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Amor entre quatro paredes

Que contestem os bobocas apaixonados, mas importante mesmo na relação é o sexo. Sim: SEXO. É a pele que define onde está o teu coração, as tuas vontades e as tuas loucuras. No fundo, não importa muito se os dois amam Harry Potter, canções do Nando e passeios nas montanhas. É muito legal compartilhar coisas lindas, mas se o toque dele não fizer o teu corpo sentir arrepios, se o beijo dele não te tirar do chão, se aquele cheiro no cangote não te fizer sentir vontade de morder a fronha de tanto prazer, não adianta.

Se o peito dele não for a tua morada, não é amor.

Andar de mãos dadas pelas ruas da cidade, dividir o mesmo pote de sorvete de flocos e discutir os filmes do Kubrick são coisas que encantam e fazem sorrir. Mas o que vai te fazer delirar é o jeito desarrumado e torto que ele vai arrancar a tua blusa e te jogar na cama. Poesias, recadinhos na geladeira, SMS todas as manhãs, bilhetinhos dentro do teu livro preferido… Nada disso se compara ao êxtase e tremor que você vai sentir se a língua dele souber explorar cada parte do teu corpo.

Se o abraço dele não te levar aos céus, não é amor.

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E é por isso que a Mônica quis o Eduardo e a Julieta quis o Romeu: o fogo que percorre cada partícula do ser e nos faz esquecer todas as razões. Que importa se ele faz aulinhas de inglês, não sabem quem é Godard, e joga futebol de botão com o avô? Toda a tua medicina e o teu alemão não serão suficientes para explicar o que acontece quando alguém te completa na cama. Como feijão com arroz. E os teus pais nunca entenderão os motivos que podem te levar a preferir aquele cafajeste ao educado moço que chega com flores e fala mansa. O buquê e o cavalheirismo são delicados e tudo o mais, mas nada causam quando o buraco é mais embaixo.

Se o simples anúncio da chegada dele não te deixar toda boba, não é amor.

Você pode brigar pela ausência de declarações românticas, implicar com a toalha molhada jogada na cama, e se chatear com a impaciência na hora de te esperar para um encontro. Ele pode não perceber o teu novo cabelo, não ler os teus textos e não te acompanhar nos eventos sociais. E, mesmo com tudo isso, você vai perdoá-lo se o primeiro sorriso de canto de boca tão descarado acordar todas as borboletas do teu estômago. Simplesmente porque o cara que te completar não vai precisar visitar o teu blog para ler tuas maiores vontades.

Se o beijo dele não conseguir calar tuas frustrações, não é amor.

Gostar das mesmas coisas é adorável, mas não é essencial. Os amigos estão aí para decidir contigo qual é a melhor casa de Hogwarts, o melhor filme da Nouvelle Vague, e a música mais linda do MTV acústico do Nando Reis. Os amigos… Esses lindos que a gente ama de um jeito todo especial. E então eu te pergunto: qual a diferença no amor que você sente pelos teus queridos amigos companheiros de filmes, pipoca e guaraná, e do homem que você quer ao seu lado para chamar de teu? Sim, os sussurros, os gozos, os suspiros. Sexo.

Porque é na cama, entre quatro paredes, que você vai sentir o amor.

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Bukowski, Rubem e a faxineira

A velha senhora resmungava impaciente enquanto limpava o escritório do Sr. Bukowski. Estava cansada de recolher garrafas vazias e papéis jogados por todo o canto. E os livros do Dostoiévski? Quanto mais ela limpava, mais eles pareciam empoeirados. O escritor e a faxineira nunca tinham trocado grandes palavras. Eram de mundos completamente opostos. Ele, sempre sozinho nos seus livros, nas suas doses e na sua fumaça. Ela, sempre com o espanador. Mas hoje, milagre dos deuses, o velho estava acompanhado. Pelo que ela pôde entender, era outro escritor que veio dos confins para bater um papo. Outro velho. Sem a cara safada e cínica do Bukowski, mas daqueles senhores com uma alma azul que a gente simplesmente quer abraçar. Era o Rubem Alves, poeta com jeito de menino que consegue ver o mundo em um grão de areia. A mulher nunca ligava para as coisas do patrão, mas ficou curiosa com aquela visita e demorou-se um pouco mais no escritório para ouvir o papo.

“Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse?”, perguntou Bukowski.

“Nós amamos a pessoa não pela beleza que existe nela, mas pela beleza nossa que nela aparece refletida”, argumentou o Rubem, visivelmente incomodado com a fumaça do charuto do contista alemão.

“É isso! A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. O amor é uma espécie de preconceito”, retornou Bukowski, dizendo a mesma coisa do poeta brasileiro, mas sem abusar do lirismo poético do colega.

“Será possível, então, um triunfo no amor?”, indagou o Rubem, um pouco preocupado por perceber que ele falava a mesma língua do farrista à sua frente e tudo era questão de semântica.

“Sim, é possível amar o ser humano”, disse o alemão com uma atípica seriedade. “Caso você não o conheça tão bem”, divertiu-se, mostrando que o tom inicial era balela.

“Mas Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende ter uma pessoa: ‘continuarei a ter prazer em conversar com ela daqui a 30 anos?’”, Rubem pareceu não notar o jeito fanfarrão do seu interlocutor e tentou mostrar que o conhecimento do outro é a base do amor.

A faxineira ficou intrigada. Há 30 anos era casada com o velho jardineiro. Amava-o, claro. O amor cansado e fiel, sem surpresas, sem paixões avassaladoras, sem ciúme. Por um instante, imaginou-se jovem, percorrendo o mundo conhecendo as outras dez mil pessoas que o Sr. Bukowski disse que a gente amaria mais. Tomou coragem e, decidida a afastar os seus novos pensamentos, interrompeu um papo sobre Jack London (que ela não fazia ideia de quem se tratava) e perguntou: “É mesmo verdade esta história dos milhares de andantes neste mundo de meu Deus que eu amaria mais do que o meu marido?”

Os dois escritores olharam para a velha mulher, como se a notassem pela primeira vez. Ela ficou ruborizada e arrependida de ter falado qualquer coisa.

O Rubem sorriu gentilmente e, pelo visto, entendia todos os pensamentos da senhora. Afinal, ele escreveu tudo sobre o casamento e suas analogias com gaiolas, asas, tênis e frescobol. 

Bukowski olhou para ela, avaliou sua feliz ignorância, decidiu-se por não prolongar aquele papo, e respondeu com o seu melhor tom de blague: “Mas a gente nunca conhece essas pessoas”. E virou o último gole de uísque.

Dizem que as frases desse diálogo ganharam o mundo através dos tempos.

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