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O bilhete, o armário e a balança

Estou de mudança. Além da arrumação de caixas, chega o inevitável momento de decidir que papéis seguem comigo e quais levarão o destino de lixo. Encontrei, embaixo de uma conta de telefone, um bilhetinho que ganhei de um grande amigo há muitos anos atrás. Se existe algo de bom em preparar mudanças é isso: achar tesouros perdidos que carregam histórias e lembranças. O bilhete trouxe tudo isso e ainda veio carregado de uma saudade imensurável. Larguei as caixas no chão e corri para contar a vocês a história de Bipe, um amigo do Ensino Fundamental. A arrumação das coisas podia esperar. A vontade de partilhar uma linda história, não.

Seu nome era Péricles, mas todos o chamavam de Bipe. O apelido veio em forma de resenha nos primeiros dias de colegial: uma referência ao remédio Biperideno, usado no tratamento de Parkinson. Bipe não tinha a doença, mas era dono de um peculiar tique nervoso na perna. Sempre tão piadista, ele adorou (e adotou) o apelido. Excetuando a família (que sempre o chamou de “Peu”), ele era Bipe para todos.

O que mais posso falar sobre ele? Era um querido. Até hoje consigo me lembrar do seu jeito falastrão e engraçado. Bonito e inteligente. Brincalhão e ousado. E então, sem avisos prévios, ele mudou completamente. Drasticamente. Ficou calado e cabisbaixo. Introspectivo e pensativo. Por mais que perguntássemos, ele nunca falava. Nada contava. Até um dia… sentei ao seu lado, estávamos sós, eu insisti, pedi confiança, ofereci ajuda e abracei-o. Era o que faltava. Ele explodiu. Começou a chorar e contou o que tanto o atormentava: era heterossexual e estava apaixonado loucamente por uma menina.

Juro para vocês que eu nunca havia desconfiado. Olhei-o chocado, mas não era hora para julgamentos. Falou da dúvida cruel que estava em seu coração: assumia sua condição sexual para a família e amigos ou continuava a fingir que era homossexual? Antes de o coração ser invadido por um sentimento completamente novo, nunca tinha passado pela sua cabeça sair do armário. O medo sempre foi maior, só que agora uma paixão dominava tudo. O que os amigos iriam dizer? E os pais? E se todos o abandonassem, envergonhados? Como contar que era heterossexual numa sociedade completamente heterofóbica? Lembro como hoje dos seus medos, lágrimas e confusões.

Escondi o meu choque (e uma leve decepção) e comecei ajudar a colocar tudo na balança e ver o peso das coisas. Gabriel – e eu tinha quase certeza – não iria aceitar as verdades que Bipe estava quase gritando, como se há muito estivesse entaladas na garganta. Bipe nunca suportou seriados musicais e mentia descaradamente sobre os jantares na casa da avó para ver futebol. Se aquilo me deixava boquiaberto, imagina o que faria com o Gabriel? Não, ele não seria tão complacente. Mas, como eu estava disposto a pesar tudo com ele, tratei de mostrar o lado positivo: se ele fosse logo sincero não seria mais necessário fingir que sabia de cor as músicas das divas americanas e o que ele realmente conhecia de trás para frente eram as últimas contratações dos times cariocas. Mas, porra, como ele ainda assistia a esse esporte falido sem nenhum glamour e – pausa para recuperar do choque – dizia sem errar como e quando ocorria um impedimento?

Com a família era ainda pior. Como contaria para o pai Cassiano – até hoje meu dentista, por sinal – que ele achava um suplício ir ao shopping comprar roupas com ele? E como – como, meu Deus do céu – falaria para o pai Breno que ele sabia trocar a resistência do chuveiro? Tão acostumados com ele dando uma de frágil amante de moda, como agiriam se soubessem que Bipe amava engenharia, jeans e camiseta branca? Mas, voltando à balança, se contasse logo a verdade não precisaria mais entrar em blogs de moda e muito menos apagar as consultas aos sites de elétrica no histórico de navegação do computador que ficava na sala. Seria libertador.

Mas o pior – e até hoje eu vejo claramente a amargura que havia em seus olhos e sua voz – era mentir sobre a sexualidade, de fato. Bipe fingia – e fingia muito bem – que gostava de homem e, na realidade, seu objeto de desejo mesmo eram as mulheres. Assumir isso nos dias de hoje é coisa complicada. Eu mesmo não conseguia imaginar sua dor. E então eu descobri que ele costumava mentir nas rodinhas do colégio de um ou outro cara que tinha ficado. E que o tal namorado de Porto Alegre (“loiro, lindo e super fofo”) era falso, fruto da sua imaginação para fugir de possíveis pretendentes. Foi então que me lembrei do cara lindo que ele tinha ficado no aniversário de Hugo. Bipe falou que durante o beijo pensava nas mulheres que achava sedutoras para tentar se excitar. Sem sucesso e sem ereção. Recorreu a uma mentira suprema: fingiu atender a uma ligação e falou a todos que seu primo não estava passando bem. Funcionou tanto que eu mandei uma mensagem no outro dia perguntando sobre a saúde de Paulinho.

Como quem pede desculpas, ele falou que tentou se encaixar. E, sejamos sinceros, tentou mesmo e isso ninguém pode negar. Ficou com meninos, foi para várias festas GLS, baixou músicas de divas que gritam sem parar, visitou blogs de moda e, certo dia, comprou até uma revista gay na companhia de todos os amigos. Tentou, tentou e tentou. Não conseguiu. E o coração estava pedindo verdade. Seus olhos e vozes mudaram de tristeza para emoção quando foi falar da sua menina. E percebi o quanto Bipe estava apaixonado. Seria injusto com sua própria vida que ele continuasse a mentir pelos amigos e pela família. O sentimento era bonito. Contou que ela estava completamente apaixonada por ele também. Eu conhecia a menina – ele tinha me apresentado certa vez na sorveteria como sua “amiga lésbica”. Passou na minha cabeça que eles realmente estavam muito próximos. Ela também sofria com as mesmas coisas. Nessa sociedade tão preconceituosa, também ela ainda não tinha se assumido heterossexual. Fiquei do seu lado e opinei que o ingrediente do amor pesava muito. Era impossível ir contra um romance tão verdadeiro e tão bonito. Era impossível não abraçar o amigo sabendo que ele ia passar muito sufoco e enfrentar tantos olhares julgadores.

Não demorou muito e eles se assumiram. A vida fora do armário não era fácil. Mas lá fora, podiam ficar juntos. E felizes. Hoje, Bipe é um heterossexual com orgulho. E tenho certeza que ele ficará contente com esse texto.

2013-02-28 14.42.29

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