) para pagar a conta de luz, comprar uma nova jaqueta e, não menos importante, bancar a cervejinha de sexta. E isso só vem com trabalho e dedicação. Hoje em dia nem os seus momentos de diversão e descontração podem ser desperdiçados. O mundo traz tantas possibilidades… Esses dias, eu tive o prazer de conhecer um cara que passou em primeiro lugar para uma seleção de mestrado com um projeto sobre Breaking Bad (o TCC foi sobre Game of Thrones), e já planeja alguma pesquisa envolvendo Criminal Minds. Isso é fantástico e só mostra que você tem que ser proativo e criativo até para ficar sujo de salgadinho, largado no sofá, com o notebook no colo.

O surto é normal. Ele aparece mesmo nos momentos de cansaço, falta de dinheiro ou quando algum plano não funciona. Mas ele não deve durar muito tempo. A recuperação tem que ser rápida. São tantas coisas para ler, escrever, revisar, entregar, postar. Tantos prazos para cumprir e tantas relações para manter e construir. Passado o momento súbito de depressão (com direito a música de Enya e você escorado na parede, descendo lentamente com lágrimas nos olhos), você tem que arredar o pé, abrir a janela e começar a subir os degraus (e já pode trocar a trilha sonora, por favor). O tempo é aquele esperto papa-léguas que você nunca conseguirá pegar com seus explosivos, catapultas e comprimidos de terremoto. Enquanto você tenta enganá-lo, ele passará por você mais rápido do que nunca e, de quebra, soltará um irritante bip-bip no pé da sua orelha. O fim todos nós sabemos: a armadilha, inevitavelmente, volta-se contra você. O jeito é ficar amigo do tempo e fazer dele um aliado nas suas escolhas, planos, projetos e sonhos. Não foi alguém que disse que nunca é tarde para começar? Pois é. Comece antes que você acabe com uma rocha de 60 toneladas na cabeça.

E também é certo que depois da noite fria vem um belo dia iluminado trazendo novos ventos, novas ideias e novas canções. É quando esquecemos toda a tolice de desistir, secamos as lágrimas e, igual a Janaína, a gente pensa que “um dia a gente há de ser feliz”. Claro: se a gente quiser.

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Patif

“Uhu! Eu sou o novo Leonardo da Vinci! Uhu! Eu sou a nova Lady Gaga!”

O Patife tem andado esquecido. Não vou culpar trabalhos, projetos e botecos. Foi um misto de falta de assunto e de criatividade. E também aprendi com o twitter que você não precisa mais do que 140 caracteres para comentar alguma coisa. O resto é enrola, bloguice, ou – pior! – paulocoelhismo. Mas aconteceu uma coisa engraçada com o blog que queria comentar com vocês.

Há algum tempo, recebi um e-mail de um cara de Portugal. Ele deu de cara com o blog por acaso, googlando para cima e para baixo. Estava desesperado e triste. Procurava uma luz, uma saída, qualquer coisa que o ajudasse a resolver uma pendenga emotiva e financeira. Encontrou essa página. Resolveu o problema. Sou o novo Leonardo da Vinci. Se eu sou o novo Da Vinci, o português só pode ser o meu Dan Brown. Minha obra o ajudou a resolver enigmas, emoções e, de quebra, pode render uns bons trocados. E não precisei de nenhum texto para isso. Inspirei-o apenas com o nome do blog: Um Patife Adorável.

Explico. Há 30 anos, o português iniciou um projeto de ensino de Inglês que levou o nome de IF – Inglês Funcional. Todos conheciam o projeto como IF. Era um projeto voltado para crianças, e ele teve a ideia de criar um personagem para melhorar a comunicação. Criou um pato: grande, cabelo espetado, desastrado. Faltava o nome. Como era o pato do IF, ficou Patif. Mostrou-se um sucesso. Um grande sucesso. O português pegou amor pelo pato. Amor de pai, como ele mesmo me descreveu.

O problema: o pato ganhou o mundo e surgiu a oportunidade do projeto ser lançado por aqui, no Brasil. Só que os brasileiros envolvidos alertaram o português (que não se chama nem Manoel e nem Joaquim e, sim, Agostinho) que o nome Patif seria impossível de usar por essas bandas, porque de modo algum poderia ser associado ao mundo infantil. Mesmo sem “e” no final? Sim. Disseram que não tinha jeito mesmo e que, no Brasil, patife é patife mesmo. E aconselharam-no a mudar para Patito. Claro que uma ideia assim só poderia partir de professores de Magistério que participam de semanas pedagógicas, com infinitas dinâmicas e poemas de Paulo Freire.

Agostinho ficou desolado. Mais do que o pato, ele adorava o nome. Sem contar na enorme despesa que uma mudança assim acarretaria. Mandou-me um e-mail enorme. Comentou que leu todos os meus textos (achou realmente adorável e elogiou muito), e pedia um conselho: ele deveria insistir em lançar o pato com o nome “Patif” e arriscar que o carisma do personagem ofuscaria o nome ou seria melhor mudar tudo para evitar um fiasco? Não respondo e-mails, mas esse eu fiz uma questão enorme de responder. Peguei amor pelo pato também (não posso publicar, mas ele me mandou um vídeo em que o Patif flerta com uma loira linda e – acreditem! – eu vi algo de Vadinho, do Jorge Amado, nele). Contei para o português a prosa ruim que estava rolando no momento: um deputado que queria proibir o filme TED, porque tinha um urso de pelúcia fumando. Expliquei que é normal os brasileiros criarem certa resistência ao nome, por conta de um terceiromundismo enraizado e cansado. E, claro, defendi para sempre Patif. Patif tem nome de pato inteligente, esperto, de sorriso fácil, divertido, piadista, moleque, inquieto. Patito é a cara do abestalhado, pateta, tabaréu, bocó. Patif é Saramago. Patito é Cora Coralina. Se o Patif tem algo que lembra Vadinho, o Patito teria algo de Marcos Frota vestido de palhaço.

Ontem chegou mais um e-mail do Agostinho, contando sua decisão. Ficou Patif e Patif sempre será, “em Portugal, no Brasil, na África ou no Japão”. Disse que acredita que todo mundo tem um pouco do Patif dentro de si, e quem conseguir admitir essa alma de patife vai adorar o pato. A vitória de Patif em cima de Patito faz a gente acreditar que o mundo ainda tem salvação. Estou realmente comemorando. Sou a nova Lady Gaga. Se eu sou a nova Gaga, o Patif só pode ser o meu Obama. A cantora usou seu twitter para comemorar a vitória do presidente democrata. Eu? Ressuscitei meu blog com a incrível história (e vitória) de um adorável pato chamado Patif.

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Doce e dente de leite

Lembro de um cheiro gostoso de doce de leite, de uma porta com ferrolho e cordinha, de uma janela que era o portal da casa para a rua. Lembro de uma imagem gigante de Nossa Senhora Aparecida com as unhas pintadas de vermelho, da farofa de andu, do pé de goiaba. Lembro do medo de ir sozinho ao quintal no escuro, dos antigos ditados e crenças, de uma canção do Toquinho.

Lembranças de uma época de retratos e fotografia em caixas de sapato, de um tempo em que as maiores obrigações eram comprar o pão e jogar o lixo para fora, de quando não havia dúvidas de que os sonhos de menino seriam realizados.

Lembro daquele acidente de bicicleta, da perna engessada com vários recadinhos, de um banho de chuva e lama. Lembro dos puxões de orelha, dos assaltos de doces na geladeira pela madrugada, dos aniversários com chapeuzinho e língua de sogra. Lembro do choro para viajar na caçamba do caminhão, dos dentes de leite que iam embora com a ajuda de linha e maçaneta, dos ensaios de quadrilha.

Lembranças de uma época em que as nuvens contavam histórias fabulosas e desenhavam coisas do futuro, de um tempo em que os trabalhos de escola eram feitos com ajuda de livros antigos e escritos à mão, de quando os joelhos sempre estavam cheios de arranhões.

Lembro que a pequena mesada ia todo para a menina que vendia balas, do jornalzinho, das brincadeiras inventadas. Lembro do dia em que as boias de braços foram para o lixo, das danças nas gincanas, do primeiro beijo. Lembro das peças e do coral na igreja, das aulas de datilografia, do aniversário da cachorra.

Lembranças de uma época de mesa lotada de comida e gente, de um tempo em que a maior preocupação era conseguir fazer curva com os patins deslizando, de quando não sabia se era dia de lavar o cabelo na hora do banho.

E aí veio o tempo, com sua velocidade desmedida, atropelando tudo. E hoje sou gente grande – com grandes obrigações e preocupações. O doce de leite ficou enjoativo, as unhas da Nossa Senhora estão mais desbotadas do que a minha fé e uma das certezas da vida é que quero distância das caçambas de caminhão. Não lembro mais dos passos de quadrilha, o Google substituiu a coleção Barsa e os almoços perderam a fartura – de comida e de gente. As nuvens são apenas sinais de alerta para recolher as roupas do varal, os ditados ficaram esquecidos e os arranhões nos joelhos foram embora com os dentes de leite.

Dizem que ainda sobraram resquícios do sorriso infantil e que ainda tenho a alegria boba de criança quando ganho um presente. Acho que ainda tem duas ou três caixas de sapato com alguns retratos no velho armário do quarto de bagunça que já foi um fantástico quarto de brinquedos. Mas que sei lá eu. A única coisa que eu realmente sei que nunca foi embora e continua aceso aqui, dentro de mim, são os sonhos de menino. E é nesses momentos – apenas quando me lembro deles – que deve surgir o mais agradável e infantil dos sorrisos.

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O choro de Caio Fernando Abreu

Hoje as cortinas se abrem para um monólogo. E eu, muito humildemente, só queria apresentar para vocês o Caio Fernando Abreu que eu conheço.

O Caio tinha alma de gay ousado. Arrisco dizer que era mais do que isso, mas não consigo pensar em um termo adequado para situação. Talvez bicha promíscua, mas sinto que a alcunha não seria bem recebida pela plateia. Mas não dá para negar: sua áurea era colorida e seus sentidos eram femininos. A angústia do Caio, diga-se, chegava a ser angustiante. E todo seu melodrama era sintomático dos seus gritos sufocados pelo desejo de mostrar-se verdadeiro – coisa que ele nunca conseguiu, de fato. E chorou.

Poeta é aquele que chora.

Imagino a tristeza com que ele escreveu Aqueles Dois – crônica bonita sobre dois homens que se apaixonam depois de uma frustrada vida heterossexual. Os caras, nas palavras do Caio, são sérios, comportados, um tanto tímidos, um tanto cultos, um tanto lindos. Sonho do Caio ter sido assim – e encontrado alguém assim. Os protagonistas usaram a solidão de um e a solidão de outro para que viessem dias de sorrisos. O Caio Fernando Abreu não conseguiu, até o fim da vida, aplacar o deserto que habitava sua alma. O que ele conseguiu foi uma HIV, que potencializou suas lágrimas, seu desespero e seu desprezo.

Poeta é aquele que chora.

Pobre do Caio. Um de seus textos mais pungentes, Pela Noite, fala de como a tribo gay é um gueto atolado de pessoas com os mesmos gostos e mesmo palavreado que aparenta (apenas aparenta) exclusividade. E segue dizendo que a própria palavra gay é uma “sacralização da bobagem”. O Caio não se encaixava. Ele não escandalizava. Disse que se inspirou mais em Cazuza e Rita Lee do que em Guimarães Rosa, mas nunca conseguiu gritar suas condições, opções e erros. Mas não precisava. Como Vinícius, a biografia e bibliografia do Caio informam o mesmo comportamento. E não se engane: é uma literatura de quarentão solitário homossexual, que não conseguiu conviver com seus desejos, seu verdadeiro eu e todos os eus que inventou – para o espelho, para os amigos escritores, para a família. E se lamentava. Afinal, como ele escreveu: “Só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais”.

Poeta é aquele que chora.

Tudo em Caio era dor, angústia, saudade, desejo, punição, culpa, mentira. E tudo virou poesia – algumas boas, outras ruins. Ele tentou tanto esconder sua natureza e hoje sua literatura é considerada apenas gay – palavra que ele sempre recusou. Apenas. Sem margens para outras interpretações. Como disse a escritora Márcia Denser em uma homenagem ao centenário do escritor, “a visão, a manutenção do ponto de vista dum narrador exclusivamente homossexual restringe, limita e aprisiona o grande artista”. O Caio foi tudo isso: restrito, limitado, aprisionado, grande artista. E, claro, homossexual – daqueles que querem, em vão, esconder o que está transcendendo. Uma vez, numa carta, aconselhou o jornalista Luiz Fernando Emediato a se cuidar mais e não se expor demais. “A gente é muito frágil e eles são muito fortes”, explicou Caio.

Poeta é aquele que chora.

Hoje, o Caio F. Abreu faz sucesso. E sua literatura balizada não é mais vista assim. Ele deixou de ser o cara da literatura gay (esse termo é odioso, ou a literatura é boa ou ruim). Agora ele é o poeta da menina que foi traída, do cara que nunca leu um livro na vida, da pré-adolescente que adora modismos. O choro de Caio virou choro barato nas mídias sociais, virou poesia de mesa de colégio e pieguice de poltrona de ônibus. As dores, as recusas e a solidão de Caio se transformaram em chacota, em pára-choque de caminhão. O novo Caio F. Abreu que vinga pelas mídias sociais afora não me interessa muito. A galera do Facebook pode ficar com ele.

Poeta é aquele que chora. Então chore, Caio. Porque é tua a emoção.

Cai o pano.

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Sobre Machado, preconceitos e cultivo de jardim

Como Macunaíma, Machado de Assis nasceu negro e foi ficando branco à medida que se afastava de sua origem. Nascido no sofrível Morro do Livramento, o mulato, filho de pintor de paredes e lavadeira, foi parar, confortável e esbranquiçado, no bairro elitista de Cosme Velho.

Não sei se Machado gostaria que alguém se lembrasse da sua mulatice. Temo que não. Ele iria considerar rasteiro. Apelativo. Se for para falar de Machado, vamos falar de sua incrível genialidade. Mas hoje – só por hoje – vou precisar apelar para o cansado assunto do racismo para esse texto. Prometo ser a última vez. Todo mundo sabe que Machado de Assis foi um negro que repudiou sua origem. Um negro que ganhou absurda importância nacional e se absteve de se posicionar politicamente numa época em que a Abolição era debatida. Um negro que se rendeu à arte literária europeia. Um negro que só dispensava aos negros papéis sofridos e resignados em seus livros.

Numa crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888, seis dias após a Abolição da Escravatura, Machado falou da questão, abordando o tema com o tom mais sarcástico que coube: “juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha”. Narrou o momento em que restituía liberdade ao seu escravo Pancrácio durante um banquete: “Fiz discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo”.

Com fina ironia, de fazer inveja a Jonathan Swift, Machado contou que a liberdade fez bem ao moleque, que por pequenos trocados aceitava petelecos, pontapés, puxões de orelhas e apelidos humilhantes. O escravo continuava escravo, mas agora ganhava um pequeno ordenado. Nosso ilustre escritor sabia, desde aquela época, que a Abolição sozinha não resolveria a questão. No fim da mesma crônica, Machado pesa o tom de blague: “O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda gente que dêle teve notícia”. Colocando uma lupa nisso tudo, a impressão é que Machado de Assis era um ser desprezível. Mas a verdade é que o autor só tinha compromisso com sua cabeça e seu futuro glorioso.

O movimento negro sempre lutou para que os negros se orgulhassem de sua cor. Machado, não. Ele era o inverso de Castro Alves, o poeta dos escravos. Arrisco dizer que ele acharia uma patetice todas essas ações afirmativas, a política de cotas e certeza que zombaria de um Dia Nacional da Consciência Negra, com extenuantes homenagens a Zumbi. Tudo isso caracteriza uma única raça, um único povo, uma única cor. Machado não achava que o conceito de raça tivesse alguma relevância. Ele pensava mais. Ele pensava além.

Machado de Assis não disfarçou sua cor por conta de racismo ou repúdio aos seus antepassados. O motivo é muito mais simplista: a família de sua mulher portuguesa fez restrições ao casamento por motivos raciais e os amigos poderosos e políticos em que o autor se apoiou eram todos brancos. Naquela época, o mestiço ainda era visto como um ser inferior. Machado repudiava qualquer espécie de preconceito, mas precisava pautar o Estado e os ricos que frequentavam teatro e liam compulsivamente. Não nos enganemos: nosso mais ilustre escritor foi pelego quando precisou ser, bajulou quem precisava ser bajulado e foi o incentivador – quiçá o inventor – dos sorrisos e elogios falsos que pairam na Academia Brasileira de Letras.

A posição sensata de Machado de Assis está em Esaú e Jacó, livro de 1904: “Abolição é a aurora da liberdade; esperamos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco”. Lógico. Ele entendia a miséria social não só como um problema do negro, mas também do branco pobre e marginalizado. Machado tinha a consciência negra, branca, brasileira, mundial, mulata e amarela. É muito bonito hastear faixas para Zumbi dos Palmares e cartazes com frases de Castro Alves, mas o combate necessário é contra o preconceito financeiro – e esse só será extinto de acordo o esforço de cada um. Veja bem: o mulato filho de lavadeira e pintor de paredes se tornou a maior referência da literatura brasileira. Como disse Voltaire, é preciso que cada um cultive o seu jardim.

Machado foi um homem muito esperto, mas acho que ele imaginou que no século próximo ao seu não existiriam essas demagogias desnecessárias e que a busca pessoal pela ascensão superaria qualquer preconceito. Mas a verdade é que não há busca. O rico não busca. O pobre não busca. E todos vivem nesse eterno conformismo, compartilhando montagens toscas com frases piegas enaltecendo as minorias nas mídias digitais . Sobre Machado de Assis resta dizer que ele não foi apenas um homem a frente do seu tempo. Ele é um homem muito a frente do nosso tempo.

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Histórias de pescador

O turista chegou, sentou na roda de pescadores, pegou uma água e ouviu histórias de rostos e nomes desconhecidos da pequena aldeia. Estava um pouco cansado e parecia agradável saber de uma vida da qual não pertencia.

De Catarina diziam ser uma apaixonada por navios. Uma faceira, sorridente e impaciente, que odiava ficar esperando no porto. Desde menina achava-se muito esperta e dizia saber tudo sobre o mar. Não havia sossego, havia espera e agonia. Olhar para o horizonte era mais do que um desejo, era uma sina. Sua sede de velejar era tão grande, que nunca conseguiu se apaixonar perdidamente por apenas um barco. Nunca, de fato, soube ser tripulante fiel. Abandonava o navio e chegava com histórias de grandes tempestades e rachaduras violentas. Mas o boato que corria de Catarina era que ela sempre fora a responsável pelos desastres – costumava boicotar sua própria tripulação assim que avistava outra âncora. Estava sempre disposta a pegar o bote. Sempre disposta a pular fora. Sem nenhum respeito. Não era sossegada na terra, mas também não se aquietava no mar. Às vezes, depois de rodar por outros navios, pedia abrigo nos velhos barcos que nunca a abandonaram – mesmo com todas as trapaças. Típico dela – dizia o velho pescador – enganar boas pessoas e digníssimos navios com o seu sorriso falso e encantador. Os mais justos acreditavam (e torciam) que um dia – quem sabe um dia – ela seria punida por tanta falta de cumplicidade. E ficaria no porto, sozinha, implorando uma vaga para os conhecidos capitães que um dia humilhou.

Como Julião era diferente, costumava dizer o mais robusto dos pescadores. Ele tinha tanto medo do mar. Gostava de sonhar com o dia em que velejaria por águas calmas, é bem verdade. Mas era metódico demais, pensativo demais, receoso demais. Quantos barcos legais foram embora e ele não se jogou sem pensar? Vezes demais. Todos gostavam da simpatia de Julião, mas temiam pelo seu futuro. Era um moço tão agradável, mas temia a tudo e a todos. Desconfiava da procedência dos barcos e tinha mania de análises detalhadas. O que ele desconhecia, todos comentavam, é que o navio perfeito nunca iria chegar. Por mais que esperasse, nunca iria aparecer. E ele – que tolo! – já chegava procurando os defeitos, ao invés de se focar nas qualidades. Não entendia que, talvez, tudo que as falhas precisavam era do seu afago… Coitado do Julião – tão bonito e tão sozinho. Os barcos já estavam cansados de procurá-lo. E o medo de sua família conservadora era apenas um: que ele ficasse para a sempre a ver navios…

Mas todas as fofocas da vez eram sobre Rosali. Há algum tempo aventurou-se dentro de uma canoa furada e nada que fizesse dava conserto. Não era por falta de tentativa. A moça sempre foi esforçada e dedicada. Insistia em uma canoa que, todos notavam, não tinha jeito (no fundo, ela própria sabia). Quantas moças já tinham desistido de velejar naquele traste? Quantas tentaram sem sucesso algum? Talvez por apego, quiçá pelo tempo, Rosali persistia. Inutilmente. Não era por falta de aviso. Todos queriam o melhor para ela e a alertavam sobre o barco furado e inútil – que, aparentemente, só queria afundar pessoas junto com ele. Alguns tentaram tirar a moça à força, mas nada adiantava. Ela acreditava piamente – e inocentemente – que todo seu esforço seria recompensado. O movimento era único, repetitivo e cansativo: com o balde na mão, ficava retirando toda a água que entrava. Um dia ela iria cansar, claro. Mas o que seria de Rosali? Ela conseguiria abandonar o barco errado ou seu destino seria morrer afogada?

Depois de comentarem a vida dos jovens da aldeia, cada pescador suspirava e lembrava, com um arrombo de saudade, do mar daqueles tempos – um mar que era cheio de respeito, de amor e que o ato de jogar a rede era coisa séria. Naqueles tempos, diziam, era difícil abandonar um barco. Subir a bordo para enfrentar esse grande mar da vida, significava virar um fiel tripulante pronto para enfrentar os dias de chuva grossa – juntos – e não só colher os belos dias de sol – juntos.

O relógio chamou o turista. Ele se despediu. Os rostos de Catarina, de Julião e de Rosali tinham ganhado formas, cores e expressões. Antes de entrar no carro, olhou para o mar e lembrou-se de algumas viagens inesquecíveis: um passeio rápido em uma linda canoa, uma viagem em um grande navio, um dia de sufoco em um barco perdido. Percebeu que não havia uma fórmula para navegar. Mas que era importante levar o respeito, a diversão e a dignidade. Uma bússola também não faria mal, para voltar quando tudo começasse a desandar. Entrou no carro e partiu. Sem antes, claro, corrigir o poeta: navegar é realmente preciso. Mas é preciso fazer viagens alegres. É imprescindível carregar na mala um bocado de amor próprio, a segurança de que não se deixará cair no fundo do poço e um monte de um tanto de sorrisos.

Já em casa, o turista pensou na vida dos três jovens e na saudade dos pescadores. Não entendeu. Para ele, afinal, não importa muito se vai pegar o barco ou ficar no porto, se vai fazer uma aventura em um domingo chato ou velejar pela eternidade e um dia a mais. O que importa é se divertir. E trazer das viagens sorrisos, lembranças e sabedorias para os próximos passeios. E aí quem sabe – um dia, nesse marzão imenso – não aparece vontade de ficar ali para sempre.

O resto, meu caros, é história de pescador.

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Construindo preciosidades

Durante o percurso do ônibus, escorava a cabeça na janela, pouco se importando com a sujeira acumulada, e imaginava o seu mundo perfeito. Desenhava cenários, escrevia os diálogos e escolhia a trilha sonora. Nas madrugadas de pouco sono, encolhia-se no escuro, pouco se importando com o fato de que trabalharia cedo no dia seguinte, e criava realidades paralelas. O que teria acontecido se a escolha fosse outra? Como estaria? O que tinha atrás das outras portas? Quando entrava no chuveiro, saboreava demoradamente a água caindo pelo corpo, pouco se importando com a falta de chuva e o racionamento, e construía seu próprio destino. Sabia que nada era previsível e que todo trabalho era em vão, mas gostava de sonhar.

Ele sempre teve um sorriso e uma piada, mas só serviam para esconder os medos e segredos. Além disso, por vida foi inconformado, insatisfeito e descontente. E, por isso mesmo, imaginava, criava, construía. Descobriu desde cedo que, realmente, só os idiotas são felizes. E que, feliz ou infelizmente, a insatisfação não gera mudanças, mas cria preciosidades.

Pierre Verger não conseguiu mudar o seu mundo, então descobriu a viagem e foi fotografar. Sempre inconformado, sempre com uma mochila nas costas, sempre buscando respostas através das lentes. Não firmava raízes e não almejava holofotes. Queria ver tudo, ver todos, para tentar entender e, principalmente, inserir-se em algum lugar. Com certeza não conseguiu nenhum dos dois.

John Lennon queria apenas ser feliz. Como não era um idiota, não conseguiu. Foi fazer música para fugir dos medos, das dores do mundo, do descontentamento com as pessoas. Não conseguiu fazer um mundo onde não houvesse fome e nem guerras religiosas, mas – quem sabe em uma madrugada de insônia – imaginou. Ele assoviou, escreveu, cantou e divulgou para milhões a vida que queria.

Almodóvar sempre foi diferente. Não tinha dinheiro. A educação religiosa só serviu para perder a fé em Deus. E não conseguia ser livre, liberto, libertino. Pegou seus medos e suas roupas, jogou dentro das malas e foi aprender a fazer filme. Em suas obras, tenta contar muito do que viveu, aprendeu e sonhou. Nas telonas, através dos olhos (sonhadores) de Pedro Almodóvar, a hipocrisia religiosa homossexual foi punida e as mulheres – todas – têm seu lugar ao sol. No roteiro da vida – essa boba que não sabe seguir quem pensa bonito – a realidade é outra…

A insatisfação, ora, não gera mudanças. Mas cria preciosidades.

Mas, voltemos a ele, que longe do vidro do ônibus, deixava a realidade bater na cara e mostrar que não dá simplesmente para mudar o (seu) mundo com imaginação, desenhos e belas trilhas sonoras. E quando a realidade da vida chega crua e insensível, inacreditavelmente ele consegue sorrir. Afinal, mesmo sem fotografias incríveis, músicas nas rádios e filmes em Hollywood, ele sempre trazia lápis, papel, inconformismo e sonhos de chuveiro.

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